Um podcast do Observador sobre a covid-19 é patrocinado pela Hipra, empresa que comercializa uma “nova vacina” contra a doença. Nos três primeiros episódios foram convidados médicos com relações profissionais e financeiras com empresas que comercializam vacinas contra a covid-19 e que integraram o conselho consultivo da Bimervax, a vacina da Hipra. Apesar de, em pelo menos dois episódios, existirem referências implícitas e comentários favoráveis à vacina do patrocinador, nem o Observador nem os médicos declaram os múltiplos conflitos de interesse existentes.
O programa tipifica vários problemas que existem na relação entre grandes empresas, neste caso farmacêuticas, e muitos órgãos de comunicação social em Portugal.
Omissão dos conflitos de interesse do patrocinador do podcast
Em primeiro lugar, a Hipra é uma empresa pouco conhecida do grande público. Muito poucos sabem que é uma empresa que comercializa um medicamento sujeito a receita médica no exato campo terapêutico sobre o qual o podcast fala: vacinação e reforços anti-Covid.
Este conflito de interesses estrutural, que decorre da coincidência entre financiador, produto comercialmente relevante e conteúdo editorial-comercial, deveria ser revelado logo à partida como medida básica de transparência.
Referências à vacina do patrocinador e publicidade encapotada
Outro ponto problemático é a referência implícita à própria vacina por parte dos convidados do podcast.
1º episódio- Sofia Duque
Logo no primeiro episódio, que contou com a geriatra Sofia Duque, as referências são bastante explícitas.
“(…) aqui no nosso país, uma vacina nova, uma vacina que é de outro tipo, não é de RNA mensageiro, não é de vetor viral, é uma vacina proteica, é uma vacina que contém já uma daquelas partes do vírus, uma proteína do vírus, que é estratégica e para a qual o corpo humano, quando encontra aquela proteína, quando recebe aquela vacina, vai sintetizar, vai produzir anticorpos que vão permitir exatamente prevenir a doença Covid-19 ou pelo menos evitar que tenhamos formas mais graves.”
Além disso, salienta as potenciais vantagens da vacina da Hipra.
“E estas novas vacinas trazem-nos algumas vantagens. E eu diria que uma das principais vantagens é que há, pelo menos, estudos que nos mostram…”
“E com estas novas vacinas esses efeitos secundários são mais ténues, são mais ligeiros e, portanto, acreditamos que também possam levar a uma menor hesitação na hora de receber a vacina. Eu, pelo menos com os meus doentes, é um argumento também que uso, tal como o outro, de garantir maior proteção.”
“Portanto, eu acho que toda a gente que se quiser vacinar, e o mesmo se passa com a gripe, contra a Covid-19 deveria ter essa possibilidade e, por exemplo, receber esta nova vacina que está disponível nas farmácias, será uma forma de o conseguir.”
2º episódio- Gustavo Tato Borges
No episódio dois, Gustavo Tato tece inúmeras considerações favoráveis às vacinas de mRNA, nomeadamente assegurando que é segura.
“A vacina para a COVID-19 foi uma vacina cuja tecnologia, pelo menos aquela que está a ser mais implementada hoje em dia e é usual as pessoas mais tomarem, é uma vacina com uma tecnologia diferente da habitual, chamada tecnologia de mRNA, e que foi testada durante mais de 20 anos antes de surgir no mercado como uma proposta terapêutica. E por isso, há uma série de estudos sobre a forma como a vacina trabalha, que protegem as pessoas e que se sabe que é segura.”
“E efetivamente, o número de efeitos secundários adversos, daquilo que se chamam as reações adversas à vacina, é muito inferior àquilo que seria expectável se elas tivessem um impacto negativo na saúde, dessem mais risco que benefício.“
Mas, também ele, aborda o que designa de uma “nova vacina” e defende as suas vantagens.
“A verdade é que estão a surgir vacinas no mercado que têm uma tecnologia de desenvolvimento muito semelhante àquilo que são as chamadas vacinas clássicas. A vacina do sarampo, da pólio, que é uma vacina proteica. E essas vacinas têm provado até que têm uma capacidade de dar uma imunidade tão forte ou mais quanto a de mRNA e têm a possibilidade até de durar mais tempo o seu efeito.”
“Com esta nova vacina que está a surgir de mecanismo proteico, nós temos uma previsibilidade de duração maior do efeito protetor da vacina e, portanto, torna-se uma vantagem.”
3º episódio-Filipe Froes
Já Filipe Froes, responsável pelo terceiro episódio, não se pronunciou especificamente sobre a vacina do patrocinador do programa. Centrou-se no “long covid” e nos supostos benefícios das vacinas covid na sua prevenção. Isto, apesar de os estudos que apontam nesse sentido serem de baixa ou de muito baixa fiabilidade, o que impede que se possa fazer esse tipo de inferência causal.
“Neste momento, a nossa melhor arma para combater o longo COVID é precisamente a vacinação.”
Conflito de interesses e falta de transparência
Mas a teia de conflitos de interesse e a falta de transparência é bem mais ampla do que apenas a questão do patrocinador.
Os três primeiros convidados têm todos uma relação profissional e financeira com a empresa patrocinadora do podcast, mas também com outras empresas que comercializam ou comercializaram vacinas covid.
Conflitos de interesse dos convidados com a Hipra
Através do Portal da transparência e publicidade foi possível verificar que os três convidados integraram o Conselho Consultivo BIMERVAX no ano de 2025, exatamente a vacina contra a covid-19 comercializada pela Hipra.

Fonte: Plataforma – Transparência e Publicidade
Além dos valores recebidos nesse âmbito, Filipe Froes declarou ter recebido outras verbas da Hipra relativas a outras atividades. Esses valores foram sempre sensivelmente os mesmos (1.230 €).

Fonte: Plataforma – Transparência e Publicidade
Mas os conflitos de interesse com a Hipra não se ficam por aqui. As duas maiores verbas atribuídas pela Hipra foram para duas organizações que têm como dirigentes exatamente Filipe Froes, vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Pneumologia, e Gustavo Tato Borges, presidente da Assembleia Geral da Associação Nacional Médicos Saúde Pública.

Fonte: Plataforma – Transparência e Publicidade
Conflitos de interesse dos convidados com outras empresas ligadas a vacinas
Além desse conflito de interesse mais evidente, os três médicos revelam igualmente relações profundas com as outras empresas que comercializam ou comercializaram vacinas covid.
O médico com maior financiamento declarado é Filipe Froes. Considerando apenas os últimos cinco anos, de 2021 a 2025, recebeu 42.664 euros das empresas Pfizer e AstraZeneca. Destaque para inúmeros pagamentos de consultoria e por pertencer a vários conselhos consultivos da AstraZeneca, empresa cuja vacina foi, entretanto, retirada do mercado.
Também Gustavo Tato Borges declarou ter recebido, entre de 2021 a 2025, cerca de 12.500 euros da Pfizer. Destaque para inúmeros pagamentos por consultoria, palestras e participação em eventos científicos.
Já Ana Duque declarou ter recebido bastante menos que os restantes médicos, cerca de 5.500 euros. Ainda assim, desde 2023 que revela relações com a Pfizer, tendo mesmo pertencido a um dos seus conselhos consultivos.
Conflitos de interesse estruturais e a sua ocultação
Neste artigo não nos centramos no rigor do conteúdo relativo à vacina da Hipra, nem nas possíveis infrações deontológicas ou mesmo legais, mas apenas nas questões éticas evidentes que mais podem lesar o público em geral.
Neste caso, os conflitos de interesse são evidentes e estruturais:
- um conteúdo patrocinado por uma empresa, a Hipra, que comercializa vacinas referidas repetidamente, ainda que de forma indireta, como “novas vacinas” ou “vacinas proteicas”;
- convidados que integraram o conselho consultivo da BIMERVAX, a vacina comercializada pela Hipra;
- convidados que receberam, nos últimos anos, financiamentos da empresa patrocinadora, quer diretamente, quer através de organizações de que são dirigentes;
- convidados que receberam, nos últimos anos, financiamentos de outras empresas que comercializam, ou comercializaram, vacinas contra a covid-19 e que são várias vezes referidas nos podcasts.
Apesar disso, nenhuma dessas informações é comunicada de forma clara ao público, nem pelo Observador, nem pelos convidados.
A fronteira entre conteúdo editorial e conteúdo comercial não pode depender de inferências do público. Quantos saberão que a marca patrocinadora do podcast comercializa a vacina promovida? Quantos saberão dos profundos conflitos de interesse que qualquer dos convidados tem com a empresa patrocinadora ou com as outras empresas envolvidas no negócio das vacinas covid?
O conteúdo usa autoridade médica, circula em ambiente jornalístico e é financiado por uma empresa com interesse económico direto. As omissões de informações relevantes do patrocinador e ausência de declaração de interesses dos intervenientes são, no mínimo, falhas éticas e deontológicas graves.
Fontes:
Covid-19 e idosos: quem precisa de reforço – Observador
Hesitação vacinal: o que está em causa? – Observador
Covid longo: e depois da infeção? – Observador
Bimervax | European Medicines Agency (EMA)
Plataforma – Transparência e Publicidade
Ver também:
Filipe Froes e GSK: conteúdo comercial levanta suspeitas de publicidade encapotada – The Blind Spot
Editorial: Desinformação, conflitos de interesse e ética segundo Filipe Froes – The Blind Spot
Caso “Falso estudo”: Cronologia e provas da manipulação da opinião pública – The Blind Spot
