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É verdade que só usamos 10% do cérebro?

Muita gente acredita que apenas usamos uma pequena parte do cérebro.

Numa sondagem online realizada nos Estados Unidos, a maioria (65%) dos mais de 2000 adultos inquiridos, consideraram verdadeira a afirmação de que usamos apenas 10% do nosso cérebro. Num outro estudo, realizado junto de licenciados de psicologia, um terço estimou em 10% a capacidade cerebral que utilizamos.

No Brasil, numa amostra composta apenas por licenciados, quase 60% deram a mesma resposta – 10%. Neste estudo em particular, 6% dos neurocientistas concordaram com esta ideia, e 26% responderam “não saber”. De acordo com um grande estudo realizado nos Estados Unidos, cerca de 33% dos professores entrevistados – ensino primário e secundário – também acreditam nesta teoria dos 10%.

Só usamos 10% do cérebro?

Tal como acontece com muitas outras ideias que se propagam por milhões de pessoas, e que se mantêm ao longo do tempo, esta teoria não tem nenhum fundamento. Trata-se de um mito.

Existem inúmeras evidências que desmentem esta ideia. Várias tecnologias, como tomografias e ressonâncias magnéticas funcionais, revelam que todas as partes do cérebro estão envolvidas nas nossas tarefas diárias. Mesmo com níveis de ativação distintos, e consoante as atividades, não foram encontradas zonas completamente inativas. 

As origens do mito

As origens deste mito não estão bem definidas. Entre as várias hipóteses estão a má interpretação de alguns artigos científicos do início do séc. XX, inclusive por parte de investigadores da época.  

Independentemente da origem, esta ideia foi posteriormente disseminado de várias formas, como por exemplo, através de livros de autoajuda, séries de televisão e até anúncios comerciais. Mas o que teve maior impacto na sua perpetuação foi Hollywood, que explora este apelativo conceito até aos dias de hoje,  de forma recorrente. É o que acontece em filmes como o Phenomenon (1996), Limitless (2011) ou Lucy (2014). 

“The average person uses 10 percent of their brain capacity. Imagine what she could do with 100 percent.”Frase do poster do filme Lucy, protagonizado por Scarlett Johansson e Morgan Freeman. 

Como potenciar o cérebro

É verdade que há muitas outras questões sobre o funcionamento do cérebro que (ainda) não têm resposta. Quando as tivermos, poderemos compreendê-lo. 

No entanto, a ideia de que ainda não utilizamos 90% do cérebro não é verdadeira. Caem assim por terra as visões de que, se conseguirmos desbloquear as partes do cérebro inativas, adquirimos super capacidades ou até um estado de sabedoria absoluta.

Mas, apesar dessa perspetiva excitante sair frustrada, não significa que já estejamos nos limites das nossas capacidades. Pelo contrário, mesmo já utilizando o cérebro na sua generalidade  temos uma infinidade de coisas para aprender e melhorar.

Desde logo, podemos começar por não acreditar em tudo o que vemos nos filmes.

Referências

Beyerstein, B.L. (1987). The brain and consciousness: Implications for psi phenomena. The Skeptical Inquirer, 12(2), 163-173.

Beyerstein, B.L. (1999c). Whence cometh the myth that we only use ten percent of our brains? In S. Della Sala (Ed.), Mind myths: Exploring popular assumptions about the mind and brain (pp 1-24). Chichester: John Wiley & Sons.

Hughes, S., Lyddy, F., & Lambe, S. (2013). Misconceptions about psychological science: A review, Psychology Learning and Teaching, 12, 20-31. doi: http://dx.doi.org/10.2304/plat.2013.12.1.20

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Comentários

1 Comment

  1. A ideia de que só usamos 10% do cérebro, contem, em si, a presunção errada de que se conhece 100% do cérebro. De outra forma não seria possivel determinar os 10%.
    Um dos factores de disseminação desta falácia é o livro pseudocientífico, “Dianética”, escrito pelo fundador da “igreja” cientologista L. Ron Hubbard, no início da década de 1950, e que vendeu (e ainda vende) milhões de cópias em todo o mundo.


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