A BBC está debaixo de fogo depois de ter sido acusada de editar partes de um discurso de Donald Trump para sugerir que o presidente americano apelou à invasão do Capitólio. O caso, exposto agora num memorando de 19 páginas, levanta questões sobre a isenção de um dos maiores órgãos públicos de comunicação social do Reino Unido e já suscitou pedidos de demissões no Parlamento britânico. Em Portugal, o The Blind Spot tem reportado a transmissão de informações falsas e enganadoras sobre este e outros temas relacionados com a política nos Estados Unidos.
A BBC, emissora pública britânica, manipulou um vídeo de Donald Trump para dar a ideia de que o presidente norte-americano estaria a incitar à invasão do Capitólio que ocorreu a 6 de Janeiro de 2021.
O canal juntou duas partes diferentes do discurso – proferidas com a distância de quase uma hora – para ‘fabricar’ uma declaração em que Trump prometia “lutar com todas as forças”, ao lado dos seus apoiantes, até ao Capitólio. Mas aquilo que o republicano disse, na verdade, foi que caminharia com eles “para que as suas vozes fossem ouvidas de forma pacífica e patriótica”.
O vídeo foi divulgado no documentário “Trump: Uma Segunda Chance?”, emitido pouco tempo antes das últimas eleições nos Estados Unidos, mas a revelação veio a público esta segunda-feira (3), através de um memorando de 19 páginas elaborado por um ex-funcionário da BBC, ao qual o jornal The Telegraph teve acesso.
No documento, o antigo funcionário denuncia o “viés” editorial do canal, acusando-o de enganar os telespectadores e de pôr o presidente americano a “dizer coisas que ele nunca disse realmente”.
Polémica em torno da parcialidade dos média
Além da deturpação das suas palavras, foram também acrescentadas imagens dos manifestantes a marcharem em direcção ao Capitólio, empunhando bandeiras, como se tivessem sido instigados por Trump – contudo, na realidade, esses cortes foram gravados ainda antes de o então candidato ter sequer começado a discursar.
Segundo o denunciante, o órgão de fiscalização do canal apresentou, na altura, várias queixas à administração da BBC, mas terão sido rejeitadas. Agora, este dossier foi enviado a todos os membros do conselho.
O caso levanta preocupações sobre a isenção dos média e está a gerar controvérsia no Reino Unido, acendendo um debate sobre a imparcialidade – ou falta dela – dos órgãos de comunicação social, em particular daqueles que são financiados com dinheiros públicos (e também através de fundações como a Fundação de Bill & Melinda Gates).
Políticos criticam BBC e pedem justificações
No campo político, o Partido Conservador exigiu uma investigação imediata sobre o documentário. A líder, Kemi Badenoch, pediu também demissões, apelando a que “rolassem cabeças” depois das “revelações chocantes”.
Já Nigel Farage, do Reform UK, afirmou que “não é de admirar que cada vez menos pessoas paguem a taxa de licenciamento da BBC”.
Na rede social X, até o ex-primeiro-ministro Boris Johnson criticou duramente a BBC por “contar mentiras descaradas sobre o aliado mais próximo do Reino Unido”, caracterizando a acção como uma “vergonha total”.
Boris Johnson, o ex-primeiro-ministro, classificou a revelação como uma “vergonha total”.
No entanto, os pedidos de esclarecimentos vieram de todos os partidos, incluindo de actuais governantes, com um grupo de parlamentares britânicos a considerar que a BBC tem “questões sérias para responder”.
Saliente-se ainda que, além desta situação, o The Telegraph anunciou que em breve irá divulgar também outras acusações feitas no memorando, estas relacionadas com a cobertura pouco imparcial do conflito israelo-palestiniano pelo serviço árabe da BBC, e com uma “censura” no debate sobre pessoas transgénero.
Mais um caso de viés mediático
No passado recente, encontram-se diversos casos que evidenciam uma tendência da comunicação social para um alinhamento com os democratas, e em desfavor dos republicanos.
Ainda no ano passado, o conhecido programa “60 Minutos” (da CBS News) foi acusado de ter editado imagens da vice-presidente Kamala Harris de forma a favorecê-la quanto à sua posição sobre o conflito em Gaza, numa entrevista que foi para o ar em Outubro.
Trump acabaria mesmo por mover um processo contra a Paramount – detentora da CBS –, que terminou este ano com um acordo extrajudicial, com o presidente americano a afirmar em Julho ter recebido 16 milhões de dólares da empresa.
Ideia de que Trump apelou a tumultos é repetida apesar de já ter sido dada como falsa mesmo por fact-checkers
Também em Portugal, Trump tem sido repetidamente acusado, nos média, de ter incitado aos tumultos no Capitólio – apesar de fact-checkers que até são mais favoráveis ao Partido Democrata reconhecerem que as suas declarações conhecidas, antes dos incidentes, foram de incentivo a uma “manifestação pacífica”, e não a uma invasão ou ataque.
Aliás, como o The Blind Spot chegou a noticiar, no programa “Princípio da Incerteza”, da CNN, a ex-candidata a presidente da Câmara de Lisboa, Alexandra Leitão, afirmou, entre outras inverdades, que Donald Trump “atacou o Capitólio”, sem que essa alegação fosse corrigida pelo jornalista.
Mas a transmissão de informações falsas ou manipuladoras passadas pelos nossos media não se cingiram a essa questão. No The Blind Spot apresentámos vários episódios em que o rigor informativo foi violado, como no caso dos fact-checking aos debates presidenciais ou à evolução da bolsa nos Estados Unidos.
Fontes:
Exclusive: BBC doctored Trump speech, internal report reveals
Ver também:
Alexandra Leitão profere afirmações infundadas sobre Trump, e recusa retificar – The Blind Spot
‘Fact-check’: As mentiras flagrantes de Kamala Harris no debate contra Trump – The Blind Spot
