Imagem: The Blind Spot / ChatGPT, OpenAI

Novas revelações dão conta das diferenças entre os registos pessoais de Anthony Fauci e aquilo que transmitia publicamente, nomeadamente sobre a letalidade do vírus da covid-19, a hipótese de origem laboratorial e do seu papel nos confinamentos. Estas revelações somam-se a outras críticas à sua atuação durante a crise covid, como a sua incapacidade de citar evidência científica que suportasse a distância social imposta ou o facto de a evidência científica de maior qualidade não ter demonstrado eficácia das máscaras faciais que promoveu.

A compilação de 1.141 páginas foi divulgada pelo senador republicano Rand Paul, um dos principais críticos de Fauci no Congresso, e reúne registos pessoais, relatos de reuniões, mensagens e recortes de imprensa datados entre 2020 e 2022. Entre as discrepâncias agora reveladas encontram-se as estimativas de letalidade do SARS-CoV-2, o seu papel na imposição de confinamentos, a hipótese de origem laboratorial e a capacidade das vacinas para impedir infeções e transmissões.

Uma estimativa pública de letalidade três a cinco vezes mais elevada

Na entrada de 8 de fevereiro de 2020, Fauci descreveu uma conversa com Tom Frieden, antigo diretor dos Centros de Controlo e Prevenção de Doenças. Ambos consideravam que o número real de infetados seria muito superior ao dos casos confirmados e que, por isso, a taxa de letalidade estaria provavelmente entre 0,2% e 0,3%, em vez dos 2% calculados apenas com base nos casos identificados. 

A mensagem pública tornou-se, semanas depois, substancialmente mais alarmante. A 11 de março, perante o Congresso, Fauci afirmou que a letalidade seria aproximadamente dez vezes a da gripe sazonal. Numa entrevista ao Daily Show, transmitida em 26 de março, afirmou que a gripe matava cerca de 0,1% dos infetados, enquanto a covid-19 teria uma mortalidade de “pelo menos 1%”. A estimativa apresentada publicamente era, portanto, no minímo, entre três e cinco vezes mais elevada do que aquela que tinha registado em privado.

Recomendação de confinamentos nos Estados Unidos

Já era público que a sua afirmação de que nunca recomendara qualquer confinamento era contrariada pelas suas próprias declarações anteriores

Na entrada de 15 de março de 2020, Fauci escreveu que tinha convencido o presidente da Câmara de Nova Iorque, Bill de Blasio, a encerrar as escolas. Registou igualmente que lhe recomendara o encerramento dos bares e restaurantes e que de Blasio lhe respondera que basearia a decisão nessa recomendação. Na mesma entrada, Fauci descreveu uma conversa com Ann O’Leary, chefe de gabinete do governador da Califórnia, Gavin Newsom. Segundo Fauci, O’Leary disse-lhe que as suas intervenções televisivas tinham contribuído para a decisão de encerrar escolas, bares e restaurantes no estado.

No dia seguinte, Fauci registou que as orientações nacionais refletiam a estratégia de mitigação mais agressiva que tinha defendido. As recomendações incluíam evitar bares, restaurantes, teatros e eventos desportivos, assim como encerrar estabelecimentos, espaços de grande concentração de pessoas e escolas nas comunidades com transmissão do vírus. 

A sua intervenção prolongou-se para além da primeira vaga. No final de novembro de 2020, Fauci registou que Mark Ghaly lhe pedira apoio para um encerramento de três semanas em Los Angeles. “Concordei em apoiá-lo”, registou Fauci. 

Assim, os seus registos mostram que recomendou, promoveu ou apoiou diretamente várias dessas medidas. A afirmação posterior de que nunca recomendara qualquer confinamento não é compatível com os documentos nem com as suas próprias declarações de 2020. 

A fuga laboratorial foi considerada seriamente

Mensagens de correio eletrónico anteriormente divulgadas mostraram que Fauci participou na elaboração do artigo The Proximal Origin of SARS-CoV-2, publicado na Nature Medicine, e recebeu versões preliminares do texto. Meses depois, invocou publicamente esse artigo para defender a origem natural do vírus e desvalorizar uma possível origem laboratorial. 

A entrada de 1 de fevereiro de 2020, mostra que, já nessa altura, essa hipótese era credível. Numa teleconferência com vários virologistas e responsáveis científicos, Fauci registou que apenas Ron Fouchier e Christian Drosten estavam convencidos de que o vírus tinha origem natural. Os restantes participantes consideravam possível a introdução deliberada de determinadas características no vírus e entendiam que o assunto não podia ser abandonado, sobretudo devido ao trabalho realizado por Shi Zhengli e pelo Instituto de Virologia de Wuhan com coronavírus de morcegos.

Na entrada de junho de 2021, Fauci recordou no diário que aproximadamente metade dos participantes na discussão inicial considerava que o vírus deveria ter origem laboratorial, enquanto a outra metade estava convencida de uma origem natural. A 3 de outubro do mesmo ano, porém, escreveu que não existia “absolutamente nenhuma evidência” de uma fuga laboratorial e atribuiu a ligação à coincidência de o surto ter surgido numa cidade onde existia um laboratório dedicado ao estudo de vírus de morcegos.

Deste modo, os registos mostram que a hipótese laboratorial foi considerada seriamente por cientistas de topo desde os primeiros dias e que a incerteza registada em privado foi posteriormente substituída por declarações públicas categóricas e até acusações dirigidas a quem a considerava plausível. 

Uma atenção constante à própria imagem 

As páginas do diário revelam igualmente uma atenção invulgar à imagem pública de Fauci. Em 10 de março de 2020, escreveu que, “para o bem ou para o mal”, estava a tornar-se uma celebridade internacional. Nos dias seguintes, registou artigos favoráveis, entrevistas, elogios de figuras públicas e o crescimento da sua notoriedade. Na entrada de 31 de março, descreveu como “loucura completa” o fenómeno que o transformava num “herói de culto”.

O registo foi mantido durante toda a pandemia. Fauci anotou que tinha sido convidado a participar no programa Dancing with the Stars, convite que recusou. Em agosto de 2021, escreveu que se tinha tornado um dos rostos mais reconhecidos do país e que era idolatrado por milhões de pessoas e odiado por setores da direita.

Na entrada de 17 de novembro de 2021, comparou a procura dos convidados por fotografias consigo ao tratamento reservado a Elvis Presley. Também acompanhava cuidadosamente artigos favoráveis ou críticos e registava as reações das audiências às suas aparições públicas.

Um homem de duas caras

O que este diário indicia é que a incerteza reconhecida em privado foi repetidamente substituída por mensagens públicas categóricas. Fauci estimava uma letalidade muito inferior, documentava o seu envolvimento na promoção de encerramentos e sabia que vários especialistas consideravam possível uma origem laboratorial.

A distância entre estas considerações e algumas das suas declarações públicas representa mais um golpe na credibilidade de uma figura apresentada durante anos como a personificação da autoridade científica e, muitas vezes como um autêntico herói.

Fontes:

2026.07.24_Tonys-Diary-Package.pdf

Ver também:

Documentos expõem rede de desinformação coordenada por Fauci – The Blind Spot

Agência de Fauci continua a financiar responsáveis do laboratório de Wuhan – The Blind Spot 

Certezas e contradições de Fauci sobre a eficácia das vacinas mRNA – The Blind Spot 

Certezas e contradições de Fauci sobre a segurança das vacinas mRNA – The Blind Spot

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