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Internamentos sociais Covid reduzem vagas disponíveis

Existem doentes Covid-19 internados nos hospitais, que estão a ocupar vagas e entrar erradamente para as estatísticas de internamento nacionais. 

De acordo com o Barómetro de Internamentos Sociais da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares (APAH), à data de 5 de maio de 2020, 18% dos 810 doentes internados com Covid-19 estavam em situação de internamento inapropriado – ausência de sintomatologia, elegíveis para alta clínica e sem motivos de saúde que justifiquem a sua permanência em ambiente hospitalar.

Este indicador, que contempla apenas os dados registados em 32 instituições, de todas as regiões geográficas a nível nacional (incluindo Açores e Madeira), mostra que as taxas de ocupação nacionais reveladas habitualmente nem sempre correspondem a casos graves e podem incluir cenários internamentos sociais. No período em análise, foram reportadas um total de 2.069 camas reservadas a doentes Covid-19, o que representa uma taxa de ocupação de cerca de 39% a nível nacional.

Para João Araújo Correia, presidente da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna (SPMI), o problema com os doentes Covid é semelhante ao que já existe na atual realidade hospitalar em Portugal.

“Os mais afetados são pessoas com mais idade e com mais doenças, e mais uma vez não temos onde os por, depois do vírus passar. Nós aqui até fomos bafejados pela sorte porque os hospitais pararam, nomeadamente a atividade cirúrgica. Como tal, podemos dar-nos ao luxo de ter uma capacidade de internamento de doentes Covid que nunca ultrapassou os 50%, 55%. Os que não podiam sair tínhamos sítios para os ter. Mas com a retoma da atividade cirúrgica vamos ter de juntar aos sociais que já tínhamos, os novos sociais do Covid. Esta situação vai ser ainda mais complexa.” 

A falta de capacidade de familiares ou cuidadores é apontado como o principal motivo de internamentos inapropriados de doentes com Covid-19 (29% dos casos). No entanto, a falta de capacidade da Estrutura Residencial Para Idosos (ERPI) em garantir condições apropriadas de isolamento, e o facto de os doentes estarem a aguardar por um teste negativo para poderem ser admitidos na Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados (RNCCI), são respetivamente o segundo e terceiro principais motivos dos internamentos inapropriados de doentes Covid.

Os casos identificados são maioritariamente de pessoas com idades iguais ou superiores a 70 anos (77% dos casos). A região Norte responde por cerca de 73% dos casos, seguindo-se Lisboa e Vale do Tejo (15%) e o Centro com 8%. Os casos sociais apresentam uma duração média de 16,5 dias de internamento.

Mais de 500 pessoas estão nos hospitais apesar de terem tido alta

A nível global, os internamentos sociais têm impacto no prolongamento da ocupação das camas em ambiente hospitalar, no aumento dos tempos de espera para internamentos programados e, consequentemente, na respetiva degradação dos cuidados de saúde prestados à população. 

A 4ª edição do Barómetro de Internamentos Sociais da APAH, EY e da SPMI, revela que, até 18 de fevereiro de 2020, foram reportados um total de 1.551 internamentos inapropriados (excluindo estabelecimentos psiquiátricos), valor que representa cerca de 8,7% do total dos doentes internados à data.

Em termos de custos, extrapolando o valor total para um ano dos internamentos inapropriados, o impacto estimado é de cerca de 184M€ para o Estado. 

“Estamos perto de 200 milhões de euros de desperdício que podiam ser utilizados em outros pontos da rede. Estas camas ocupadas estão a impedir que outros doentes acedam aos cuidados de saúde. De uma forma genérica temos estado a apelar a uma resposta concertada. Percebemos que que tem existido esforço de desenvolvimento da rede de cuidados continuados e mesmo da segurança social, mas faltam novas soluções e novas respostas, porque o problema continua a crescer”, disse Alexandre Lourenço, administrador hospitalar e presidente da APAH.

As regiões do Norte e Lisboa e Vale do Tejo são as que apresentam uma maior relevância na distribuição dos casos sociais, sendo responsáveis por 81% do total dos casos a nível nacional. Os 1.551 doentes internados inapropriadamente apresentam uma demora média de internamento de 77,4 dias.

 “O impacto económico é brutal. Temos de aprender a gastar bem. Para mim é incompreensível que desperdicemos constantemente tanto dinheiro, 184,1 milhões de euros, com doentes que não deviam estar no hospital”, destacou João Araújo Correia.

25% das camas dos serviços de medicina interna estão em permanência ocupadas com doentes com alta clínica, e ao mesmo tempo, 36% do total de camas sob a responsabilidade da Medicina Interna estão fora dos nossos serviços. Cerca de 600 doentes permanecem dias internados num serviço de urgência. As nossas camas desperdiçadas correspondem efetivamente a pior tratamento aos doentes que também lá estão, e isso deve ser relevante, acrescentou o executivo.

Razões para internamentos sociais

À semelhança do que acontece atualmente no contexto Covid-19, a nível global, os três principais motivos de internamentos sociais estão associados à:

  • Falta de resposta da Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados (RNCCI)
  • Incapacidade de resposta do familiar ou cuidado
  • Falta de capacidade da Estrutura Residencial Para Idosos (ERPI)

 Embora se mantenha que a principal causa dos internamentos inapropriados, esteja ligada à rede nacional de cuidados paliativos e continuados, o que é facto é que o maior número de dias corresponde à segurança social. Apesar de a resposta da rede de cuidados continuados ter melhorado, as coisas acho que estão sem eira nem beira em relação à segurança social. É absolutamente impossível. São meses e meses de espera que temos para isto, sublinhou João Araújo Correia.

Temos de fazer alguma coisa. Há um gasto de dinheiro muito grande, e um desgaste enorme das equipas com doentes que deviam estar noutro sítio. Isto só se resolve com respostas exteriores, lembrou.

A 4ª edição do Barómetro de Internamentos Sociais da APAH contou com a participação de 40 estabelecimentos hospitalares (+7 que na 3ª edição) do Serviço Nacional de Saúde e do Serviço Regional de Saúde dos Açores, representando cerca de 90% do número de camas das regiões participantes.

João Araújo Correia, presidente da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna (SPMI)
Alexandre Lourenço, administrador hospitalar e presidente da APAH

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