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Organismos defendem possível relevância das máscaras quando bem utilizadas. Mas estão a ser bem utilizadas?

A Organização Mundial de Saúde, a ECDC e outras organizações defendem que as máscaras são importantes ferramentas contra a propagação deste vírus, e promovem a sua utilização em todo o mundo. Mas ressalvam também que a sua eficácia fica comprometida quando não são bem utilizadas, e que podem inclusive ser prejudiciais para os utilizadores quando tal acontece.

Atualmente a obrigatoriedade das máscaras foi aceite em muitos países como uma medida importante para o combate à Covid-19. Mas será que a maioria das pessoas está a cumprir as indicações das organizações de saúde, e a utilizar corretamente estes equipamentos a ponto de não comprometer a sua eficácia e invalidar o seu propósito?

No início da pandemia foram criadas inúmeras campanhas que mostravam às pessoas as boas práticas de manuseamento e utilização das máscaras. Quase 8 meses depois, as pessoas seguem as regras?

  • As mãos nunca devem nunca tocar na frente da máscara – interior e exterior – durante a sua utilização e remoção, e devem ser desinfetadas antes e depois da máscara ser colocada/retirada (durante 20 a 60 segundos). O não cumprimento desta regra pode conduzir à autocontaminação.
  • As máscaras não devem ser colocadas/guardadas nos bolsos, nas malas, ao pescoço, em cima de mesas, nos carros ou em outras superfícies. Esta prática pode danificar ou contaminar a máscara.
  • Devem cobrir nariz, boca e queixo sem qualquer folga.
  • Não é igualmente recomendada a utilização da mesma máscara durante todo o dia, ou a partilha da máscara com terceiros, mesmo que da mesma família.

A DGS salienta num documento que a utilização de máscaras pela população implica o conhecimento e domínio das técnicas de colocação, uso e remoção, e que a sua utilização não pode, de forma alguma, conduzir à negligência de medidas fundamentais como o distanciamento social e a higiene das mãos.

Lembra também que:

“A utilização de máscaras pela população é um ato de altruísmo, já que quem a utiliza não fica mais protegido, contribuindo, isso sim, para a proteção das outras pessoas, quando utilizada como medida de proteção adicional.”

A própria OMS sublinha a eficácia das máscaras está dependente da sua boa utilização, lembra que:

“… o uso exclusivo da máscara é insuficiente para uma proteção adequada contra a Covid-19”, e que “o tipo de máscara escolhida e a sua utilização devem estar dependentes da realidade de cada local em termos de infeção, do perfil da pessoa e do local para onde se desloca.”

A posição em torno das máscaras tem sofrido algumas alterações ao longo do tempo. Num relatório técnico de abril – Use of masks in the community by non-ill individuals a ECDC sublinha que a utilização de máscaras faciais pode transmitir uma falsa sensação de segurança, e conduzir a um distanciamento físico insuficiente, a uma etiqueta respiratória e higiene das mãos inadequadas e mesmo à circulação de pessoas doentes. Alerta ainda para o facto de que:

“Existe o risco de que a remoção inadequada da máscara facial, o manuseamento de uma máscara facial contaminada ou a maior tendência para tocar na cara durante a utilização da máscara facial por pessoas saudáveis possam aumentar o risco de transmissão.”

Neste mesmo documento sobre a sua utilização na comunidade, destaca que “o papel das infeções assintomáticas na transmissão é desconhecido”, e que as provas proveem de estudos de disseminação viral, investigações epidemiológicas dos grupos de Covid-19 e inferências através da modelização.

Esta organização defende que uma máscara facial pode ajudar a reduzir a propagação da infeção na comunidade, e explica que as orientações da OMS recomendam condicionalmente a utilização de máscara facial na comunidade para indivíduos assintomáticos em epidemias ou pandemias graves, mas refere também que existem provas contraditórias sobre o efeito protetor para o utilizador das máscaras faciais médicas no que diz respeito à síndrome pseudogripal e à gripe confirmada laboratorialmente em contextos domésticos.

“Devido à falta de provas, ainda não foi recomendado que as pessoas que não estão doentes ou que não prestam cuidados a um doente devam usar uma máscara para reduzir a transmissão da COVID-19 ou da gripe.”

“Importa salientar que todas as provas pertinentes provêm de estudos sobre a gripe e outros coronavírus e podem não ser diretamente aplicáveis à COVID-19”, diz.

Num documento mais recente, de 24 de setembro – Directrizes para a implementação de intervenções não-farmacêuticas contra a COVID-19 – a ECDC defende igualmente que a utilização de máscaras faciais é recomendada tanto em ambientes interiores (por exemplo, supermercados, lojas e transportes públicos), como em ambientes exteriores apinhados. Reforça também que a utilização é fortemente recomendada em grupos em risco de desenvolver complicações graves em caso de infecção (por exemplo, indivíduos em grupos etários mais velhos ou com condições subjacentes) e em pessoas cuja atividade implica um contacto próximo com o público.

No entanto, sublinha novamente que:

“Nos países/regiões/municípios/comunidades que registem transmissão comunitária, as autoridades devem assegurar que as intervenções não farmacêuticas são compreendidas e corretamente aplicadas pela população – distanciamento físico, higiene das mãos e uso das máscaras.”

Máscaras de tecido

A OMS aconselha a utilização das designadas máscaras sociais, defendendo que funcionam como barreira à propagação, mas ao mesmo tempo faz várias ressalvas que questionam a sua eficácia.

Num vídeo educativo, April Baller, da Infection Prevention & Control da OMS, diz que às máscaras de pano podem ser usadas por toda a população, em locais com muitos infetados com Covid-19 e sempre que a distância de pelo menos um metro não seja garantida. Mas no seu site, esta organização de saúde refere que as máscaras de pano são desaconselhadas a pessoas que pertençam aos designados grupos de risco, nomeadamente em espaços interiores ou em locais onde a distância de segurança não pode ser garantida.

São também desaconselhadas a pessoas com mais de 60 anos, com sintomas, com problemas de saúde ou a cuidadores. Para este público, a OMS recomenda as máscaras cirúrgicas.

Nas diretivas da OMS – atualizadas em junho – pode ler-se que:

Muitos países recomendam o uso de máscaras de tecido para o público em geral. No momento, o uso generalizado de máscaras por pessoas saudáveis no ambiente comunitário ainda não é sustentado por evidências científicas diretas ou de alta qualidade, pelo que existem potenciais benefícios e danos a considerar.

Apesar disto, a OMS explica que:

“… atualizou as suas orientações e aconselha que, para prevenir a transmissão da Covid-19 de maneira eficaz em áreas de transmissão comunitária, os governos devem encorajar o público em geral a usar máscaras em situações e ambientes específicos como parte de uma abordagem abrangente para suprimir a transmissão de SARS-CoV-2”.

Sobre este tema, a ECDC diz no seu documento que não existem provas de que as máscaras faciais não médicas ou outras coberturas faciais sejam um meio eficaz de proteção respiratória para o utilizador da máscara.

“De um modo geral, foi demonstrado que várias máscaras faciais não médicas têm uma eficiência de filtragem muito reduzida (2 %-38 %).”

Num estudo, as máscaras cirúrgicas de algodão foram associadas a um maior risco de penetração de microrganismos e síndrome pseudogripal em comparação com a não utilização de máscaras.

“Existem provas indiretas limitadas de que as máscaras faciais não médicas fabricadas a partir de vários materiais podem diminuir a libertação para o ambiente de gotículas respiratórias produzidas pela tosse, mas os dados disponíveis sugerem que as máscaras faciais não médicas são menos eficazes do que as máscaras médicas como meio de controlo da fonte.”

Estão a ser utilizadas as máscaras de tecido indicadas como seguras?

De acordo com a OMS, uma máscara social eficaz tem de ter três layers de tecido: o exterior deve ser resistente à água, o interior deve ser absorvente e o do meio deve atuar como filtro.

No início do ano escolar, vários agrupamentos distribuíram máscaras aos alunos para promover a sua utilização, mas muitas delas não respeitavam estas indicações. O mesmo acontece com muitos modelos feitos em casa, adquiridos pelas empresas ou à venda nas lojas.

As regras de utilização e manuseamento são iguais para as máscaras cirúrgicas e para as máscaras de tecido, sendo que neste último caso recomenda-se a sua lavagem a altas temperaturas (60 graus) ou, no caso de não existir essa possibilidade, com água e sabão e ferver durante 1 minuto.

Apesar das recomendações de utilização, a Organização Mundial de Saúde incentiva os países que impuseram o uso de máscaras cirúrgicas e não cirúrgicas a pessoas saudáveis a realizarem estudos sobre este tópico, nomeadamente verificarem se:

“… as partículas de SARS-CoV-2 podem ser expelidas através de máscaras não médicas ou de baixa qualidade usadas por pessoas com sintomas Covid-19, enquanto estão a tossir, espirrar ou falar. Também é necessária investigação sobre o uso de máscaras não médicas por crianças, e por outras pessoas e ambientes com contextos médicos críticos”.

Podemos medir a eficácia da política de máscaras?

A utilização das máscaras está longe de ser um tema consensual. Existem muitos estudos que indicam que que estes meios de proteção pessoal são eficazes e reduzem o risco de propagação do vírus, mas existem igualmente inúmeros outros que defendem que não existem indícios científicos que este mecanismo de proteção seja eficiente na contenção do Covid.

Argumentam também que muitos dos estudos que atestam a eficácia das máscaras, e que sustentam as diretivas das organizações de saúde e de muitos países, são tipicamente feitos em ambientes controlados, onde todas as regras de higiene e de boa utilização são rigorosamente cumpridas. A utilização real das máscaras afasta-se tipicamente dos padrões de utilização analisados laboratorialmente. No primeiro estudo em comunidade realizado pelo CDC não foi possível aferir qualquer efeito protetor das máscaras.

Podemos já estabelecer uma relação concreta e objetiva entre o uso de máscaras e o controlo da pandemia nos diferentes países? A verdade é que existem inúmeras variáveis envolvidas –sociais, culturais, políticas e até processuais.

A utilização de máscaras nunca foi obrigatória na Suíça e na Suécia, e os padrões de casos e mortes são distintos. As máscaras passaram a ser obrigatórias em Itália e em Espanha no verão, e os números revelam uma tendência crescente até ao momento.

Our World in Data
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Independentemente da opinião, e de acordo com as indicações da própria Organização Mundial de Saúde, uma eventual análise da eficácia das máscaras nas políticas de contenção de um país estará sempre totalmente dependente da aceitação e correta utilização destes equipamentos de proteção, e do cumprimento de todas as regras.

* à data de 02/11 /2020

Nota: Alguns países estão atualmente a reforçar as políticas relativamente às máscaras. A tabela espelha a realidade à data de 21 de outubro.

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