Merkel reconhece «grande poder» de Gates sobre governos

ByNuno Machado

17 de Setembro, 2026
Fonte: Montagem The Blind Spot com imagens de Alexander Migl/Wikimedia Commons e European Union/Wikimedia Commons.

Angela Merkel revelou que Bill Gates adquiriu um «grande poder» junto dos governos através da capacidade financeira da sua fundação e que utilizava esse poder para exercer «pressão moral» sobre decisões de financiamento público. O exemplo escolhido pela antiga chanceler alemã foi precisamente o setor das vacinas. As declarações ganham especial relevância porque, enquanto Gates promovia maiores investimentos públicos em vacinação, a Fundação Gates mantinha investimentos diretos em empresas e tecnologias de vacinas.

As declarações foram feitas numa entrevista publicada a 9 de setembro pelo Handelsblatt.

Questionada sobre o crescente poder de grandes empresários privados, Merkel explicou que começou a refletir sobre o fenómeno muito antes do atual debate sobre inteligência artificial. O exemplo que escolheu foi Bill Gates.

Segundo Merkel, os enormes recursos financeiros da então Bill & Melinda Gates Foundation deram ao fundador da Microsoft um acesso extraordinário aos dirigentes políticos mundiais. «Era de repente recebido por qualquer chefe de Governo no mundo pelo menos tão amigavelmente como eu», afirmou.

Merkel foi depois mais explícita:

«Ele tinha também, por assim dizer, a capacidade de exercer pressão moral através do dinheiro.»

E escolheu como exemplo a vacinação. As declarações foram também reproduzidas pelo Berliner Zeitung.

Pressão sobre governos

Merkel referia-se à Gavi, a aliança internacional de vacinas que a Fundação Gates ajudou a criar.

Segundo a antiga chanceler, quando a Alemanha não contribuía com aquilo que Gates considerava suficiente, o Governo alemão ficava numa posição politicamente desconfortável.

Merkel contou que Gates dizia aos chefes de Governo africanos:

«A Merkel foi forreta este ano.»

A conclusão da antiga chanceler foi clara:

«E, com isso, ele tinha adquirido um grande poder.»

A descrição é particularmente relevante porque parte de quem governou a Alemanha durante 16 anos e participou diretamente neste tipo de decisões.

Merkel confirmou ainda que a Fundação Gates estava especialmente concentrada na vacinação. Quando lhe perguntou por que razão não investia também mais em educação, Gates respondeu, segundo Merkel, que nessa área era mais difícil medir os resultados.

A Alemanha aumentou de forma substancial o financiamento da Gavi durante os governos de Merkel. Depois de um compromisso de 90 milhões de euros para 2013-2015, anunciou 600 milhões para 2016-2020 e outros 600 milhões para 2021-2025, segundo o perfil oficial da Alemanha na Gavi.

Fundação financiava vacinação e investia no setor

As declarações levantam também uma questão de potenciais conflitos de interesse.

A Fundação Gates não se limitava a financiar organizações de vacinação. Investia simultaneamente em empresas que desenvolviam vacinas e tecnologias associadas. Em 2015, realizou um investimento acionista de 52 milhões de dólares na CureVac, empresa alemã especializada em tecnologias de RNA mensageiro. A operação foi anunciada oficialmente pela Fundação Gates.

Em setembro de 2019, poucos meses antes da Covid-19, investiu 55 milhões de dólares diretamente na BioNTech. O objetivo declarado eram programas contra VIH e tuberculose como indica o comunicado da BioNTech.

Mas quando a BioNTech se tornou responsável, com a Pfizer, por uma das vacinas contra a Covid-19 mais utilizadas no mundo, a Fundação Gates já era acionista da empresa. Existe, assim, uma sobreposição institucional documentada. A organização dirigida por Gates promovia junto dos governos o aumento do financiamento da vacinação, financiava a Gavi e simultaneamente investia em empresas e tecnologias do setor.

A própria Fundação foi uma das entidades fundadoras da Gavi, contribuindo inicialmente com 750 milhões de dólares, segundo a história institucional da Fundação Gates. A Gavi utiliza financiamento público e privado, agrega procura de vacinas e assume como uma das suas funções «moldar os mercados de vacinas».

Vacinas e regresso à normalidade

Esta relação ganhou uma nova dimensão durante a pandemia. Em abril de 2020, Bill Gates escreveu que o regresso do mundo à situação anterior à pandemia dependeria de um tratamento «quase perfeito» ou de «quase todas as pessoas do planeta» serem vacinadas contra a Covid-19.

Considerando improvável um tratamento com eficácia próxima de 95%, concluiu:

«O que nos deixa com uma vacina.»

Na altura, estimava que o desenvolvimento de uma vacina pudesse demorar entre nove meses e dois anos. As declarações constam de um texto publicado pelo próprio Gates.

Meses depois, relacionou novamente a vacinação com o levantamento das restrições, escrevendo que uma vacina segura e eficaz permitiria aos governos «levantar as medidas de distanciamento social», num artigo publicado pela Fundação Gates.

Deste modo, associou repetidamente o regresso à normalidade e o levantamento de restrições à existência e distribuição alargada de vacinas, numa altura em que a Fundação que dirigia tinha investimentos financeiros em empresas e tecnologias do setor.

E Merkel confirma agora o elemento central: o dinheiro da Fundação proporcionava efetivamente a Gates capacidade para pressionar governos.

Nas palavras da própria antiga chanceler, essa capacidade permitiu-lhe adquirir «um grande poder».

Ver também:

Investigação Gates: 155 milhões de dólares doados ao jornalismo em menos de 12 anos

Investigação Fundação Gates: Doações para grandes empresas de media

Investigação Fundação Gates- áreas financiadas – The Blind Spot

Regulador que omitiu efeitos adversos de vacinas Covid recebeu 4,2 milhões da fundação Gates – The Blind Spot

Projetos “verdes” de Bill Gates recebem até mil milhões de contribuintes europeus – The Blind Spot

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