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Nova variante: motivo de preocupação ou alarmismo exagerado?

O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, fez saber que foi detetada em Inglaterra uma nova variante do SARS-CoV-2, possivelmente até 70% mais transmissível que a anterior. Esta notícia foi confirmada pelo responsável máximo pela saúde britânica, Matt Hancock, que assumiu que o vírus estava descontrolado em Inglaterra.

No seguimento do aumento de casos nas regiões sul e leste de Inglaterra e do noticiado elevado o risco de contágio nessas áreas vários países europeus proibiram as viagens para e do Reino Unido, entre os quais Portugal.

No entanto, as características desta nova variante estão a gerar reações diferentes um pouco por todo o lado.

O que está em causa

Todos os vírus sofrem inúmeras alterações genéticas (mutações). Os coronavírus, tal como o SARS-CoV-2, sofrem menos mutações que os vírus influenza, responsáveis pelas gripes, e são por isso mais estáveis.Ainda assim, trata-se de um processo perfeitamente normal. A grande questão é saber se essas mutações agravam a severidade da doença e a sua transmissibilidade.

Segundo a informação disponibilizada pelo governo britânico, as alterações podem ser resumidas em 23 mutações, mais precisamente, 19 mutações e 4 deleções. Algumas das mutações ocorreram na proteína espigão (spike), a que dá acesso às células do hospedeiro.

Através de modelos estatísticos foram associadas taxas estimadas de crescimento epidémico (Rt), em algumas regiões que registam a presença desta variante.

Segundo a publicação dos Serviços de Saúde Pública Inglesa, três destas mutações têm efeitos biológicos potenciais. Manifestam particular preocupação com a mutação N501Y, por ser um importante ponto de contacto com o recetor celular.

Visão da OMS

A generalidade das reações dentro da comunidade científica foram de  cautela.

A responsável técnica da Organização Mundial de Saúde da COVID-19, Maria Van Kerkhove, disse na segunda-feira que a nova estirpe do SARS-Cov-2 do Reino Unido está a ser estudada em laboratório, e que o foco está em três pontos: transmissão, gravidade da doença e apresentação clínica e resposta do organismo aos anticorpos após a infeção.

“Os dados facultados pelo RU reportam um aumento da transmissão devido a esta variante, mas penso que é importante contextualizar esta informação. O que eles nos dizem é que estão a verificar um aumento da reprodução – o número de pessoas que um indivíduo consegue infetar – passando de 1.1 para 1.5.”

“Estão a tentar determinar que percentagem deste aumento pode ser atribuída a esta variante, e que parte pode ser resultado da alteração comportamental das pessoas.”

“Em termos de severidade da doença, a informação que temos é que não há quaisquer alterações na apresentação clínica ou na gravidade. Mas, mais uma vez, é algo que ainda estão a estudar em pacientes que foram internados com esta variante e os que estão hospitalizados com outros vírus em circulação.”

“Está a ser igualmente estudada a resposta em termos de anticorpos. Os laboratórios devem revelar novos dados nos próximos dias ou semanas. O RU indicou-nos que não deverá existir qualquer impacto nas vacinas, mas existem inúmeros estudos em curso.”

Reações 

Kári Stefánsson, CEO da deCODE, referência mundial na sequenciação genética e que publicou um dos estudos mais citados sobre a propagação da doença, é contundente:

“Na nossa opinião esta variante britânica do vírus não é mais contagiosa que a que existia no verão: Não há motivos para dramatizarmos este novo cenário porque mesmo que esta variável seja um pouco mais contagiosa, a diferença é muito pequena.” “Somos de opinião que não há nada nesta variante que vá além do que vimos no chamado novo coronavírus”, reforçou.

De acordo com o Rúv, este responsável sublinhou ainda que “não vê razões para o cancelamento das viagens e que suspeita que “o governo britânico e a Organização Mundial da Saúde estão a usar esta variante do vírus para encorajar as pessoas e outros países a serem mais cuidadosos no Natal”.

Antecedentes

O governo britânico e os grupos que o aconselham têm sido acusados de alarmar injustificadamente a população.

Algumas estratégias sugeridas para a adesão às medidas governamentais como “o uso dos media para aumentar a sensação de ameaça pessoal” têm sido alvo de críticas.

O governo foi mesmo forçado a alterar o registo de uma morte como sendo “por Covid” após um artigo do Centro de Medicina Baseada na Evidência (Universidade de Oxford).

Nesse artigo foi denunciado que estavam a ser consideradas mortes “por Covid” todas as mortes após teste positivo, mesmo que  ocorressem em qualquer altura após o teste, independentemente da sua causa. Essa alteração (agosto) conduziu a uma redução significativa da mortalidade associada à Covid-19.  

Mais recentemente, foram igualmente expostas imprecisões e o uso de modelos matemáticos que se têm demonstrado errados em inúmeras ocasiões. Preocupante também foi a utilização de cenários desatualizados e que exageravam em muito o número de mortes e hospitalizações para justificar novos “lockdowns”.

A própria autoridade de estatísticas do Reino Unido tem alertado para a falta de transparência dos dados e dos modelos apresentados.

A propósito das estimativas usadas para justificar o segundo “lockdown” em Inglaterra, a mesma entidade afirma que “os dados e premissas para este modelo não foram compartilhados de forma transparente”. Isto para além de várias outras críticas à forma como a informação é facultada.

Também não nos podemos esquecer de que, na fase inicial da pandemia, existiram inúmeras informações enganosas sobre possíveis novas estirpes mais perigosas do vírus.  

Há motivo para alarme?

A generalidade das perspetivas científicas indica que um grande alarme  pode ser injustificado. 

A variante já é conhecida há algum tempo (setembro) e não há evidências de impacto nas hospitalizações e mortes.

A postura do governo britânico ao longo desta pandemia também sugere uma tendência para exagerar os riscos e até usar informação parcial, ou mesmo errada, para esse propósito.

No entanto, neste caso, temos de considerar dois pontos importantes. O primeiro, o facto da maioria dos modelos usados considerarem dados reais e não apenas projeções (o que os pode tornar mais fiáveis).

Também o facto de existir um mecanismo pelo qual é plausível que o vírus se torne mais eficaz na contaminação dá mais credibilidade ao caso. 

Resta saber então se essas mutações conduzem a aumento significativo de contágios, se tal se manifesta em termos de hospitalizações (e mortalidade)  ou se existe algum impacto na eficácia das vacinas. 

Por isso, dentro de algum tempo teremos mais dados sobre se se trata de mais uma suspeita não confirmada ou se terá algum impacto na evolução da pandemia.

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