Disciplina de Cidadania: Mais uma onda de “jornactivismo” e desinformação

Com as alterações à disciplina de Cidadania, assistimos esta semana a (mais) um surto de “jornactivismo” – ou activismo travestido de jornalismo. A acreditar nas notícias veiculadas pelos principais órgãos de comunicação social portugueses, o ensino sobre a sexualidade nas escolas estaria à beira de recuar em mais de 70 anos(!). Afiançavam-nos que o Governo tinha sucumbido a um puritanismo extremo e que, cheio de pudicícia, pretendia agora expurgar todas as referências à sexualidade dos programas escolares.

Como consequência desse suposto impulso obscurantista, previam já uma série de catástrofes para a saúde pública: ‘descontrolo’ das doenças sexualmente transmissíveis, mais gravidezes indesejadas e casos de violência sexual e no namoro – enfim, tudo o que a imaginação permita. É que, de facto, só a imaginação (ou a má fé) pode explicar o desfile de horrores anunciado esta terça-feira pelos principais media – e que de tão absurdo e inverosímil, só poderia mesmo convencer os mais crédulos, ou aqueles para quem os factos são secundários.

Desde logo, porque é absolutamente falso que a saúde sexual esteja em vias de desaparecer dos currículos escolares; como, aliás, o Ministro da Educação Fernando Alexandre veio ontem esclarecer.

Mais: não só não vai desaparecer, como o centro da polémica sobre a disciplina de Cidadania nunca foi sequer a educação sexual per se, mas sim o pendor ideológico e anti-científico da teoria de género. O próprio Ministro da Educação já havia explicado que era, em concreto, a questão da identidade de género que, por ser “muito mais complexa”, sairia das aprendizagens essenciais.

Mas a comunicação social mandou a isenção às urtigas e fez o público refém do seu próprio viés sobre o tema, insultando a sua inteligência e transmitindo a ideia de que o problema era a educação sexual como um todo. Uma patranha.

Alguns dos artigos publicados seriam bem-vindos pelo seu potencial cómico, se não fosse pelo facto de os “especialistas” citados – sempre escolhidos a dedo – revelarem, na melhor das hipóteses, uma alarmante ignorância, ou na pior, um preocupante facciosismo.

Houve até quem afirmasse que, com estas mudanças programáticas, os jovens precisariam de recorrer ao Google para aprenderem a prevenir uma gravidez indesejada. Em linguagem corrente, é aquilo que se chama passar um “atestado de estupidez” a todos: aos pais, aos próprios jovens e aos professores, que já há largos anos ensinam o beabá da sexualidade aos alunos ainda antes de chegarem a adolescência.

Em muitas das visões sobre a “polémica”, vimos também a falácia do reductio ad absurdum: para descredibilizar a intenção legítima de retirar a ideologia de género dos manuais, pintou-se a imagem de um Governo tão púdico que corava só de ouvir a palavra “maminhas”. A comentadores e opinadores, poder-se-ia perdoar a desonestidade, mas os jornalistas tinham a obrigação (e o dever deontológico) de primar pelo rigor e pela verdade nos artigos que publicam. E, quando dão voz a terceiros, aquilo que se exige é um mínimo de contraditório e de pluralidade de opiniões. Infelizmente, não foi o que tivemos.

Até mesmo os receios manifestados sobre um eventual incremento das gravidezes indesejadas e das doenças sexualmente transmissíveis se mostram incoerentes. De facto, se a disciplina de Cidadania serve, como dizem, para minimizar estas situações, então não tem sido assim tão bem-sucedida na sua missão. Desde a sua entrada nos programas escolares em 2018, a incidência de DST, como a sífilis e a gonorreia, tem continuado a aumentar entre os jovens portugueses dos 14 aos 25 anos – um cenário que reflecte um menor uso do preservativo e um maior número de parceiros sexuais. Não querendo com isto atribuir à disciplina a responsabilidade pelo fenómeno – até porque a tendência já vinha de trás –, parece-me que fica por provar a sua eficácia na diminuição dos comportamentos de risco dos jovens.

Por provar, fica também a credibilidade do nosso jornalismo mainstream, que já está a braços com uma crise profunda – quer do ponto de vista financeiro, quer na confiança dos leitores –, mas mostrou, uma vez mais, que pretende continuar a afundar-se no seu próprio lamaçal.

Maria Afonso Peixoto é jornalista.

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