Fonte: https://www.facebook.com/sociedadeportuguesadepneumologia/post de 22 de Agosto de 2024

Informações falsas, citação de dados não identificáveis, amplificação de benefícios e omissão de efeitos adversos são apenas algumas das distorções presentes no podcast do Observador que promove a vacinação covid-19 em adultos. O facto de Filipe Froes, Gustavo Tato Borges e Sofia Duque terem um histórico de relações profissionais e financeiras com as empresas que comercializam vacinas covid, inclusive com a que patrocina o podcast, levanta sérias questões sobre este caso de aparente publicidade encapotada na nossa comunicação social.

No artigo anterior, centrámo-nos nos conflitos de interesse não revelados dos três primeiros convidados do podcast e no facto de existirem, em pelo menos dois episódios, referências implícitas e comentários favoráveis à vacina do patrocinador.

Importa, por isso, analisar também o conteúdo do podcast. Entre as falhas de rigor, transparência e enquadramento científico identificadas, destacamos 12 pontos. 

1- Alegação de que as vacinas contra a covid-19 funcionam ‘exatamente de forma semelhante’ às vacinas mais antigas” 

No primeiro episódio do podcast Sofia Duque, uma das convidadas afirma:

“Na verdade, as vacinas contra a COVID-19 funcionam exatamente de forma semelhante às outras vacinas que já conhecemos há muito tempo e que usamos com confiança e segurança há muito tempo.” Sofia Duque | Covid-19 e idosos: quem precisa de reforço – Observador 

Não é verdade que estas funcionam “exatamente de forma semelhante” às vacinas antigas. Embora todas as vacinas tenham o mesmo objetivo biológico geral, gerar uma resposta imunitária que ajude numa exposição futura, os seus mecanismos de ação podem ser bastante diferentes. 

Por exemplo, as vacinas mais utilizadas foram as de RNAm, da Pfizer e da Moderna. Elas introduzem instruções genéticas sintéticas que ensinam as células do corpo a produzir a proteína spike (parte do vírus da covid).

Por outro lado, as vacinas de vetor viral, da AstraZeneca e da Janssen, também foram bastante utilizadas no início. Elas utilizam um vírus modificado (o vetor) para entregar o material genético do SARS-CoV-2 às células do corpo. 

Ambas as tecnologias são diferentes das tradicionais, muito menos usadas durante a crise covid. As vacinas mRNA, apesar de estudadas há algumas décadas, apenas recebeu autorização de uso de emergência durante a pandemia.

O facto de serem bastante diferentes das tradicionais, levou mesmo a uma alteração de definição do que é uma vacina.

Na definição inicial do CDC norte-americano, disponível em 2019, a vacina era definida como um produto que levava o sistema imunológico a produzir imunidade.

 Fonte: Vaccines: Vac-Gen/Imz Basics main page, 17 de Março de 2019 (traduzido)

Já na versão atualizada depois da introdução das vacinas covid, a definição passou a destacar a estimulação de resposta imunológica e a proteção contra uma doença. Não a imunidade contra a mesma.

 Fonte: Vaccines: Vac-Gen/Imz Basics main page, 28 Dezembro de 2021 (traduzido)

Essa mudança reflete o facto de as vacinas contra a covid com estas novas tecnologias, não só terem mecanismos de ação diferentes, como terem efeitos distintos da maioria das vacinas tradicionais. O que reflete, igualmente, a natureza mutante destes vírus. 

Mesmo dicionários, como o Merriam-Webster, também expandiram a definição em 2021, explicitamente por causa das vacinas de RNAm, adicionando preparações de material genético que levam as células a produzir uma substância antigénica. 

Logo, é factualmente errado sugerir que ”as vacinas contra a COVID-19 funcionam exatamente de forma semelhante às outras vacinas que já conhecemos há muito tempo e que usamos com confiança e segurança há muito tempo.” 

2- Alegação de que vacinas contra a covid apresentam ao organismo partes inofensivas do vírus 

“No fundo, as vacinas vão apresentar ao organismo, ao nosso corpo humano, ao nosso sistema imunitário, partes do vírus, partes que não são causa de doença e, portanto, o nosso organismo vai conhecer aquelas porções do vírus, vai desenvolver a produção de anticorpos contra aquelas partes do vírus, que ainda que não causem doença, os anticorpos vão conseguir ter uma função ativa quando estão perante o próprio vírus da COVID-19.” Sofia Duque | Covid-19 e idosos: quem precisa de reforço – Observador 

Apesar de a proteína spike, produzida devido à vacinação covid, ser apenas parte do vírus e, por si só, não poder causar covid-19 não significa que seja inofensiva e não possa causar doença. 

No início do processo de vacinação contra a covid muitos especialistas alegaram que a proteína spike era rapidamente degradada e que não passaria do braço onde a vacina era aplicada. No entanto, essa alegação rapidamente se provou errada. 

Inúmeros estudos demonstraram a circulação da proteína spike vários meses depois da infeção. A título de exemplo um estudo de Junho de 2025, que analisou a presença da proteína spike do SARS-CoV-2 nas artérias cerebrais após a vacinação, concluiu:

“Embora a possibilidade de expressão da proteína spike devido à infecção assintomática por SARS-CoV-2 não possa ser totalmente excluída, este estudo demonstrou a presença prolongada da proteína spike do SARS-CoV-2 nas artérias cerebrais após a vacinação com mRNA.  (…) Esses achados levantam preocupações significativas quanto à biodistribuição de vacinas baseadas em nanopartículas lipídicas e sua segurança a longo prazo.”  

Além disso, há estudos que associam efeitos adversos da vacinação covid com a presença dessa proteína em “livre circulação”. Um estudo publicado na Circulation detectou spike livre em circulação em jovens com miocardite pós-vacinal, o que sugere que essa pode ser a causa (ou uma das causas) dessa reação adversa.

Deste modo, dizer que são apresentadas partes que não são causa de doença é enganoso. As vacinas RNAm levam o organismo a produzir a proteína Spike, que é o principal antigénio do vírus e pode ter actividade biológica, pelo que não é correcto apresentá-la como absolutamente inerte ou incapaz de contribuir para efeitos adversos. 

3- Alegações de maior proteção das ‘novas vacinas’ contra a infeção 

Outra alegação feita nos dois primeiros podcasts é de que as “novas vacinas” oferecem maior proteção contra a infeção.

Mas há, de facto, evidência de que estas novas vacinas vão produzir anticorpos em maior quantidade, o que é bom, significa que vamos ter uma resposta contra o vírus mais eficiente e esses anticorpos vão permanecer durante mais tempo (…) vão ter quantidades de anticorpos mais elevadas e depreendemos que isso signifique maior proteção. Mais eficácia. Mais eficácia na proteção contra a infecção, o que é muito bom.”

“Eu, pelo menos com os meus doentes, é um argumento também que uso, tal como o outro, de garantir maior proteção. ” Sofia Duque em Covid-19 e idosos: quem precisa de reforço – Observador 

“E essas vacinas têm provado até que têm uma capacidade de dar uma imunidade tão forte ou mais quanto a de mRNA e têm a possibilidade até de durar mais tempo o seu efeito.Gustavo Tato Borges em Hesitação vacinal: o que está em causa? – Observador 

Apesar de existir evidência de que a vacina da Hipra, BIMERVAX, pode gerar níveis mais altos de anticorpos neutralizantes do que o reforço com Comirnaty da Pfizer contra algumas variantes do SARS-CoV-2, não há base sólida para concluir, a partir dos estudos disponíveis, que por isso seja mais eficaz a prevenir a infeção ou a doença COVID-19 no mundo real. 

A própria EMA diz, na informação do medicamento, que a eficácia de BIMERVAX foi inferida por “immunobridging”, isto é, por comparação da resposta imunitária com a de uma vacina já autorizada, e não demonstrada por um ensaio desenhado para medir diretamente infeções, hospitalizações ou mortes.

No ensaio que comparou BIMERVAX como reforço heterólogo com Comirnaty como reforço homólogo, o quadro foi misto. A EMA refere no relatório de avaliação que BIMERVAX falhou o objectivo primário de não inferioridade contra a estirpe ancestral D614G aos 14 dias, mas foi superior contra a variante Beta e contra a Omicron BA.1, e não inferior contra a Delta nesse mesmo momento.

Os dados oficiais apontam para um quadro misto : aos 14 dias, os títulos neutralizantes foram mais baixos com BIMERVAX para D614G, semelhantes para Delta e mais altos para Beta e Omicron BA.1. Aos 182 dias, os títulos com BIMERVAX surgem mais altos do que os de Comirnaty para as quatro variantes mostradas nessa tabela, incluindo D614G, Beta, Delta e Omicron BA.1.

Ou seja, a alegação de que “produz mais anticorpos” não é totalmente verdadeira. 

Mas, o mais problemático nessas alegações  nessas alegações é de que mais anticorpos logo mais “eficácia na proteção” ou que isso “prove” mais imunidade, dado que isso não está demonstrado nestes estudos. A eficácia foi inferida por imunobridging. Além disso, o seguimento de 6 meses publicado em 2025 reporta que BIMERVAX foi não inferior a BNT162b2 para anticorpos neutralizantes contra XBB.1.5 aos 6 meses, mas não mostrou uma vantagem clínica clara: não houve casos graves de COVID-19 em nenhum grupo e os casos ligeiros foram semelhantes, 50,4% com PHH-1V/BIMERVAX versus 47,8% com BNT162b2. 

Logo, não existem dados que comprovem uma vantagem significativa em relação à proteção contra a covid. Por isso, as alegações de que as vacinas da Hipra “garantem maior proteção” são infundada.

4- Vantagens destas “novas vacinas”: efeitos adversos 

“Outra vantagem destas vacinas, e que também é muito importante, é o facto de ela, comparativamente às outras, causar menos efeitos secundários, ainda que sejam aqueles efeitos secundários ligeiros.Sofia Duque em Covid-19 e idosos: quem precisa de reforço – Observador 

Ora o estudo financiado pela própria Hipra, que compara a sua vacina, BIMERVAX, com a Comirnaty, da Pfizer, apresenta dados que contrariam essa afirmação. 

“Especificamente, eventos de intensidade leve foram relatados por 66,7% e 57,9% dos indivíduos nos grupos PHH-1V (BIMERVAX) e BNT162b2 (Pfizer), respectivamente”

Mas também Gustavo Tato Borges produz informações enganosas sobre os efeitos adversos. Apesar de a sua alegação de que as “novas vacinas” desencadeiam efeitos adversos mais ligeiros ser suportada por esse estudo comparativo, ele afirma igualmente que a vacina proteica ”tem menos reações adversas”.

Ora, em primeiro lugar, esta vacina apenas foi comparada com outra vacina, a da Pfizer. Depois, a percentagem de efeitos adversos globais é muito elevada e aproximada na comparação entre as vacinas (89,3% dos participantes no grupo BIMERVAX e 94,4% no grupo Comirnaty (Pfizer). 

Finalmente, é também omitido o elevado número de reações adversas  moderadas e severas (22,6% e 36,5%, respetivamente). 

5- Imunidade contra infeções 

Outra das alegações feitas por Sofia Duque e Filipe Froes é a de que a vacinação covid “protege” toda a comunidade e que “previne a infeção”

“E, portanto, é uma forma de nós protegermos toda a comunidade e ter uma proteção cruzada. Vacinamos aqueles que até não são vulneráveis para conseguir proteger os que são vulneráveis.Sofia Duque em Covid-19 e idosos: quem precisa de reforço – Observador 

“Neste momento, a nossa melhor arma para combater o longo COVID é precisamente a vacinação. Por um motivo simples: a vacinação, apesar de não ser 100% eficaz, em muitos casos previne a doença e, portanto, se a pessoa não tem a infecção inicial, não evolui para as complicações da doença.” Filipe Froes em Covid longo: e depois da infeção? – Observador 

É verdade que os primeiros ensaios clínicos das principais farmacêuticas, apontavam para uma elevada eficácia relativa contra a infecção sintomática (não contra a infecção em geral e a transmissão, que não foram analisadas nesses estudos). No entanto, o mundo real e investigações posteriores rapidamente demonstraram que esse efeito era muito limitado, quer contra a infeção quer contra a transmissão.

Assim, essa aparente eficácia inicial, rapidamente se revelou pouco duradoura, nomeadamente quando surgiram sucessivas variantes. Alguns estudos sugeriram mesmo que essa eficácia se revelava negativa após alguns meses, ou seja, que o risco de infeção a médio prazo poderia aumentar após a vacinação.

6- Alegação da prevenção de inflamação 

Sofia Duque argumenta igualmente que a vacinação ao prevenir a inflamação evita o envelhecimento. 

“Sabemos que um dos mecanismos através dos quais envelhecemos é a inflamação. Então, se nós pudermos evitar inflamação, como é o caso daquela que as infeções geram, será uma forma de nós conseguirmos um envelhecimento mais ativo e mais saudável e chegar aos 100 anos com toda a nossa capacidade.”  Sofia Duque em Covid-19 e idosos: quem precisa de reforço – Observador 

Aliada à questão primária da prevenção da infecção, a alegação de que a vacina previne a inflamação carece de contexto, pois ela ocorre quer na infecção natural quer na vacinação. 

Na infeção, a inflamação faz parte de um processo natural essencial para combater a doença e criar imunidade. 

Na vacinação, o processo de inflamação também é essencial e é promovido por adjuvantes ou outros mecanismos como as nanopartículas lipídicas das vacinas RNAm. A lógica das vacinas é que esse processo seja mais controlado, nomeadamente sem que ocorra uma infeção completa e, assim, se previnam consequências mais negativas dando simultaneamente imunidade ou proteção contra a doença.

No entanto, não é apenas em alguns casos de doença que essa resposta inflamatória pode causar danos significativos. Muitas das reações adversas graves às vacinas têm como base fenómenos autoimunes ou auto-inflamatórios. 

A miocardite pós-vacinação mRNA é um exemplo bem documentado, sobretudo em homens jovens, embora os mecanismos ainda não estejam totalmente estabelecidos.

Além disso, é importante ter em conta outros factos. Em primeiro lugar, a imunidade é, regra geral, superior após infecção o que previne processos inflamatórios futuros. Em segundo lugar, a inflamação (quer a expectável, quer a patogénica) provocada pela vacinação pode ocorrer sem que fosse necessária, dado que o vacinado nem sempre contacta com o agente da vacina. Isto é particularmente significativo nas vacinações anuais ou semestrais aparentemente defendidas por Sofia Duque.

“E é por isso que, em alguns países, as pessoas mais velhas até estão a receber a vacina contra a Covid-19 de seis em seis meses. Acontece assim, por exemplo, na França, precisamente para reforçar o nível de anticorpos numa altura em que os anticorpos já diminuíram muito e em que a pessoa praticamente já não está protegida contra a Covid-19.” –  Sofia Duque em Covid-19 e idosos: quem precisa de reforço – Observador 

7- Alegação da segurança das vacinas contra a covid 

Outra alegação categórica feita no segundo episódio foi de que estudos asseguram que a vacina protege e é segura.

“E por isso, há uma série de estudos sobre a forma como a vacina trabalha, que protegem as pessoas e que se sabe que é segura.” Gustavo Tato Borges em Hesitação vacinal: o que está em causa? – Observador 

É perfeitamente aceitável que médicos tenham essa opinião sobre a vacinação contra a covid. No entanto, essa posição está longe de ser unânime e existem muitos outros investigadores e entidades de saúde que discordam radicalmente desta perspetiva.

Mas, ainda mais relevante, é que há cenários em que o benefício esperado da vacinação covid pode ser muito pequeno ou em que o risco individual pode superar o benefício previsível. Entre esses casos, estão os homens jovens, sobretudo quando previamente infectados; as crianças e adolescentes saudáveis; pessoas com reações adversas após uma dose anterior (como miocardite, pericardite, ou reação alérgica grave).

8- Alegação de ausência de conflitos de interesse de saúde

Outra questão abordada no segundo episódio foi a sugestão de que não existe qualquer conflito de interesse ligado às entidades que tomam decisões em saúde. 

“Quer dizer, a DGS, o Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge, o Ministério da Saúde, as unidades locais de saúde, não têm qualquer interesse em passar uma informação falsa para vacinar mais ou menos, ou para dar este medicamento ou aquele, porque não ganham efetivamente dinheiro com isto.” Gustavo Tato Borges em Hesitação vacinal: o que está em causa? – Observador 

O fenómeno da tentativa de interferência de grandes farmacêuticas em políticas públicas é incontroverso, sendo o lobby regulado em muitos países. Em Portugal, apesar de o lobby não estar regulado, os conflitos de interesse são evidentes nesta área.

Entidades como as sociedades médicas que emitem pareceres científicos e propõem medidas de saúde pública às entidades governamentais são altamente financiadas pela indústria que está dependente dessas políticas.  

As sociedades que intervêm nestas áreas de saúde estão entre as que mais conflitos de interesse têm. Entre elas, a Sociedade Portuguesa de Pneumologia de que Filipe Froes faz parte há muitos anos e de que é atualmente vice-presidente.

O caso de Filipe Froes ilustra a necessidade de transparência reforçada sobre pagamentos da indústria e funções consultivas em organismos públicos. Ao mesmo tempo que recebia avultadas quantias das farmacêuticas, foi consultor da DGS e integrou o painel de especialistas da Comissão Técnica de Vacinação, um “grupo consultivo da Direção-Geral da Saúde”.  

9- Alegação de retorno de 16 a 19 vezes superior ao investimento 

Outra das alegações feitas por Gustavo Tato Borges é de que as vacinas têm um elevado retorno financeiro, na ordem dos 16 a 19 euros.

(…) a vacina é a intervenção de saúde pública mais custo-efetiva. Um euro aplicado em vacinas tem um retorno à volta de 16 a 19 euros, se não estou em erro.” Gustavo Tato Borges em Hesitação vacinal: o que está em causa? – Observador

Encontrámos dois estudos que referiam esses valores: o Return on investment from childhood immunization in low- and middle-income countries, 2011-20 – Johns Hopkins University, que sugere os 16 euros, e o Socio-Economic Value of Adult Immunisation Programmes – OHE , que sugere os 19 euros.

Estudo que cita um retorno de 16 vezes 

Em primeiro lugar, a citação tem o problema de âmbito. 

A estimativa de retorno de 16 vezes diz respeito a países menos desenvolvidos, com rendimentos baixos e médios, portanto, com realidades muito diferentes da nossa.

Depois, diz respeito a vacinas pediátricas, não a vacinas para adultos nem contra a covid, que são o tema do podcast. 

Outras fragilidades

Mas, além disso tudo, a análise possui fragilidades metodológicas relevantes, algumas reconhecidas pelos próprios autores, como o uso de modelos estáticos, escassez de dados empíricos por país, incerteza sobre preços, problemas de cobertura e dificuldade em medir a influência relativa de cada parâmetro.

Fonte: Return on investment from childhood immunization in low- and middle-income countries, 2011-20 – Johns Hopkins University 

A não inclusão de inúmeros custos associados à vacinação

Entre as outras lacunas está a não inclusão de inúmeros custos, por exemplo, associados a eventos adversos, indemnizações, farmacovigilância ou desperdício de vacinas. 

Conflitos de interesse e lobby

Por fim, foi financiado pela Fundação de Bill Gates, um conhecido investidor em vacinas e promovido pela sua subsidiária Gavi, the Vaccine Alliance. O trabalho resultou de colaboração com um consórcio de investigadores organizado pela Bill & Melinda Gates Foundation e pela Gavi. Dois autores tinham afiliação directa à Bill & Melinda Gates Foundation: Logan Brenzel e Damian G. Walker. 

Foi depois usado pela própria Gavi como forma de promover a sua agenda e captar investimentos públicos. Isto, sem os necessários avisos sobre os enviesamentos e fragilidades dessa alegação.

Fonte: New data confirms immunisation as a best buy in public health 

Estudo que cita os (até) 19 vezes de retorno

O documento da OHE não é um estudo clínico de eficácia vacinal, nem uma meta-análise de ensaios. É um relatório de investigação económica por contrato, baseado em revisão dirigida da literatura e modelação económica de custo-benefício para vacinas de adultos contra gripe, doença pneumocócica, herpes zoster e RSV em dez países. 

Financiamento e conflito de interesse estrutural

O relatório foi encomendado e financiado pela International Federation of Pharmaceutical Manufacturers and Associations, IFPMA. A versão publicada em Vaccines declara que a taxa de publicação também foi paga pela IFPMA e que os autores facilitaram um grupo de orientação composto por representantes de empresas associadas da IFPMA, que deram feedback sobre o manuscrito inicial. Isto não invalida automaticamente os resultados, mas aumenta o risco de seleção de enquadramento, escolha de pressupostos favoráveis e ênfase promocional nas conclusões.

Não é uma revisão sistemática nem meta-análise

Nessa mesma linha, a revisão de literatura é descrita como narrativa, ou seja, nem todos os resultados são incluídos. Como os autores admitem, a maioria da evidência identificada dizia respeito a benefícios, o que indicia viés de publicação.

O número “19 vezes” depende fortemente da monetização da vida e da saúde

A diferença entre o cenário alto, 19 vezes, e o cenário baixo, 5 vezes, mostra que a conclusão quantitativa é sensível à forma como se atribui valor monetário a mortes evitadas, anos de vida e QALYs. O próprio relatório reconhece que a escolha do método de monetização para mortalidade e morbilidade tem impacto máximo nos resultados.

Vieses que aumentam a estimativa de benefícios

Entre os inúmeros vieses, o modelo inclui custos médicos diretos de eventos adversos, mas exclui custos indiretos não médicos, como perdas de produtividade por efeitos adversos prolongados, alegando falta de dados e raridade desses efeitos. Ao mesmo tempo, monetiza benefícios amplos fora do sistema de saúde. 

Esta assimetria cria um enviesamento que favorece a intervenção (vacinação) dado incluir benefícios, mas excluir custos por falta de dados.

Alegação infundada

Deste modo a alegação de Gustavo Tato Borges de que “um euro aplicado em vacinas tem um retorno à volta de 16 a 19 euros” é enganosa e, se aplicada à nossa realidade e à população sénior, carece de qualquer fundamento.

Até porque mesmo estimativas financiadas pela própria indústria, também sujeitas a pressupostos favoráveis, apresentam retornos bastante inferiores quando analisadas vacinas específicas, populações concretas e contextos nacionais. 

10- Estimativas sobre o long covid 

No terceiro episódio Filipe Froes aborda o tema do long covid. Entre outras coisas estima o número de pessoas com essa sintomatologia. “E isto tudo, se nós extrapolarmos para a população portuguesa, eu diria que nós tivemos cerca de 300 a 350 mil pessoas que sofreram longo COVID. E nas minhas contas, eu diria que habitualmente no ano temos cerca de 30 mil a 50 mil pessoas que se queixam de um conjunto de sinais e sintomas que podem ser atribuídos à COVID longa.” Filipe Froes Covid longo: e depois da infeção? – Observador 

O pneumologista omite, no entanto, que o uso dessa definição está sujeito a inúmeras críticas que colocam em causa (1) a fiabilidade dessas estimativas ou (2) se esses sintomas derivam, de facto, da infeção pelo vírus da covid.

Conceito muito abrangente

“Long covid” pode incluir fadiga, dispneia, alterações cognitivas, palpitações, dor muscular, distúrbios do sono, ansiedade, depressão, perda de olfato, agravamento de doença prévia, sequelas de internamento e síndromes pós-virais inespecíficas. A OMS refere mais de 200 sintomas possíveis. Isto torna o rótulo clinicamente útil para não ignorar doentes, mas pouco específico para investigação epidemiológica.

Ausência de biomarcador ou teste diagnóstico específico

O CDC afirma que não há teste laboratorial aprovado que determine se os sintomas são devidos a COVID longa. A NASEM reconhece que não existe ainda biomarcador definitivo e que todos os sintomas atribuídos à COVID longa já existiam antes da pandemia. Isto abre espaço a falsos positivos, sobretudo quando os sintomas são comuns na população geral.

A infeção confirmada nem sempre é exigida

Algumas definições permitem diagnóstico sem teste positivo prévio. Isto pode ser razoável em contexto clínico, porque muitas pessoas não foram testadas, mas enfraquece estimativas populacionais. A NASEM admite que a confirmação laboratorial da infeção inicial não é exigida e que os sintomas podem ter origens alternativas.

Sintomas inespecíficos são frequentes mesmo sem COVID

Fadiga, dores, alterações do sono, dificuldade de concentração e ansiedade são frequentes na população geral. Um estudo da JAMA Internal Medicine observou que sintomas persistentes estavam mais associados à crença de ter tido COVID do que à confirmação serológica, excepto para perda de olfato, embora este tipo de estudo tenha limitações e não prove que os sintomas sejam “psicológicos”. A conclusão prudente é que sintomas persistentes não devem ser automaticamente atribuídos ao SARS-CoV-2 sem avaliação clínica.

Falta de grupos de controlo em muitos estudos

Entre os enviesamentos mais comuns à maioria dos estudos sobre long covid está a ausência sequer de um grupo de controlo comparável, sem infeção confirmada. Sem controlos, mede-se “sintomas após COVID”, na maioria muito comuns em toda a população, não necessariamente “sintomas causados pela COVID”.

Além disso, o próprio Filipe Froes admite na entrevista que o diagnóstico de  long covid pode ter como origem preocupações ou intervenções como confinamentos. “Por exemplo, as pessoas viveram durante muito tempo em confinamento, deixaram de ter interação social, ficaram muitas vezes preocupadas com o risco ou de transmitirem a doença ou de alguém ser infectado e poder ter complicações graves.

E, portanto, estas manifestações de saúde mental são muitas vezes mais tardias e temos que ter em atenção que podem resultar quer da própria infecção, quer da maneira como as pessoas lidaram com a infecção.”

11- Alegação sobre redução do risco de long covid 

Filipe Froes avança igualmente com uma estimativa sobre o papel da vacinação na prevenção do long covid.

“Nós não temos muitos dados pós-pandemia, mas nós temos inclusivamente dados suecos. Podemos dizer que quem tem três tomadas, o risco de evoluir para longo COVID reduz-se em 80, 85%. Quem tem quatro tomadas de vacina, a probabilidade de evoluir para longo COVID reduz-se em 90, 95%.” Filipe Froes Covid longo: e depois da infeção? – Observador 

O médico parece referir-se ao estudo de Lundberg-Morris et al., publicado na BMJ em 2023, “Covid-19 vaccine effectiveness against post-covid-19 condition among 589 722 individuals in Sweden: population based cohort study”. 

Em primeiro lugar, importa referir que o estudo é observacional (não permite definir causalidade), diz respeito a um período entre 27 de dezembro de 2020 e 9 de fevereiro de 2022 e os valores estimados de long covid no país nesse período foram muito reduzidos.

Mas, além de todos esses aspetos, que tornam abusiva a utilização deste estudo como principal referência para afirmar a eficácia actual da vacinação na prevenção, a citação não é rigorosa nos números.

O estudo sueco do BMJ associou  uma dose a uma redução relativa de 21%; duas doses, 59%; três ou mais doses, 73%. Não encontrou 80–85% para três doses, nem avaliou separadamente quatro doses com redução de 90–95%. 

Em termos absolutos, no estudo BMJ, 0,4% dos vacinados com covid tiveram diagnóstico de condição pós-covid durante o seguimento, contra 1,4% dos não vacinados. Isto corresponde a uma diferença absoluta de cerca de 1 ponto percentual.

Existe também um estudo sueco posterior de Hedberg et al., publicado no Journal of Infectious Diseases, 2025, “The Effect of COVID-19 Vaccination on the Risk of Persistent Post–COVID-19 Condition: Cohort Study”. Incluiu 331.042 adultos em Estocolmo e encontrou reduções relativas: cerca de 19%, 58% e 63%, respetivamente. Também aqui não aparece uma redução de 80–85% para três doses nem 90–95% para quatro doses. 

Provavelmente a melhor revisão sistemática e meta-análise seja de 2025 com 65 estudos observacionais ajustados e mais de 5,7 milhões de participantes, que concluiu que as vacinas podem ser moderadamente eficazes contra long covid, mas classificou a certeza da evidência como baixa. 

Estimou eficácia de 41% para uma ou mais doses contra PCC; para três doses, 70%, mas esse valor vinha de apenas um estudo. 

12- Desprezo pelos efeitos adversos moderados e graves 

Entre as muitas omissões, destaca-se a aparente tentativa generalizada de omitir ou menosprezar efeitos adversos da vacinação covid, especialmente os moderados e graves.

“Mas que embora sendo ligeiros, muitas vezes é isso que as pessoas temem, e que as faz recusar uma vacina, que é aquela induração que fica no braço depois da toma da vacina ou o braço ficar um pouco mais quente.”  Sofia Duque em Covid-19 e idosos: quem precisa de reforço – Observador 

Em qualquer apresentação científica em que se abordam medicamentos devem ser referidos os efeitos potencialmente positivos e negativos. 

Neste caso, tal não acontece e os efeitos adversos moderados e graves da vacinação covid são praticamente ignorados em qualquer dos podcasts. Nem sobre as de RNAm, de que existem centenas de estudos sobre os mais variados possíveis efeitos adversos, nem sobre a da Hipra, que teve um caso de pericardite no seu ensaio clínico e ainda está sob forte vigilância para investigar a sua segurança.

Além disso, existem vários programas de compensação de efeitos adversos nacionais ou via a OMS/Gavi. Considerando apenas alguns desses países que têm esses dados disponíveis (EUA, Reino Unido, Canadá, Austrália, Nova Zelândia) o montante de indemnizações supera já os 80 milhões de dólares. 

Contactos com os intervenientes

Tentámos entrar em contacto via email com o Observador e os médicos intervenientes para os questionar sobre os conflitos de interesse envolvidos. Não obtivemos qualquer resposta do Observador e de Filipe Froes. Contactámos igualmente as entidades empregadoras para que nos facultassen os contactos de Sofia Duque e Gustavo Tato Borges. A única resposta foi da Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública, que nos informou que o médico já não fazia parte da Direção da ANMSP, pelo que não nos poderiam indicar o seu contacto.

Fontes:

Covid-19 e idosos: quem precisa de reforço – Observador

Hesitação vacinal: o que está em causa? – Observador

Covid longo: e depois da infeção? – Observador

Bimervax | European Medicines Agency (EMA)

Plataforma – Transparência e Publicidade

Ver também:

Podcast Observador: Publicidade encapotada e conflitos de interesse – The Blind Spot 

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