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Excesso de mortalidade: há 6300 mortes a mais. Porque está a morrer tanta gente?

Portugal registou mais 6 312 mortes este ano, face à média de óbitos observada no período homólogo de 2015-2019. Deste total, a Covid-19 responde apenas por 1 822 óbitos, ou seja, existem 4 490 mortes por justificar.

O clima de medo e o encerramento de alguns serviços de saúde desencorajaram as pessoas a ir aos hospitais, e conduziram a alguns constrangimentos em termos de assistência e disponibilidade de recursos. Tudo isto pode ter contribuído para um aumento das mortes por outras doenças, mas justifica este excesso de mortalidade?

Síntese INE@Covid-19

Impacto Covid -19

De acordo com os mais recentes dados do INE, entre 2 de março, data em que foram diagnosticados os primeiros casos com a doença Covid-19 em Portugal, e 30 de agosto foram registados 57 971 óbitos em Portugal. Os primeiros dois meses de 2020 registaram uma mortalidade inferior à média dos últimos cinco anos. No entanto, a partir de março o número de óbitos começou a aumentar. Esta data coincide com o aumento dos casos Covid no nosso país, mas o acréscimo da mortalidade neste período só é explicado em parte pelas mortes atribuídas ao coronavírus.

Síntese INE@Covid-19

Mais morte em casa

Apesar do maior número de mortes ter ocorrido em estabelecimentos hospitalares, os dados mostram um aumento da proporção de óbitos em domicílio e outro local (46,1%) – nomeadamente na semana de 16 a 23 de março, período em que o país se encontrava em confinamento. 

Mais de 70% dos óbitos foram de pessoas com idades iguais ou superiores a 75 anos. O maior acréscimo no número de óbitos registou-se na região Norte, com exceção da última semana de junho e as primeiras de julho, em que este acréscimo foi superior na Área Metropolitana de Lisboa. 

1100Síntese INE@Covid-19

Serviços de saúde menos disponíveis

O confinamento e as demais políticas de segurança implementadas em Portugal levou ao encerramento de inúmeras unidades de saúde e ao consequente cancelamento de consultas, rastreios e cirurgias. De acordo com os dados do INE, o aumento dos óbitos em 2020 atingiu um primeiro pico na semana 15 (6 a 12 de abril). Apesar de não termos acesso a dados permanentemente atualizados, os últimos números disponibilizados pelo estudo “Impacto da pandemia na prestação de cuidados de Saúde em Portugal” da Ordem dos Médicos e a Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares (APAH), que analisam o nível do acesso a consultas, cirurgias, urgências, MCDTs e rastreios não realizados ou adiados no 1º semestre 2020 (análise de janeiro a julho), comparativamente ao período homólogo de 2019, mostram que:

Fonte: “Impacto da pandemia na prestação de cuidados de Saúde em Portugal”, Ordem dos Médicos e APAH
Fonte: “Impacto da pandemia na prestação de cuidados de Saúde em Portugal”, Ordem dos Médicos e APAH

De acordo com dados do Serviço Nacional de Saúde, no início de março realizaram-se mais de um milhão de consultas médicas presenciais, mas em abril, este número caiu para 461 mil.

Fonte: Portal Transparência SNS

Vaga de calor

O segundo pico mais elevado foi registado na semana 29 (13 a 19 de julho) – 800 óbitos. Este aumento é parcialmente atribuído ao facto de o mês de julho de 2020 ter sido extremamente quente. 

No global, mais de 70% dos óbitos foram de pessoas com idades iguais ou superiores a 75 anos. Comparativamente à média de óbitos observada em período homólogo de 2015-2019, morreram mais 5 518 pessoas com 75 e mais anos, das quais mais 4 371 com 85 e mais anos. Esta é tipicamente a população mais vulnerável às vagas de calor.

Dados do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) mostram que o mês de julho de 2020 foi o mais quente dos últimos 90 anos (desde 1931). Em termos de temperatura média, houve um aumento de 2,91 graus face ao normal. Houve três ondas de calor em julho:

  • 4 a 13 – interior Norte e Centro
  • 9 a 18 nas regiões do interior Norte, Centro e Sul
  • 25 a 31 em especial no interior Norte

Estas datas estão alinhadas com um dos maiores picos de excesso de mortalidade. A onda de calor de julho, pode ajudar a explicar parte do excesso de mortalidade. No entanto, não justifica os valores totais e a manutenção de excesso de mortes ao longo de tantos meses.

O que diz a DGS?

Questionada sobre estes números na conferência diária sobre a situação epidemiológica, a diretora-geral da Saúde, Graça Freitas, diz que apurar as causas desta mortalidade excessiva é um “processo complexo”.

“Codificar as causas de mortes é muito difícil, porque a maioria das pessoas, quando morre, tem um historial de doenças que pode levar a uma causa de morte final, que pode não ser a sua causa básica. Isto é difícil de explicar, mas é um processo complexo, tem regras que são definidas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e em Portugal esse processo de codificação das causas de morte, que determina para o INE a forma como se morre no nosso país, é feito manualmente.”

A DGS está a finalizar agora, em 2020, a análise de todas as causas de morte de 2019, um processo moroso porque exige “formação específica e a utilização de uma classificação internacional complexa”, explicou Graça Freitas. 

“Não é qualquer pessoa, são pessoas especialmente treinadas para fazer codificação das causas de morte. Quando acabarmos de codificar o ano de 2019, vamos começar o atual ano, 2020.”

Consequências futuras

As rotinas de vigilância de doenças crónicas e o diagnóstico precoce de doenças agudas e crónicas foram descurados devido ao impacto da pandemia. A disponibilidade e as prioridades dos serviços de saúde aliadas ao ainda existente receio de recorrer aos cuidados necessários podem comprometer a saúde das pessoas a médio prazo e alterar os indicadores de referência nacionais. 

Suspensos a 13 de março, quando o Governo decretou a paragem de atividades não urgentes, os rastreios oncológicos para o cancro da mama, colo do útero e colorretal foram retomados apenas no início de julho. 

De acordo com o estudo da Ordem dos Médicos e da APAH, entre janeiro e julho deste ano foram realizados menos 4% de rastreios do cancro da mama, menos 3% do cancro do colo do útero e menos 2% do cancro do colon e reto. 

Fonte: “Impacto da pandemia na prestação de cuidados de Saúde em Portugal”, Ordem dos Médicos e APAH

Ana Raimundo, presidente da Sociedade Portuguesa de Oncologia, disse ao Expresso que o impacto, em oncologia, irá verificar-se só daqui a três, quatro, cinco anos.

“Quando olharmos para as curvas de sobrevivência, nessa altura, iremos verificar que as taxas de mortalidade serão superiores”.  

De acordo com as administrações regionais de Saúde (ARS), em anos anteriores, as taxas de adesão aos rastreios rondaram os 80% no caso do colo do útero, os 60% na mama e os 50% no do colorretal. A tendência mantinha- se no início do ano, mas “diminuiu progressivamente, podendo espelhar um receio da população na ida aos serviços de saúde”.

Um estudo, publicado a 20 de julho na revista Lancet Oncology, reflete precisamente sobre o impacto que estas medidas terão, a longo prazo, na mortalidade dos doentes com cancro.

O estudo recolheu dados de mais de 93 mil doentes com cancro da mama, colon e reto, esofágico e do pulmão, e comparou três cenários distintos com os números pré pandémicos. Para estes quatro tipos de cancro, a estimativa aponta para mais 3 291 a 3 621 mortes adicionais, num prazo de 5 anos.

Fonte: Lancet Oncology

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Conferência diária sobre a situação epidemiológica – Graça Freitas, diretora-geral da Saúde
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