Fonte: Pool Moncloa / Carlos Spottorno de las Morenas / Governo de Espanha, 2026.

Um relatório da Guardia Civil espanhola documenta contactos entre uma alegada rede liderada pela antiga militante socialista Leire Díez e pessoas ligadas ao narcotráfico, numa operação destinada a interferir na investigação judicial contra o irmão do primeiro-ministro Pedro Sánchez. Entre as provas recolhidas encontram-se mensagens, anotações e testemunhos que apontam para tentativas de desacreditar, afastar e até agredir fisicamente a magistrada responsável pelo processo.

A Unidade Central Operativa (UCO) da Guardia Civil entregou à justiça espanhola um novo relatório sobre a alegada rede de interferência judicial associada a Leire Díez, antiga militante do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE). O documento, divulgado a 7 de outubro, identifica contactos com pessoas ligadas a clãs de narcotraficantes de Badajoz, no âmbito de manobras dirigidas contra a juíza Beatriz Biedma, responsável pela investigação ao irmão de Pedro Sánchez.

Segundo a investigação policial, as diligências tinham como finalidade interferir no processo judicial contra David Sánchez, irmão do primeiro-ministro espanhol, tendo sido identificados indícios de preparação de ações destinadas a alterar o seu normal desenvolvimento.

A UCO sustenta essa conclusão em depoimentos de testemunhas, mensagens e anotações recuperadas de dispositivos de alguns dos investigados. Os elementos recolhidos apontam para uma estratégia que envolvia procurar informações comprometedoras sobre a magistrada, desacreditá-la publicamente e tentar afastá-la do processo.

Contactos com narcotraficantes e referências a agressões físicas

Uma das principais testemunhas é Cintia Rocho, conhecida como «La Celsa», ligada ao clã Los Rocho, de Badajoz, associado ao narcotráfico.

Nas declarações prestadas à UCO, Rocho afirmou que o antigo juiz Luis José Sáenz de Tejada, apontado como intermediário da alegada rede, lhe transmitiu que Beatriz Biedma constituía um obstáculo e que era necessário «eliminá-la».

O testemunho inclui a expressão espanhola «a palos aprende el burro», equivalente à ideia de que seria necessário recorrer à violência física. Segundo Rocho, as palavras de Sáenz de Tejada levaram-na a interpretar que se pretendia causar danos físicos à magistrada. A testemunha assegurou que recusou colaborar.

A polícia identificou igualmente contactos com outras pessoas ligadas a grupos criminosos de Badajoz, que foram ouvidas durante a investigação.

Leire Díez: a figura central da alegada rede

Leire Díez, antiga militante socialista, é uma das principais protagonistas do chamado «caso Leire», uma investigação judicial sobre possíveis tentativas organizadas de interferir em processos que envolvem dirigentes do PSOE e pessoas próximas do Governo espanhol.

A antiga dirigente de uma empresa pública tornou-se conhecida depois da divulgação, em 2025, de gravações de reuniões em que se procuravam informações comprometedoras sobre investigadores da Guardia Civil, magistrados e procuradores envolvidos em processos de corrupção.

O novo relatório policial estabelece uma ligação entre a alegada rede e as diligências dirigidas contra a Beatriz Biedma.

Numa agenda de Leire Díez, os investigadores identificaram uma anotação de março de 2025 com as referências «Jueza Badajoz», «La Celsa» e «Heroína y Gitano». Cintia Rocho confirmou que «La Celsa» era a designação pela qual era conhecida.

A UCO assinala expressamente que as diligências relacionadas com a magistrada terão sido do conhecimento, pelo menos, de Leire Díez.

A investigação identifica ainda o empresário Javier Pérez Dolset como outro elemento relevante na organização dos contactos. Numa nota informática recuperada do seu computador, datada de agosto de 2024, encontrava-se uma referência à juíza do processo do irmão de Sánchez e à existência de informações sobre ela na posse de Sáenz de Tejada.

De acordo com a documentação analisada, Díez e Pérez Dolset participaram em reuniões destinadas a obter informações sobre a magistrada. As diligências incluíram contactos com o empresário Joaquín Parra, que teria acesso a pessoas em Badajoz capazes de fornecer essas informações.

Os investigadores encontraram igualmente referências a um grupo de mensagens denominado «Vacaciones y viajes», utilizado por participantes na alegada rede para discutir informações relacionadas com a juíza.

Campanha contra a juíza e tentativa de interferir na investigação

O relatório da Guardia Civil identifica também uma atividade persistente de desacreditação pública de Beatriz Biedma.

Luis José Sáenz de Tejada publicou numerosos vídeos sobre a magistrada e o processo judicial contra David Sánchez. A UCO contabilizou 99 vídeos publicados entre junho de 2024 e setembro de 2026, incluindo dezenas de referências diretas à juíza.

Numa das gravações, Sáenz de Tejada fez referências à escola frequentada pelos filhos da magistrada, um elemento particularmente relevante no contexto das suspeitas de intimidação.

Além dos ataques públicos, os investigadores recolheram testemunhos sobre alegados seguimentos à juíza e tentativas de recolha de informações relativas à sua vida pessoal e profissional.

A UCO considera que estas diligências se enquadravam numa estratégia destinada a proteger interesses afetados por processos judiciais relacionados com o PSOE e, direta ou indiretamente, com membros do Governo ou com o seu presidente.

O processo que se pretendia influenciar dizia respeito a David Sánchez, irmão do primeiro-ministro, investigado por irregularidades relacionadas com a criação e atribuição de um posto de trabalho na Diputación de Badajoz.

Em julho de 2026, David Sánchez foi condenado em primeira instância a nove anos de inabilitação para o exercício de funções públicas por prevaricação administrativa, tendo recorrido da decisão.

Uma investigação que levanta questões sobre as ligações ao PSOE

O novo relatório insere-se numa investigação mais abrangente sobre a alegada atuação de uma estrutura informal destinada a interferir em processos judiciais que atingiam o PSOE e pessoas próximas do Governo.

A existência de anotações, mensagens e reuniões documentadas constitui uma base probatória mais ampla do que os testemunhos isolados. 

Entre as questões que se levantam estão: determinar se alguém superior coordenou as diligências contra a juíza, se Pedro Sánchez tinha conhecimento dessas manobras e até onde foram as tentativas de condicionar o funcionamento da justiça espanhola.

Principais fontes

La UCO confirma que la cloaca del PSOE contactó con los narcos para «eliminar» a la juez del caso del hermano de Sánchez 

La UCO confirma que la cloaca del PSOE contactó con los narcos para “eliminar” a la jueza del hermano de Sánchez – Artículo 14 

Una testigo declara a la UCO que el contacto de Leire Díez en Badajoz quería “eliminar” a la juez que investigó a David Sánchez | Tribunales | Cadena SER 

Las pruebas de la cacería de las ‘cloacas’ contra la jueza Biedma: narcos, seguimientos y la amenaza de “eliminarla” 

Ver também:

As sete principais frentes judiciais que cercam Pedro Sánchez – The Blind Spot

Escândalo em Espanha: governo investigou jornalistas, Lusa e grandes média ignoram o caso – The Blind Spot

Governo espanhol: Jornalistas devem associar calor a alterações climáticas e a emoções negativas – The Blind Spot

Investigação cita influência de Nuno Rebelo de Sousa em esquema para obtenção de licenciamentos junto do Governo – The Blind Spot

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