Uma notícia da Agência Lusa, publicada pelo Observador, atribui a um novo estudo aumentos de 5% nos partos prematuros e de 7% na diabetes gestacional por cada grau celsius adicional. No entanto, a nova investigação é um inquérito de opinião a profissionais de saúde que não mediu qualquer destes riscos. A notícia comete ainda graves erros de interpretação de análises científicas anteriores e não esclarece as relações de financiamento e os conflitos de interesse da organização responsável pela divulgação dos dados.
A notícia publicada pelo Observador a 5 de outubro de 2026, com autoria atribuída à Agência Lusa, apresenta como resultados de um novo estudo estimativas sobre os efeitos da temperatura nos partos prematuros e na diabetes gestacional.
A informação foi divulgada durante a conferência preparatória da COP31, nas Fiji, num evento organizado pela Wellcome, fundação britânica que financia investigação científica e promove iniciativas de saúde pública. Na sessão participou Simon Stiell, secretário executivo da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas.
A análise das fontes originais revela várias incorreções e omissões relevantes. A mais evidente é a confusão entre um novo inquérito sobre perceções de profissionais de saúde e estudos epidemiológicos anteriormente publicados. Mas existem também problemas na apresentação das estimativas estatísticas, na interpretação da evidência científica e na transparência sobre os interesses institucionais envolvidos.
O novo «estudo» não mediu os riscos do calor durante a gravidez
A notícia afirma que, segundo os dados de um novo estudo, cada subida de um grau Celsius contribui para aumentar os partos prematuros e os casos de diabetes gestacional.
Contudo, a metodologia original da Wellcome esclarece que a investigação consistiu num inquérito online conduzido pela Censuswide, entre 17 de setembro e 1 de outubro de 2026, a 1.001 profissionais de saúde da Austrália, Brasil, Índia, Reino Unido e Zimbabué.
O objetivo foi recolher perceções e experiências profissionais sobre os possíveis efeitos do calor extremo na saúde materna e neonatal. Não foram analisados processos clínicos, comparadas taxas de incidência de doenças ou calculados riscos epidemiológicos a partir dos participantes.
A própria organização responsável adverte que os resultados não devem ser apresentados como evidência proveniente de registos clínicos nem como demonstração independente de causalidade.
A Wellcome esclarece ainda que o inquérito não mede a incidência de doenças.
Estas limitações fundamentais não são explicadas na notícia da Lusa.
Um inquérito sem representatividade nacional ou mundial
Outro aspeto omitido diz respeito à representatividade dos resultados.
Os participantes foram recrutados através de um painel online, com aproximadamente 200 profissionais por país. A amostra incluiu diferentes profissões ligadas à saúde materna e neonatal, com uma quota mínima de 25% de profissionais de enfermagem obstétrica ou funções equivalentes em cada país.
Os resultados não foram ponderados estatisticamente, uma vez que os responsáveis não identificaram referenciais populacionais adequados e comparáveis.
A documentação metodológica esclarece expressamente que os resultados não devem ser interpretados como estimativas representativas dos profissionais de saúde dos cinco países, muito menos da população mundial de profissionais nesta área.
Apesar disso, a notícia apresenta percentagens de 73%, 81%, 98% e 99% sem esclarecer devidamente estas limitações.
Por exemplo, a Lusa refere que 73% dos participantes observaram um aumento das complicações associadas ao calor nos últimos cinco anos.
Os 73% correspondem à percentagem de profissionais que relataram essa perceção, não a um aumento de 73% nas complicações. As respostas também não demonstram, por si só, que a incidência dessas complicações tenha efetivamente aumentado.
O mesmo problema verifica-se com os 98% e 99% dos profissionais que afirmaram ter acompanhado, respetivamente, grávidas e bebés cuja saúde acreditavam ter sido afetada pelo calor extremo.
A palavra decisiva é «acreditavam». Trata-se de uma avaliação dos profissionais inquiridos e não de uma relação causal estabelecida através de investigação clínica.
As perceções destes profissionais podem constituir informação relevante para identificar preocupações e necessidades dos serviços de saúde. Não são, porém, equivalentes a resultados epidemiológicos.
Os 5% e 7% não são resultados do novo inquérito
A incorreção mais evidente surge numa afirmação reproduzida na notícia:
«Segundo os dados do estudo, cada subida de um grau Celsius contribui para um aumento de 5% nos partos prematuros e de 7% nos casos de diabetes gestacional.»
Nenhum destes valores resulta do novo inquérito.
A própria página da campanha da Wellcome apresenta os números de 5% e 7% numa secção dedicada a investigação científica anterior, separada dos resultados da nova sondagem.
O comunicado oficial também distingue os resultados do inquérito das estimativas epidemiológicas previamente publicadas.
No discurso disponibilizado pelas Nações Unidas, Simon Stiell apresenta os principais resultados do inquérito, mas não atribui a esse trabalho a demonstração dos aumentos de 5% e 7%.
A atribuição destas estimativas ao novo estudo, feita pela Lusa, é portanto incorreta.
Mas a análise dos trabalhos científicos utilizados para sustentar aqueles valores revela outros problemas.
Cinco por cento mais partos prematuros? Os resultados científicos são diferentes
Existe evidência epidemiológica de uma associação entre temperaturas elevadas e maior probabilidade de parto prematuro. Contudo, os estudos disponíveis são observacionais e não demonstram, por si só, uma relação causal.
Uma revisão sistemática e meta-análise publicada no BMJ, em 2020, encontrou uma odds ratio de 1,05 por cada aumento de 1 °C, com um intervalo de confiança de 95% entre 1,03 e 1,07. Isto corresponde a um aumento médio estimado de 5% nas odds de parto prematuro, não a um aumento de 5% no risco absoluto ou no número de nascimentos prematuros, como sugere a formulação da Lusa.
Além disso, os resultados apresentavam uma heterogeneidade muito elevada (I² = 87,7%), revelando diferenças substanciais entre os estudos. Um estudo realizado em Shenzhen, na China, encontrou inclusivamente uma associação inversa, para a qual os investigadores apontaram a utilização generalizada de ar condicionado como possível explicação.
Uma revisão posterior, publicada na Nature Medicine, em 2024, reuniu 198 estudos observacionais realizados em 66 países. Na meta-análise específica de 12 estudos sobre o aumento de 1 °C, encontrou uma odds ratio de 1,04, correspondente a um aumento médio de 4% nas odds de parto prematuro (IC 95%: 1,03–1,06), mantendo-se uma heterogeneidade elevada (I² = 85%).
Os investigadores encontraram associações mais fortes nos países de baixo rendimento, embora as análises por zona climática não tenham permitido conclusões esclarecedoras. Reconheceram também limitações metodológicas e possíveis enviesamentos, não tendo realizado uma avaliação formal do risco de viés dos estudos incluídos.
Fatores como as condições climáticas locais, o ar condicionado, a qualidade térmica das habitações e a capacidade de adaptação ao calor podem influenciar substancialmente os resultados. Assim, embora as duas revisões sustentem uma associação entre calor e parto prematuro, não demonstram que cada grau adicional provoque universalmente mais 5% de nascimentos prematuros, nem que a magnitude dessa associação seja aplicável a populações com diferentes condições de exposição e proteção térmica.
A estimativa de 7% para diabetes gestacional é ainda mais problemática
A apresentação do alegado aumento de 7% nos casos de diabetes gestacional merece especial atenção.
A revisão publicada na Nature Medicine apresenta uma estimativa central de OR 1,07 por cada 1 °C adicional, mas este número resulta da mediana de apenas três estimativas, com valores que variaram entre 1,01 e 1,54.
A mesma revisão apresenta uma meta-análise com uma OR de 1,28 para a comparação entre exposições elevadas e baixas ao calor. Contudo, essa estimativa não corresponde a um aumento por cada grau Celsius e não pode ser utilizada para validar a percentagem de 7% apresentada na notícia.
Não se trata de um efeito combinado calculado por meta-análise, mas de uma síntese descritiva de resultados que os investigadores consideraram demasiado heterogéneos para serem agregados estatisticamente.
Esta distinção é fundamental.
Enquanto uma meta-análise procura obter uma estimativa combinada através de métodos estatísticos, uma mediana limita-se a identificar o valor central das estimativas disponíveis. Não demonstra que exista um efeito universal de 7% por cada grau Celsius adicional.
A revisão apresenta ainda resultados muito diferentes consoante a população e o indicador de exposição utilizado.
Por exemplo, uma investigação canadiana com mais de 555 mil gravidezes identificou uma OR de 1,06 associada a um aumento de 10°C na temperatura média dos 30 dias anteriores. Um estudo realizado em Taiwan encontrou uma OR de 1,54 por grau Celsius, considerando temperaturas superiores a 28 °C.
Estes resultados não são diretamente comparáveis, precisamente porque utilizam diferentes períodos, limiares e medidas de exposição.
Os autores reconhecem também uma possível fonte de enviesamento: algumas associações entre temperatura e diabetes gestacional no segundo trimestre podem ser influenciadas pelo facto de o rastreio desta doença ocorrer habitualmente nessa fase da gravidez.
Apesar destas limitações, a mensagem divulgada pela Wellcome e reproduzida pela Lusa transforma uma estimativa estatística muito heterogénea numa relação aparentemente precisa e generalizável.
Estudos observacionais não demonstram, por si só, causalidade
Outro problema é a forma como os resultados são apresentados.
Ao afirmar que cada subida de temperatura «contribui para um aumento» dos casos, a notícia sugere uma relação causal direta, embora os valores provenham essencialmente de estudos observacionais.
Estes estudos podem identificar associações relevantes, mas estão sujeitos a fatores de confundimento, erros na medição da exposição e outras fontes de enviesamento.
Os próprios autores da revisão da Nature Medicine reconhecem limitações relacionadas com a heterogeneidade dos desenhos dos estudos e das métricas de exposição.
Também não realizaram uma avaliação formal individual do risco de viés dos estudos incluídos. Justificaram essa opção, em parte, com avaliações anteriores que tinham identificado risco de viés elevado na investigação observacional desta área.
As polémicas financeiras e os potenciais conflitos de interesse da Wellcome
Existe ainda uma dimensão institucional relevante que a notícia não esclarece adequadamente.
A Wellcome não se limitou a divulgar os resultados apresentados na conferência.
Segundo a própria metodologia publicada, encomendou o inquérito e participou na conceção do questionário, juntamente com a Censuswide e a Climate Opinion Research Exchange.
Organizou também o evento em que Simon Stiell apresentou os resultados e está a promover uma campanha internacional para que os governos adotem medidas específicas de proteção da saúde materna e neonatal perante temperaturas elevadas.
Entre os objetivos declarados da campanha encontram-se a inclusão de medidas destinadas a grávidas e recém-nascidos nos planos climáticos nacionais, a elaboração de orientações clínicas da OMS sobre calor e gravidez e o reforço dos sistemas de vigilância sanitária relacionados com a exposição ao calor.
Paralelamente, a organização declara ter investido mais de 20 milhões de libras em investigação sobre os efeitos do calor durante a gravidez e em projetos destinados a testar medidas de proteção.
A revisão científica da Nature Medicine utilizada para sustentar parte das mensagens da campanha também contou com financiamento da Wellcome, declarado pelos investigadores na publicação.
Neste caso, a mesma organização participa no financiamento da investigação científica, encomenda e ajuda a conceber o inquérito, promove a comunicação pública dos resultados e defende a adoção de políticas específicas com base nessa evidência.
A notícia da Lusa identifica a Wellcome como fundação financiadora de investigação e organizadora do evento, mas não explica esta concentração de papéis nem a relação de financiamento com a investigação científica utilizada na campanha.
Wellcome: a face oculta da fundação que financia estudos e influencia políticas de saúde
A Wellcome tem também um historial de polémicas relacionadas com os seus interesses financeiros. Em 2021, uma investigação do BMJ revelaram que a fundação detinha participações de centenas de milhões de libras em farmacêuticas envolvidas na resposta à Covid-19, enquanto participava em iniciativas internacionais de saúde pública.
Outra investigação da mesma revista identificou investimentos superiores a 300 milhões de libras na BP e Shell, apesar do envolvimento da organização na promoção de políticas climáticas. Em 2018, uma investigação publicada na revista Science tinha também exposto investimentos offshore associados à fundação.
Estes antecedentes deveriam reforçar ainda mais o escrutínio jornalístico sobre a independência, a transparência e os potenciais conflitos de interesse desta organização.
Lusa não respondeu ao pedido de esclarecimentos
Antes da publicação deste artigo, o The Blind Spot contactou a Agência Lusa, solicitando esclarecimentos sobre as incorreções e omissões identificadas na notícia, nomeadamente a atribuição ao novo inquérito de resultados provenientes de estudos anteriores, a interpretação dos dados estatísticos, a ausência de informação sobre as limitações metodológicas e as relações de financiamento da Wellcome. Foi igualmente questionado se a agência tinha consultado as fontes científicas originais e se pretendia corrigir a notícia.
Tal como noutras ocasiões, a Lusa não respondeu às questões colocadas.
Principais fontes
- ONU: calor extremo ameaça segurança da gravidez e do parto – Observador
- Extreme heat is putting pregnant women and their babies at risk
- A systematic review and meta-analysis of heat exposure impacts on maternal, fetal and neonatal health | Nature Medicine
- Associations between high temperatures in pregnancy and risk of preterm birth, low birth weight, and stillbirths: systematic review and meta-analysis | The BMJ
- UN Climate Chief on new data: “As extreme heat worsens, pregnancy and birth are a new faultline in the global climate crisis” | UNFCCC
- Covid-19, trust, and Wellcome: how charity’s pharma investments overlap with its research efforts | The BMJ
- At arm’s length | Science
