Bill Gates tem apelado aos governos e à União Europeia para investirem milhares de milhões de euros em energias renováveis e tecnologias de transição climática. Em paralelo, o trust que gere o património da Fundação Bill & Melinda Gates aumentou significativamente os seus investimentos em empresas de petróleo e gás, atingindo níveis não vistos há nove anos.
De acordo com uma investigação do The Guardian, o trust tinha 254 milhões de dólares investidos em petrolíferas e empresas de gás como a Chevron, a BP e a Shell no final de 2024, apesar de Gates ter afirmado publicamente que, desde 2019, tinha desinvestido desse setor.
Os dados constam dos formulários fiscais oficiais 990-PF, documentos públicos entregues anualmente ao fisco norte-americano, e analisados pelo jornal britânico. Mesmo ajustando à inflação, o valor investido em hidrocarbonetos é o mais elevado desde 2019.
De desinvestimento a novo crescimento
O trust da fundação reduziu a sua exposição a empresas de combustíveis fósseis após 2019. No entanto, essa tendência inverteu-se nos anos seguintes. Entre 2020 e 2024, as participações em várias petrolíferas voltaram a crescer, incluindo participações em grandes multinacionais do setor energético, como:
– a BP (de 8,7 para 24,2 milhões de dólares);
– a Glencore (de 5,7 para 14,1 milhões);
– o Occidental Petroleum (de apenas 23 mil dólares para quase 8 milhões);
– a Inpex, empresa japonesa de petróleo e gás, com 139 milhões de dólares em 2024, sete vezes mais do que em 2020.

Pressão sobre Estados e fundos públicos
Gates tem defendido publicamente, em fóruns internacionais e junto de decisores políticos, que o financiamento público é um elemento central para acelerar a transição energética.
Ao mesmo tempo, vários projetos apoiados por Gates e pelas suas empresas recebem milhares de milhões de euros em subsídios públicos, incluindo financiamentos diretos de países europeus e da União Europeia, através de programas climáticos e industriais — um contraste que tem sido alvo de críticas por parte de organizações ambientais e analistas independentes, incluindo no contexto de projetos financiados por contribuintes europeus.
Mais emissões do que países inteiros
Segundo o Guardian, em conjunto, as empresas de combustíveis fósseis nas quais o trust investiu em 2023 foram responsáveis, em conjunto, por mais emissões de gases com efeito de estufa do que países como a Alemanha, o Japão ou a Rússia.
Apesar de Gates ter escrito, em 2021, que não queria “beneficiar financeiramente de atrasos na transição para o carbono zero”, os dados mostram que o património da fundação voltou a ganhar exposição direta a produtores de petróleo e gás.
A Fundação Bill & Melinda Gates foi contactada pelo jornal britânico para comentar os dados, mas não respondeu até à publicação.
Fonte:
Billionaire Bill Gates Trust’s Fossil Fuel Holdings Rise Despite Divestment Claims | IBTimes UK
Financial Information- Gates Foundation
Ver também:
Como funciona a Fundação Bill & Melinda Gates? – The Blind Spot
Paradoxo da caridade e os principais investimentos da Fundação Bill & Melinda Gates – The Blind Spot
