Uma das questões que sempre coloquei a quem defendia a censura foi a de que “agora censuram quem não gostas e tu concordas, mas qualquer dia muda o poder e passam censurar-te a ti e de quem gostas”.
De facto, quando o poder muda, podem-se mudar as narrativas, mas mantém-se muitas vezes a ânsia de as controlar ou de agradar a quem as controla.
Ignorando a tentativa hipócrita de muitos média, políticos e comentadores em se apresentarem agora como defensores da liberdade de expressão, quando foram (e são) os grandes proponentes da censura (mesmo de factos objectivos ou com evidências científicas sólidas), é importante questionar: Será que a liberdade de expressão está novamente a ser posta em causa nos Estados Unidos?
Para muitos, independentemente da afinidade ideológica ou simpatia/antipatia pessoal, a vitória de Trump representou uma das últimas (se não última) oportunidade de conter uma onda totalitária global, de homogeneidade ideológica e da captura dos Estados por megacorporações monopolistas. Sendo que a censura, a perseguição e os cancelamentos generalizados de dissidentes eram instrumentos fundamentais para a implementação dessa Nova Ordem Mundial.
Mas se é verdade que os Estados Unidos são um dos poucos países que travaram a deriva para agendas globalistas em áreas como a energia, a saúde, a educação, a imigração ilegal e outras, também é verdade que não devemos fechar os olhos a sinais preocupantes em matéria de liberdade de expressão.
O caso Jimmy Kimmel e o debate sobre limites da opinião
Não me refiro tanto a casos como o da suspensão do apresentador Jimmy Kimmel pelo seu canal televisivo depois de, contra todas as evidências, sugerir que o assassino de Charlie Kirk era do “gangue do MAGA”. Mas que, ainda assim, foi apresentado por muitos como um ataque à liberdade de expressão, mesmo pelos que sempre defenderam a censura ao que discricionariamente apelidavam de “discurso de ódio” ou “desinformação”.
O próprio canal tem um cadastro extenso na matéria que vai desde permitir que o próprio Kimmel tenha defendido que fosse negado o tratamento de não vacinados quando as UCIs estivessem cheias e que estes “descansassem em paz”, até à censura do então candidato presidencial Robert Kennedy Jr. e à substituição das suas palavras por propaganda farmacêutica (de empresas que partilham os principais acionistas do canal) .
Mas mesmo nestas e noutras situações semelhantes, caso estas decisões privadas sejam o resultado de oportunismo político e de cedência a pressões da administração Trump, são bastante censuráveis.
Mas há casos bem mais preocupantes.
A redefinição do antissemitismo e a perseguição a críticos
Talvez o mais evidente de todos seja o reforço da definição da HIRA (International Holocaust Remembrance Alliance) de anti-semitismo, que alarga o seu escopo de “ódio e críticas a judeus” para incluir “críticas contra Israel”.
É perfeitamente crível que radicalismos contra judeus pudessem justificar medidas especiais para os proteger, nomeadamente nas universidades norte-americanas, mas esta nova definição visa críticas perfeitamente legítimas (independentemente de concordarmos ou não com elas).
Algo tão extremo que leva a que mesmo judeus e Israelitas possam ser considerados antissemitas se criticarem Israel ou, mais concretamente, o seu governo.
Mesmo grande parte das figuras apoiantes de Trump, alguns deles convictamente pró-Israel, têm vindo a denunciar uma crescente intolerância e perseguição às mais ligeiras críticas ou desalinhamento com as políticas do actual governo israelita.
O malogrado Kirk ainda recentemente denunciou que, apesar de ainda continuar a preferir que “Israel ganhe a guerra” e de ter uma íntima relação com o país, estava a ser maltratado e chamado de antissemita devido à sua posição com (um pouco) mais de nuances sobre o tema. Outros, têm revelado críticas e perseguições semelhantes, são os casos de Megyn Kelly, Candace Owens ou Tucker Carlson.
Já vimos a utilização abusiva deste tipo de termos, muitas vezes mal definidos, que apenas servem para atacar a liberdade de expressão, ostracizando e perseguindo vozes desconfortáveis para o establishment ou para interesses poderosos.
Foi (e é) feito com as catalogações depreciativas de “negacionista”, “teorias da conspiração” ou “extrema-direita” e com as perseguições, censuras e cancelamentos associados. O mesmo parece estar a acontecer agora com a instrumentalização do termos “antissemita”.
O papel da censura no fortalecimento da radicalização
Temos, pois, de estar atentos aos ataques à liberdade de expressão, venham de onde vierem e defendê-la mesmo, diria até especialmente, quando discordamos dela.
Só consolidando esse princípio fundamental podemos viver numa sociedade verdadeiramente livre e não numa paranoia constante em que se cataloga e censura tudo o que não corresponde ao “pensamento de grupo” da maioria ou de quem tem mais maior poder.
As más ideias combatem-se no mercado de ideias e prosperam sob proteção da censura. As maiores radicalizações vêm sempre de quem não ouve outras perspetivas e apenas reforça as suas.
Para esses, todas as ideias, por mais legitimas e fundamentadas que sejam, parecem inaceitáveis. Enquanto os atos mais radicais para as combater parecem toleráveis ou até justificados.
