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Estudos: Escolas não são maior foco de infeção Covid-19. Crianças transmitem menos

O encerramento de escolas é uma resposta errada para combater a pandemia do coronavírus, e não ajudou na luta contra a Covid-19, simplesmente removeu um sistema que proporciona às crianças apoio, alimentação, segurança e educação, disse a UNICEF.

Num comunicado divulgado este mês, a agência da ONU defendeu que os países não estão a tomar as medidas necessárias para tornar as escolas seguras face ao vírus e estão a fechá-las desnecessariamente.

“Apesar de tudo o que aprendemos sobre a Covid-19 e sobre o papel das escolas na transmissão comunitária estamos a avançar na direção errada – e a fazê-lo muito rapidamente”, disse Robert Jenkins, Chefe Global de Educação da UNICEF.

“As provas mostram que as escolas não são os principais motores desta pandemia. No entanto, estamos a assistir a uma tendência alarmante em que os governos estão de novo a encerrar escolas como primeiro recurso e não como último recurso. Em alguns casos, isto está a ser feito a nível nacional e as crianças continuam a sofrer os impactos devastadores na sua aprendizagem, bem-estar mental e físico e segurança.”

De acordo com dados recolhidos pela UNESCO, as salas de aula de quase 1 em cada 5 crianças em idade escolar a nível mundial – ou 320 milhões – estão fechadas a partir de 1 de Dezembro, um aumento de quase 90 milhões em relação aos 232 milhões em 1 de Novembro.

Esta declaração surge numa altura em que vários países encerram novamente as escolas e anunciam novos confinamentos até ao início de 2021, para travarem o agravamento da segunda onda de Covid-19.

Mas são as escolas uma grande fonte de propagação do vírus?

Estudos

Um dos maiores estudos que envolveu 191 países revelou que não foi observada qualquer correlação entre a reabertura de escolas e os níveis de infeção (Insights for Education). Mas já existem outros indicadores que vão ao encontro desta conclusão.

O Hospital Infantil SJD de Barcelona estudou o impacto da Covid e a capacidade de transmissão das crianças em 22 campos de férias na área de Barcelona. O projeto, que envolveu mais de 2000 pessoas, identificou um total de 39 casos: 30 crianças e 9 monitores. Os 30 casos positivos entraram em contacto com 253 crianças durante o campo de férias – 12 foram infetadas. A taxa (R) de 0,3 é quase seis vezes inferior à da população geral na altura do estudo (1,7 a 2) nas áreas onde as atividades estavam a decorrer. A maioria dos casos pediátricos (22) detetados não transmitiu qualquer infeção nos campos.

Segundo Iolanda Jordan, principal investigadora do estudo:

“O estudo mostra que existe uma correlação elevada entre a incidência da infeção na população em geral e o número de casos detetados nos centros da mesma zona, o que sugere que os participantes nas atividades de Verão não têm sido grandes transmissores da doença e que o rastreio proactivo nas zonas de alta incidência pode ser muito eficaz.”

Um outro estudo que analisou a infeção e transmissão do SARs-CoV-2 num contexto educativo de reabertura de escolas em Inglaterra concluiu que a reabertura de escolas durante o semestre estudado foi associada a muito poucos casos ou surtos em Inglaterra, que as crianças foram maioritariamente infetadas em casa e que a maioria estava assintomática.

Das 57 000 escolas e infantários avaliadas, o estudo encontrou apenas 113 casos associados a 55 surtos – casos que foram fortemente correlacionados com as taxas de infeção locais.

“Encontramos muito pouca transmissão entre os estudantes, o que é consistente com outros estudos. Mesmo os irmãos não transmitiram a infeção nos seus grupos individuais. Também houve muito poucos eventos de transmissão entre os funcionários e as crianças, especialmente dadas as dificuldades em manter o distanciamento físico com as crianças mais novas.”

São, aliás, vários os estudos que mostram que o maior risco de contacto está nos lares, não nas escolas, e que as crianças e adolescentes tem menor suscetibilidade de contrair e transmitir o vírus. 

Investigadores da Direção Nacional de Saúde e genética deCODE, uma empresa de genética humana em Reykjavik (Islândia), monitorizaram todos os adultos e crianças do país que ficaram em quarentena depois de potencialmente expostos esta Primavera, utilizando o rastreio de contacto e sequenciação genética para identificar ligações entre vários clusters de surtos. Este estudo com 40 000 pessoas revelou que as crianças com menos de 15 anos tinham cerca de metade da probabilidade de serem infetadas, e apenas metade da probabilidade de o vírus ser transmitido a outros adultos. Quase todas as transmissões do coronavírus a crianças provinham de adultos.

A Alemanha recolheu dados das suas mais de 53 000 escolas e creches no Outono, numa altura em que os casos comunitários aumentaram, uma média de 32 escolas por semana tiveram mais de dois casos positivos. Susanne Kuger, diretora do Centro de Monitorização Social do Instituto Alemão da Juventude, diz que “muitas vezes são os adultos a transmitir a doença, quando deixam as crianças, ou quando o pessoal se mistura na sala de descanso.”

Apesar das medidas tomadas nos EUA relativamente às escolas, o próprio CDC indica que “as investigações de casos identificados em ambientes escolares sugerem que a transmissão de criança para criança nas escolas é incomum e não a causa primária da infeção pelo SARS-CoV-2 em crianças cujo início da infeção coincide com o período em que frequentam a escola, particularmente em pré-escolas e escolas primárias.”

Este organismo admite que existem provas contraditórias sobre o impacto do encerramento/reabertura de escolas nos níveis de transmissão comunitária, mas sublinha que as evidências do rastreio de contactos nas escolas e dos dados de vários países da UE sugerem que a reabertura das escolas não está associada a aumentos significativos na transmissão comunitária.

“A informação disponível indica também que o encerramento de instituições de acolhimento de crianças e de ensino não são provavelmente uma medida de controlo eficaz para a transmissão comunitária da Covid-19, e é pouco provável que tais encerramentos proporcionem uma proteção adicional significativa da saúde das crianças, uma vez que a maioria desenvolve uma forma muito suave de Covid-19, caso se contagiem.”

Na Ásia, um estudo coreano que testou 13 000 estudantes e funcionários também concluiu que a reabertura da escola não gerou um aumento dos casos na população pediátrica. Segundo os dados, a 31 de Julho, 44 crianças de 38 escolas e infantários foram diagnosticadas com Covid-19 após o início das aulas presenciais. Mais de 13 000 estudantes e pessoal foram testados – apenas um estudante foi infetado na sala de aula.

Escolas em Portugal

A ideia de que as crianças são grandes fontes de contágio e de que as escolas são espaços de risco continua a estar presente em Portugal. No entanto, Graça Freitas sublinhou várias vezes que as escolas não são o principal local de propagação do vírus e que a habitação continua a ser o principal foco de contágio. Em novembro, a diretora-geral da Saúde descartou a aplicação de novas regras para as escolas na prevenção da pandemia da covid-19, salientando que têm sido “locais relativamente seguros”.

“Têm acontecido casos mas não têm sido grande fonte de transmissão, sobretudo escolas com crianças mais pequenas, que de facto não contraem nem transmitem muito a doença”

No final de novembro, Portugal tinha 68 surtos ativos de infeção em escolas.

Em termos de mortes, o nosso país tem apenas registados dois óbitos Covid na faixa etária abaixo dos 20 anos. Uma bebé de 4 meses e uma jovem de 19 anos, ambos casos com graves patologias associadas. 

O Secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, recentemente pediu aos governos e doadores que priorizem a educação de todas as crianças, incluindo as mais marginalizadas. O Quadro para a Reabertura de Escolas da UNICEF, publicado conjuntamente com a UNESCO, o ACNUR, o PAM e o Banco Mundial, oferece conselhos práticos às autoridades nacionais e locais.

O documento sublinha que as interrupções no tempo de ensino em sala de aula podem ter um grave impacto na capacidade de aprendizagem das crianças, e não só:

“Estar fora da escola também aumenta o risco de gravidez na adolescência, exploração sexual, casamento infantil, violência e outras ameaças. Além disso, o encerramento prolongado interrompe serviços essenciais oferecidos na escola, como imunização, alimentação, apoio psicossocial e à saúde mental, podendo ainda causar stress e ansiedade devido à perda de interação com os colegas e interrupção da rotina”.

“O que aprendemos sobre a escolarização durante o tempo da COVID é claro: os benefícios de manter as escolas abertas superam em muito os custos do seu encerramento, e o encerramento de escolas a nível nacional deve ser evitado a todo o custo”, reforçou Jenkins.

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