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Artigo Lancet: Análise da fiabilidade dos testes de antigénio (rápidos) e comparação com PCR

O recurso aos testes rápidos de antigénio para deteção do SARS-CoV-2 é cada vez mais frequente em muitos países, mas a sua utilização tem sido muito questionada, nomeadamente a nível estratégico.

A nova medida do governo britânico de distribuir testes rápidos de coronavírus às autoridades locais em Inglaterra dividiu a comunidade médica e científica e foi alvo de várias críticas, com alguns profissionais a pedirem que os testes fossem suspensos porque poderiam falsamente tranquilizar as pessoas e aumentar a propagação da covid-19. Em causa está o nível de imprecisão. No piloto de Liverpool, e de acordo com os cientistas, o teste não detetou infeção em 60% das pessoas – 30% de pessoas tinham cargas virais muito elevadas, ou seja, têm maior risco de espalhar o vírus a outras pessoas.

Numa análise publicada no The Lancet, os investigadores indicam que “as críticas interpretaram mal os dados do relatório do projeto-piloto em Liverpool”.

“Quando os testes rápidos e PCR foram feitos em Liverpool, a curva epidémica estava a diminuir. Neste ponto, a priori, deve esperar-se que um teste de saúde pública altamente sensível à deteção de vírus infeciosos apresente uma sensibilidade global baixa em relação à PCR em pessoas sem sintomas ou exposições conhecidas.”

O documento sublinha ainda a confusão sobre os valores do limiar do ciclo PCR (Ct), as cargas virais e infecciosidade. Não há uma normalização internacional entre laboratórios e ensaios, deixando a calibração do Ct com carga viral mal comunicada e vulnerável a erros de interpretação.”

Citando um estudo feito a estudantes da universidade de Birmingham, o documento sublinha que os primeiros resultados, amplamente divulgados sugeriram que os testes rápidos tinham apenas 3% de sensibilidade para a deteção da SARS-CoV-2 entre os estudantes PCR-positivos. O subdesempenho do teste foi sugerido para explicar a descoberta de apenas dois resultados positivos entre 7189 indivíduos testados.

“Na nossa opinião, o estudo de Birmingham mostrou que os estudantes assintomáticos PCR-positivos, numa altura de queda da incidência de Covid-19, tinham cargas virais baixas em comparação com os doentes sintomáticos que frequentavam os centros de testes, logo, os testes rápidos estavam a funcionar como esperado.”

A sensibilidade dos PCR

Os testes PCR são os mais utilizados atualmente estão especificamente orientados para doentes recentemente infetados com SARS-CoV-2. No entanto, e de acordo com estes investigadores, pelo facto de os fragmentos de RNA poderem permanecer durante semanas após o vírus infecioso ter sido eliminado, frequentemente em pessoas sem sintomas ou exposição conhecida, “este tipo de teste não é a melhor opção para avaliar o estado da saúde pública face a este vírus e ajudar a retardar a propagação”.

Os testes não conseguem perceber se o RNA detetado é de uma infeção anterior ou de uma infeção em curso. É uma perda evidente para a saúde, bem-estar social e económico das comunidades se indivíduos pós-infeciosos testarem positivo e tiverem de ficar isolados durante 10 dias.

Para justificar esta posição, os investigadores explicam no documento que a maioria das pessoas infetadas com SARS-CoV-2 têm uma janela de contágio de 4-8 dias. Geralmente não contêm vírus de cultura positivos (potencialmente contagiosos) 9 dias após o início dos sintomas, com a maior parte da transmissão a ocorrer antes do dia 5.

Este timing está alinhado com a recomendação de um período de isolamento de 10 dias dada pela OMS (exceto para casos muito graves). Ou seja, assim que a replicação do SARS-CoV-2 tiver sido controlada pelo sistema imunitário, os níveis de RNA detetáveis por PCR nas secreções respiratórias caem para níveis muito baixos. No entanto, os fragmentos  de RNA podem levar semanas, ou ocasionalmente meses, a sair, período durante o qual o PCR permanece positivo.

“Esta curta janela de transmissibilidade contrasta com a mediana de 22-33 dias de positividade dos PCR (mais longa com infeções graves e um pouco mais curta entre indivíduos assintomáticos). Isto sugere que entre 50 a 75% das vezes que um indivíduo é registado como positivo, ele esteja já numa fase pós-infecciosa.”

Testagem a escolas em Portugal

Em Portugal foram realizados 15 800 testes rápidos em escola. Foram testados estudantes e trabalhadores dos estabelecimentos de ensino secundário (dias 20 e 21 janeiro) e professores e funcionários de escolas que se mantiveram abertas durante as duas semanas de pausa letiva.

Apenas detetaram 50 casos positivos em 15 800 testes. Valor que corresponde a 0,32% de possíveis infetados.

De recordar que, nesta altura, Portugal apresentava o pico de registo de casos Covid.

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