O chanceler alemão Friedrich Merz afirmou que o abandono da energia nuclear foi um “erro estratégico grave” e confirmou que o seu governo está a preparar a reversão da política de saída do nuclear, abrindo caminho à construção de novas centrais. As declarações surgem num contexto marcado por custos elevados da eletricidade, maior dependência de energia de hidrocarbonetos (nacionais e importados) e dificuldades crescentes da indústria alemã.
Em intervenções públicas recentes, Merz classificou a saída da energia nuclear como um erro que deixou a Alemanha com capacidade de geração insuficiente, maior exposição à volatilidade dos mercados e uma dependência estrutural de importações de gás e de eletricidade, incluindo de países com energéticos mais poluentes. O chanceler indicou ainda que os procedimentos administrativos preliminares necessários para viabilizar a construção de novas centrais já estão em curso, embora sem um calendário legislativo fechado ou decisão final de investimento.
A afirmação marca uma inflexão clara face à política seguida durante mais de duas décadas, acelerada após o acidente de Fukushima em 2011 e concluída em abril de 2023, quando foram desligados os últimos três reatores nucleares do país.
Custos de energia e pressão sobre a economia real
A reabertura do dossiê nuclear surge num momento em que a Alemanha enfrenta custos energéticos persistentemente elevados, sobretudo para consumidores industriais. Apesar do recuo face ao pico de 2022, os preços e os encargos totais da eletricidade continuam acima dos níveis anteriores à crise energética europeia, afetando setores como a indústria química, metalúrgica e automóvel. Esta diferença de custos tem sido apontado como um fator estrutural de desvantagem face a economias com acesso a energia mais barata e previsível
Empresários e associações industriais têm alertado para perda de competitividade internacional, adiamento de investimentos e, em alguns casos, deslocalização de produção para países com energia mais barata e estável, incluindo dentro da própria União Europeia.
Dependência de hidrocarbonetos e importações
O fim do nuclear não eliminou a necessidade de energia firme no sistema elétrico alemão. Pelo contrário, obrigou o país a recorrer mais intensamente a gás natural, carvão e importações de eletricidade, sobretudo em períodos de baixa produção renovável. Após o corte do gás russo, a Alemanha passou a depender mais de GNL importado, com custos mais elevados e maior exposição geopolítica.
Críticos da política anterior sublinham que esta dependência contradiz os objetivos climáticos e transferiu parte do esforço ambiental e das emissões associadas para países terceiros, onde a eletricidade importada é frequentemente produzida com base em carvão ou nuclear (os mesmo que são rejeitados internamente).
Indústria, estabilidade e o papel do nuclear
É neste contexto que o governo de Merz defende que a energia nuclear pode voltar a desempenhar um papel como fonte estável e de baixas emissões, complementando as renováveis e reduzindo a necessidade de combustíveis fósseis. O debate inclui a possibilidade de novas centrais e tecnologias mais recentes, em vez da simples reativação de reatores desativados.
Ainda assim, especialistas alertam que qualquer regresso ao nuclear exigirá alterações legislativas profundas, consenso político alargado, processos de licenciamento longos e decisões de financiamento complexas.
Conclusões deste reconhecimento
Embora não exista ainda uma decisão final, o discurso do chanceler torna politicamente irreversível a reabertura do debate. Pela primeira vez desde o fim formal do phase-out, o chefe do governo alemão admite explicitamente que a saída do nuclear pode ter comprometido a segurança energética e a base industrial do país.
Por outro lado, mostra a fragilidade de um modelo de desenvolvimento baseado em energias renováveis e revela as suas inúmeras limitações. Entre essas limitações destacam-se a intermitência, a baixa densidade energética e a dependência de sistemas de apoio, como armazenamento, redes reforçadas e centrais de backup.
Fontes:
Germany’s Merz calls nuclear phaseout ‘serious strategic mistake’
Germany’s Merz Says Nuclear Phaseout Was ‘Huge Mistake’
Germany’s shut down of nuclear plants a ‘huge mistake’, says Merz – Brussels Signal
Ver também:
Apagão Ibérico: Relatório expõe dependência excessiva de energias solar e eólica – The Blind Spot
Investigação Nature: Desde os anos 70 que a temperatura global não regista acelerações estatisticamente detetáveis – The Blind SpotOu a Europa acaba com a neutralidade carbónica, ou a neutralidade carbónica acaba com a Europa – The Blind Spot
