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Sarampo: factos e mitos

O sarampo, doença infeciosa muito frequente na infância antigamente (estima-se que praticamente todos os indivíduos nascidos antes de 1957 tenham imunidade adquirida pela doença) foi praticamente eliminado dos países desenvolvidos após o advento da vacinação generalizada com 2 tomas (aos 18 meses e 5 anos). Com efeito, até 2017 estava considerado como eliminado em Portugal com apenas casos muito esporádicos de importação. No entanto, com o crescimento do cepticismo em relação à vacinação, e também com o aumento de viagens internacionais e de terapêuticas imunossupressoras (e que portanto contraindicam a vacinação dado tratar-se de uma vacina viva atenuada) tem vindo a aumentar a proporção de indivíduos suscetíveis a esta doença terminando com vários surtos autóctones.

Trata-se de uma situação de alguma preocupação dada a falta de familiaridade dos clínicos com esta doença (o que leva a atrasos de diagnóstico e a exposição desnecessária de outros indivíduos) e até da população em geral, o que leva a uma certa desvalorização da gravidade.

Trata-se de uma doença extremamente contagiosa (90% dos indivíduos não imunes expostos a um caso de sarampo irão desenvolver a doença na ausência de medidas profiláticas) e que se pode revestir de uma certa gravidade dados os riscos de complicações (pneumonia em 1/3 dos casos, internamento em 1/5 casos, geralmente por pneumonia ou desidratação aguda grave, sendo particularmente temíveis as encefalites que ocorrem entre 1/500 a 1/4000 dos casos, originando muitas vezes sequelas), e de fatalidade (1/300 a 1/1000 casos numa população ocidental – os riscos são muito maiores caso haja, por exemplo, deficiência de vitamina A).

Após um período de incubação de cerca de 14 dias, o sarampo começa como uma gripe (febre, tosse, conjuntivite), e apenas do terceiro para o quarto dia aparece a erupção cutânea característica acompanhada de lesões nas mucosas que permitem fazer diagnóstico (pontos de Koplik).

A evolução é geralmente benigna e autolimitada, mas podem ocorrer complicações. Para além das supracitadas e das quais as encefalites são particularmente temíveis, é de notar a amnésia imunológica. Com efeito, uma infeção por sarampo leva a perda de anticorpos adquiridos por vacinação ou exposição anterior a outros patógenos, o que se por um lado pode diminuir a incidência de doenças autoimunes nos indivíduos recuperados desta doença, aumenta e muito o risco de complicações (pneumonias, meningites, tuberculose) no período de convalescença e bastante para além dele. Tal amnésia imune leva a que a vacinação contra sarampo seja das medidas que mais contribuiu para a diminuição da mortalidade infantil.

A vacinação é feita com vacina viva atenuada associada a vacina da parotidite e rubéola (VASPR) sendo os adultos considerados totalmente vacinados com 2 doses. Em caso de exposição, poderá ser feita profilaxia de contactos não imunes com vacina até ao 4ª dia ou com imunoglobulinas, pelo que é importantíssima a notificação das suspeitas à Saúde Pública a fim de orientar as eventuais profilaxias.

Dada a lamentável associação nunca provada da VASPR ao desenvolvimento de autismo (publicação esta já retirada e desmentida várias vezes), e também à mercê das situações recentemente vividas com a vacinação contra SARS-CoV-2 / CoVid19, tem havido recentemente um ceticismo em relação a todas as vacinas que se reflecte pelo menos em alguns países (como os EUA) numa diminuição da taxa de vacinação para todas as doenças infeciosas.

Sendo o sarampo tão contagioso, é natural que seja das primeiras doenças a aparecer quando diminui a vacinação. Trata-se, mais uma vez, de uma situação a acompanhar sem pânicos, mas com a noção da realidade.

Tiago Marques é médico infecciologista

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