‘Parar a máquina’: cidadãos franceses preparam boicote e desobediência contra o Governo

O protesto granjeia apoios tanto à esquerda (com a França Insubmissa) como à direita.

Em França, um movimento cívico inédito quer paralisar o país inteiro já na próxima quarta-feira. Sem quaisquer filiações partidárias ou sindicais, o “Bloqueons tout” apela a um boicote aos bancos e às grandes empresas, e à desobediência civil em larga escala. O ‘gatilho’ do descontentamento foram as medidas de austeridade anunciadas pelo primeiro-ministro em Julho, mas o plano já vinha de trás. Entretanto, o Governo caiu esta segunda-feira, dia 8, atirando o país para mais uma crise política num espaço de apenas três anos.

“Boicote, desobediência e solidariedade” são as palavras de ordem de um movimento orgânico em França que pretende paralisar o país a partir desta quarta-feira, dia 10, como forma de protesto contra o orçamento de Estado anunciado em Julho pelo Governo francês. A ideia dos organizadores – um colectivo em que se contam cerca de 20 grupos cívicos – é mesmo “bloquear tudo” (Bloquons tout), parando de consumir (em particular, em grandes superfícies), de efectuar pagamentos (sobretudo com cartões bancários) e até de trabalhar.

O descontentamento deste colectivo – que se assume independente e sem qualquer ligação a partidos ou até mesmo a sindicatos – visa tanto o poder político como as grandes empresas.

As grandes cadeias de supermercados, como a Carrefour e a Auchan, ou de comércio electrónico, como a Amazon, são algumas das poderosas marcas que os organizadores apelam a que se boicote, a par com os grandes bancos, de onde é sugerido que se retire o dinheiro depositado.

Simultaneamente, recomenda-se também a quem se queira juntar ao movimento a “ocupação pacífica de locais simbólicos”, tais como edifícios administrativos do poder local e câmaras municipais.

Tudo isto, com o intuito de “parar a máquina” que está a esmagar os cidadãos “invisíveis e desgastados”.

Já no campo das medidas para a “solidariedade”, contemplam-se ainda assembleias de bairros, a criação de fundos para greves e apoios aos manifestantes que participem em actos de desobediência civil.

Movimento cresce nas redes sociais

A mobilização, que já alcançou um número significativo de pessoas – com publicações vistas por mais de 1,5 milhões de pessoas – tem sido feita sobretudo através das redes sociais (como o X, o TikTok, o Telegram e o Facebook), com recurso aos hashtags #10septembre2025 e #10septembre.

De acordo com o France24, o colectivo de cidadãos fazia, no seu site (entretanto eliminado), uma longa lista de reivindicações ao executivo francês. Nomeadamente, um investimento maciço nos serviços públicos, o fim da redução dos postos de trabalho e a manutenção de todos os feriados.

De facto, estas exigências surgiram como resposta às medidas de austeridade propostas com o orçamento para o próximo ano, o qual previa um corte de 43,8 milhões de euros para reduzir a despesa e controlar o défice crescente do país. Medidas essas que incluíam o fim de dois feriados nacionais, o congelamento de pensões e uma redução de 5 mil milhões nos gastos com a Saúde, e que não colheram nem o apoio da oposição, nem de grande parte dos franceses.

Mas, embora o protesto tenha sido espoletado com a austeridade, parece consensual que o ‘quadro’ político serviu apenas como um gatilho, uma vez que o descontentamento generalizado da população com as condições de vida já vinha de trás. De facto, a primeira convocação foi feita, nas redes sociais, em Maio; muito antes de o orçamento ter sido anunciado – só que as medidas de austeridade vieram atirar achas para a fogueira da insatisfação que já se fazia sentir.

Governo caiu esta segunda-feira

Com a oposição a declarar o chumbo do orçamento, o primeiro-ministro François Bayrou, decidiu em Agosto submeter-se a uma moção de confiança; que foi votada durante a tarde desta segunda-feira, e que, como já se antecipava, tendo em conta o sentido de voto já anunciado pelos vários partidos, fez cair o Governo francês. Desta forma, o país mergulha numa nova crise política – e terá o quinto primeiro-ministro em apenas três anos. No entanto, o protesto deverá seguir mesmo com a queda do executivo.

Movimento independente e sem filiações partidárias

Sem conexões partidárias, o movimento Bloquons tout tem atraído seguidores e simpatizantes de todos os quadrantes políticos, conotados tanto com a esquerda radical como com a direita nacionalista. Com efeito, os apoios ao protesto multiplicaram-se vindos dos partidos de esquerda, encabeçados pelo França Insubmissa, de Jean-Luc Mélenchon, mas também de figuras de direita, que intensificaram o seu apoio nas redes sociais sobretudo após os cortes anunciados por François Bayrou.

Há, inclusivamente, comparações com o movimento dos Coletes Amarelos, de 2018, que ‘explodiu’ com o aumento dos preços dos combustíveis, e que também não tinha quaisquer ligações a partidos ou organizações sindicais.

Fontes

‘Block everything’: What we know about the movement to shut down France on September 10

Notícia actualizada com a queda do Governo francês, pelas 18:08.

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