Polícia inglesa algema jovem mortalmente ferido após falsa acusação de racismo

Fonte: https://www.ibtimes.sg/what-happened-henry-nowaks-final-moments-bodycam-footage-shows-handcuffed-teen-pleading-ive-87292

“Não consigo respirar”: estas foram as últimas palavras do jovem inglês que, apesar de ter informado os polícias de que tinha sido esfaqueado, foi algemado e informado de que estava detido. Tudo isto devido a uma acusação de racismo feita pelo próprio assassino. O caso levanta questões sobre o facto de a polícia britânica se declarar determinada a tornar-se «uma organização antirracista», de a sua formação ser orientada por normas DEI e de existirem exceções legais ao porte de facas potencialmente letais por membros de grupos religiosos. O agressor, Vickrum Digwa, foi condenado a prisão perpétua, com uma pena mínima efetiva de 20 anos e meio. 

Henry Nowak tinha 18 anos, estudava na Universidade de Southampton e regressava ao alojamento universitário, depois de uma saída à noite, quando se cruzou com Vickrum Singh Digwa, em Belmont Road, na zona de Portswood, Southampton. O encontro, descrito pelo tribunal como casual, terminou com Henry mortalmente ferido por uma faca de 21 centímetros.

Segundo as conclusões do tribunal, Digwa esfaqueou Henry cinco vezes, incluindo no peito, causando uma hemorragia interna fatal. Henry estava sozinho e desarmado. O juiz William Mousley KC rejeitou a tese apresentada pela defesa de que o agressor agiu em legítima defesa após insultos racistas ou agressão física por parte da vítima.

Digwa foi condenado por homicídio e posse de artigo com lâmina em local público. Recebeu pena de prisão perpétua, com uma pena mínima efetiva de 20 anos e 190 dias antes de poder ser considerada qualquer libertação condicional. Também a sua mãe foi considerada culpada de ajudar um infrator, depois de remover do local a arma usada no ataque.

Atuação policial

O ponto que tornou o caso particularmente controverso ocorreu depois do ataque. De acordo com a polícia e com as observações finais da sentença, Digwa e familiares transmitiram aos agentes uma versão falsa dos acontecimentos. Foi alegado que Digwa tinha sido vítima de uma agressão com motivação racial. Também o uso da faca foi inicialmente negado.

Quando os agentes chegaram ao local, Henry ainda estava vivo. Apesar de dizer que tinha sido esfaqueado e que não conseguia respirar, foi tratado inicialmente como suspeito, algemado e informado de que estava detido. Quando os agentes perceberam a gravidade da situação pela falta de reação da vítima, chamaram uma ambulância e iniciaram manobras de reanimação. Henry morreu no local.

A defesa dos agentes policiais

A força policial envolvida, a Hampshire & Isle of Wight Constabulary, pediu desculpa pelo facto de Henry ter sido algemado e detido nos momentos antes de perder a consciência. Sustentou, no entanto, que os agentes chegaram a uma situação confusa, no escuro, perante uma narrativa falsa apresentada pelo agressor e sem a informação que viria a ser conhecida em tribunal. A polícia afirma ainda que o caso foi remetido no dia seguinte para o Independent Office for Police Conduct, organismo independente que investiga conduta policial.

O juiz reconheceu que as mentiras de Digwa influenciaram a decisão dos agentes de prender e algemar Henry. Também assinalou que os ferimentos fatais não eram necessariamente fáceis de identificar de imediato, por envolverem hemorragia interna e uma lesão no peito sob roupa escura.

No entanto, fica por explicar por que razão, se a situação era pouco clara, os agentes policiais algemaram a pessoa que estava em claro sofrimento físico e aceitaram acriticamente a versão do agressor e dos seus familiares.

No vídeo, entretanto divulgado, é possível verificar que os agentes ignoraram as últimas palavras da vítima e continuaram a algemá-lo e a ler-lhe os direitos enquanto era formalmente detido.

A comissária de Polícia e Crime de Hampshire, Donna Jones, afirmou que a morte de Henry levanta sérias questões sobre imparcialidade, justiça e julgamento policial. Segundo Jones, Henry foi falsamente acusado de agressão racial enquanto estava a morrer no chão, e esse enquadramento fez parte da tentativa de Digwa de se apresentar como vítima. A comissária defendeu que as conclusões do IOPC sejam publicadas e implementadas sem demora.

Questões sobre a imparcialidade policial 

O caso abriu um debate público sobre a capacidade da polícia para avaliar situações que envolvem minorias.

A polícia britânica está sujeita a um conjunto de normas e formações sobre diversidade e políticas antirracistas. Entre elas está o Plano de Ação Racial da Polícia: Melhorando o Policiamento para Pessoas Negras que, entre outras coisas, afirma que a polícia quer tornar-se uma organização «antirracista».

«A polícia está determinada a tornar-se uma organização antirracista que erradique ativamente o preconceito e a discriminação das suas fileiras.»

 Fonte: The Police Race Action Plan

Fonte: Police action plan released to address race disparities affecting Black people, changing a legacy of distrust 

Fonte: Police Race Action Plan agrees focus for the new year 

Embora seja impossível provar que a orientação DEI (Diversidade, Equidade e Inclusão)  e as políticas antirracistas tenham definido a atuação policial, a verdade é que a ação dos agentes estava enquadrada por esse contexto político e institucional. 

Exceções legais para porte de arma

Digwa transportava uma grande faca associada à tradição sikh, além de uma arma menor. A lei britânica prevê exceções legais para o porte de artigos com lâmina por motivos religiosos, incluindo para membros da comunidade sikh.

Outra questão que este caso suscita é o enquadramento legal do porte de facas por motivos religiosos.

Enquadramento e o caso dos grooming gangs

O episódio volta a colocar em causa a confiança nas autoridades britânicas e a forma como acusações de racismo podem condicionar respostas institucionais. 

Nos escândalos de exploração sexual de menores em Rotherham, Rochdale, Oldham e noutras cidades, sucessivos relatórios oficiais apontaram falhas graves da polícia, dos serviços sociais e das autoridades locais, incluindo relutância em discutir a origem étnica de determinados grupos de agressores, muitos deles de origem paquistanesa ou asiática em casos específicos, por receio de alimentar acusações de racismo ou tensões comunitárias.

Num relatório sobre os “grooming gangs”, divulgado em Junho de 2025, foi confirmado que, em larga medida, as autoridades britânicas fecharam os olhos às violações de milhares de raparigas, perpetradas durante anos a fio por gangs de origem predominantemente asiática (e sobretudo paquistanesa), para não exacerbarem racismo e tensões étnicas. 

Fontes: 

The King v Vickrum Singh Digwa, Sentencing Remarks, Judiciary UK

Hampshire & Isle of Wight Constabulary, Man convicted of murdering student in Southampton

Sky News, Footage reveals murder victim Henry Nowak told police “I can’t breathe” while handcuffed

Hampshire Police and Crime Commissioner, reação de Donna Jones à morte de Henry Nowak

Independent Office for Police Conduct

National Police Chiefs’ Council, Police Race Action Plan

College of Policing, Police Race Action Plan

National Police Chiefs’ Council, Police Anti-Racism Commitment

National Police Chiefs’ Council, Diversity, Equality and Inclusion Coordination Committee

Criminal Justice Act 1988, Section 139, legislação britânica

Offensive Weapons Act 2019, statutory guidance, Governo britânico

Offensive Weapons Act 2019, legislation.gov.uk

Crown Prosecution Service, Knife and Offensive Weapons Offences

Home Office, National Audit on Group-based Child Sexual Exploitation and Abuse, Baroness Casey, 2025

PDF do relatório Casey, National Audit on Group-based Child Sexual Exploitation and Abuse

Hansard, Child Sexual Exploitation, Casey Report, debate parlamentar

Rotherham Metropolitan Borough Council, Independent Inquiry into Child Sexual Exploitation in Rotherham 1997–2013

IICSA, The Report of the Independent Inquiry into Child Sexual Abuse, 2022

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