A nova campanha de vacinação contra a gripe arrancou em Portugal com quase 2,7 milhões de doses adquiridas pelo SNS e um investimento público que, nos últimos anos, tem ascendido a dezenas de milhões. A Direção-Geral da Saúde alega que a vacinação é a medida mais eficaz para prevenir a doença grave, a hospitalização e a morte associada à gripe. Contudo, até ao dia de hoje, a evidência científica não conseguiu demonstrar que as vacinas convencionais reduzam as hospitalizações ou a mortalidade comparativamente com a ausência de vacinação.
A campanha 2026/2027 começou a 30 de setembro e apresenta como principal novidade o alargamento da vacinação gratuita às crianças entre os 2 e os 4 anos.
O SNS adquiriu 2,33 milhões de doses de vacina contra a gripe de dose normal e 369 mil de dose elevada, num total de 2,699 milhões. São mais 199 mil doses do que na campanha anterior: mais 187 mil de dose normal e mais 12 mil de dose elevada, segundo a DGS.
A vacinação é gratuita, entre outros grupos, para crianças dos 6 meses aos 4 anos e pessoas com 60 ou mais anos. Entre os 60 e os 84 anos é utilizada, por regra, uma vacina de dose padrão. A partir dos 85 anos é administrada a vacina de dose elevada. Nas instituições residenciais e na Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados, a dose elevada é utilizada a partir dos 60 anos.
Custos da vacinação contra a gripe
Desde 2023/2024 o SNS paga diretamente às farmácias comunitárias por cada vacina contra a gripe ou Covid-19 administrada. A remuneração subiu de 2,50 euros por administração em 2023/2024 para 3 euros nos dois anos seguintes, com um eventual suplemento de 0,11 euros, e para 3,15 euros em 2026/2027. Em três anos, o pagamento unitário aumentou 26%.
Apesar disso, como o número de vacinações realizadas nas farmácias diminuiu, a remuneração-base estimada para gripe e Covid-19 caiu de cerca de 7,79 milhões de euros em 2023/2024 para 5,41 milhões em 2025/2026. Considerando apenas a gripe, passou de aproximadamente 4,35 milhões para 3,52 milhões de euros.
Para 2026/2027, o Governo voltou a reservar até 7,6 milhões de euros para remunerar as farmácias na campanha conjunta contra a gripe e a Covid-19. Este montante não inclui a aquisição das vacinas nem os consumíveis. O custo público da campanha é, portanto, bastante superior: em 2025/2026, só a compra das vacinas contra a gripe custou 22,5 milhões de euros, aos quais acresceram os pagamentos às farmácias, a vacinação efetuada diretamente pelo SNS e outros encargos operacionais.
Existem ainda despesas com armazenamento, distribuição, sistemas de informação, pessoal, instalações e divulgação. Em 2023/2024, por exemplo, o Governo autorizou até 5,49 milhões de euros para serviços de receção, armazenamento e distribuição de vacinas contra a gripe, Covid-19 e mpox e respetivos materiais, embora este montante não possa ser atribuído exclusivamente à gripe.
Não existe um relatório público que consolide todas estas rubricas e permita determinar o custo total anual da campanha contra a gripe, pelo que os valores conhecidos representam apenas uma parte do investimento público efetivo.
As alegações da DGS sobre a vacina da gripe
A dimensão do investimento torna particularmente relevante determinar exatamente quais os benefícios demonstrados pela evidência científica.
Na comunicação de lançamento da campanha 2026/2027, a DGS afirma:
«A vacinação sazonal outono-inverno 2026-2027 constitui a medida mais eficaz para prevenir doença grave, hospitalização e morte associadas à gripe e à COVID-19 […]»
Já a norma técnica dedicada especificamente à gripe utiliza uma formulação mais prudente.
Entre as finalidades da vacinação são referidas a diminuição do risco de doença grave e hospitalização, a diminuição da transmissão e a redução da pressão sobre os serviços de saúde. A redução da mortalidade não surge explicitamente entre os objetivos enumerados.
A diferença torna-se relevante quando se analisa a evidência proveniente de ensaios clínicos randomizados.
O que revela a evidência de maior fiabilidade
Em adultos saudáveis, a Cochrane encontrou uma redução de gripe confirmada de 2,3% para 0,9%. Isso corresponde a cerca de 71 pessoas vacinadas para evitar um caso de gripe.
Nos idosos, a estimativa foi de aproximadamente 30 vacinações para impedir um caso, embora com evidência de baixa certeza.
No entanto, no caso de hospitalizações e mortes evitadas pela vacinação a evidência é bem menos robusta.
Evidência sobre hospitalizações evitadas pela vacinação
Nos ensaios que comparam a vacinação sazonal convencional com placebo ou ausência de vacinação, a redução dos internamentos não está demonstrada.
Nos adultos saudáveis, a revisão Cochrane não encontrou diferenças estatisticamente significativas nas hospitalizações (14,7% dos controlos e 14,1% dos vacinados).
Nos idosos, a Cochrane não encontrou RCTs com dados adequados para avaliar hospitalizações e, nas crianças, a revisão equivalente também não encontrou dados utilizáveis sobre este desfecho.
Ou seja, não existe evidência que demonstre que a vacinação sazonal convencional, quando comparada com não vacinação, reduza hospitalizações em crianças, adultos saudáveis ou idosos.
Vacinação de alta dose contra hospitalização
A vacina de alta dose não foi testada em ensaios clínicos (em relação às hospitalizações e mortalidade) com um grupo placebo, apenas com um grupo vacinado com a dose normal.
Uma meta-análise de 2026, com 14 RCTs e 581 845 participantes, encontrou uma redução estatisticamente significativa de vários tipos de hospitalização com a alta dose: menos quatro internamentos por gripe por cada 10 mil vacinados, menos 15 hospitalizações cardiorrespiratórias e menos 29 hospitalizações por qualquer causa.
Em termos absolutos, seria necessário administrar a vacina de alta dose, em vez da dose padrão, a cerca de 2500 idosos para evitar uma hospitalização por gripe, a cerca de 667 para evitar uma hospitalização cardiorrespiratória e a aproximadamente 345 para evitar uma hospitalização por qualquer causa.
Evidência sobre mortes evitadas pela vacinação
A revisão Cochrane das vacinas contra a gripe em pessoas com 65 ou mais anos encontrou oito ensaios randomizados, com mais de 5.000 participantes.
Ocorreram três mortes entre 522 participantes vacinados e uma entre 177 que receberam placebo. O risco relativo foi 1,02, com intervalo de confiança entre 0,11 e 9,72.
O ensaio não tinha dimensão suficiente para avaliar este desfecho. A Cochrane classificou a evidência de mortalidade como de certeza muito baixa e concluiu que os dados são insuficientes para determinar o efeito da vacinação na mortalidade.
Vacinação de alta dose contra mortalidade
Este problema foi parcialmente ultrapassado pelos grandes ensaios recentes que compararam vacinas de dose elevada com vacinas de dose padrão.
A comparação é especialmente relevante para Portugal porque o Estado adquiriu 369 mil doses de dose elevada para 2026/2027.
Uma meta-análise de 2026, publicada no Lancet Healthy Longevity, não encontrou uma diferença estatisticamente significativa nos dois grupos na mortalidade.
O risco relativo de morte por qualquer causa foi 0,98, com intervalo de confiança entre 0,92 e 1,05. Em termos absolutos, correspondeu a menos uma morte por 10 mil pessoas, mas com um intervalo de confiança compatível com um resultado situado entre menos quatro e mais três mortes por 10 mil.
Os autores concluíram que provavelmente existe pouca ou nenhuma diferença na mortalidade global entre dose elevada e dose padrão.
Outra meta-análise de 2026, publicada no JAMA Network Open, analisou oito ensaios randomizados com 605.098 participantes.
Também encontrou vantagens da alta dose em vários tipos de hospitalização, mas não encontrou diferenças estatisticamente significativas da mortalidade.
O estudo foi financiado pela Sanofi, fabricante da Efluelda, e incluiu autores empregados pela empresa ou com relações financeiras declaradas com fabricantes de vacinas. Além disso, a empresa contribuiu com revisão e feedback sobre o desenho, forneceu dados adicionais de dois ensaios, reviu e aprovou o manuscrito e participou na decisão de submissão.
Alegações de efeitos da vacinação contra a gripe na mortalidade
Muitas das alegações feitas por alguns médicos e por Sociedades Médicas baseiam-se em alguns estudos observacionais, ou revisões que os incluem, que encontram associações entre a vacinação e a hospitalizações e mortalidade.
No entanto, esse tipo de estudos não permite determinar causalidade dado que não existe um isolamento de fatores. As pessoas vacinadas podem diferir das não vacinadas em utilização dos cuidados de saúde, fragilidade, situação socioeconómica, doenças de base e em muitas outras dimensões.
Um dos problemas reconhecidos neste tipo de investigação é o healthy vaccinee bias, segundo o qual indivíduos vacinados podem apresentar, independentemente da vacina, características associadas a melhor prognóstico e a uma menor mortalidade base.
Já nos ensaios randomizados, a atribuição aleatória da intervenção permite distribuir entre os grupos fatores conhecidos e desconhecidos que também influenciam o risco de morrer. Por esse motivo são os únicos que permitem determinar a causalidade.
Conflitos de interesse
Outro dado relevante é que muitos desses estudos observacionais, sujeitos a maiores enviesamentos, que associam a vacinação contra a gripe a uma redução significativa da mortalidade são financiados diretamente pelas farmacêuticas interessadas e/ou são realizados por investigadores financiados por essa indústria.
Uma revisão sistemática publicada no BMJ em 2009 analisou 259 estudos de vacinas contra a gripe e examinou a relação entre qualidade, financiamento e conclusões.
A principal conclusão foi de que os estudos financiados parcial ou totalmente pela indústria eram publicados em revistas com maior impacto e eram mais citados, apesar de não apresentarem maior qualidade metodológica ou maior dimensão.
Além disso, os estudos de maior qualidade foram significativamente mais propensos a mostrar concordância entre os dados apresentados e as conclusões e menos propensos a favorecer a eficácia das vacinas.
Os estudos financiados pelo governo foram menos propensos a ter conclusões que favorecessem as vacinas.
Desfasamento entre mensagem pública e evidências de qualidade sobre vacinação contra a gripe
A DGS alega que a vacinação contra a gripe reduz as hospitalizações e a mortalidade, sem que isso esteja cientificamente demonstrado, Além disso, sustenta também que é «a medida mais eficaz» para o fazer, o que, à luz da evidència existente é, no mínimo, especulativo.
A falta de rigor na fundamentação da mensagem passada pela DGS para justificar grandes investimentos em campanhas e compras de vacinas constitui uma grave falha ao direito ao consentimento informado do público e contribui para acentuar o descrédito da instituição.
