Um novo estudo publicado na revista científica JAMA Health Forum sugere que a vacinação contra a covid-19 – com mais de 13 mil milhões de doses administradas em todo o mundo – possa ter salvo 2,5 milhões de vidas, a maioria acima dos 70 anos. No entanto, teve um impacto quase nulo na redução da mortalidade entre a população mais jovem: abaixo dos 30 anos, ter-se-ão evitado pouco mais de 2.000 mortes (377 já previamente infectados), incluindo pacientes com factores de risco para a doença. O estudo estima ainda a mortalidade devido aos efeitos adversos “mais consensuais”, e a curto prazo, das vacinas covid (como trombose com trombocitopenia, miocardite e morte de idosos debilitados) em 20.000 (porém, com elevado grau de incerteza).
Desde o início da crise da covid até Outubro do ano passado, foram administradas mais de 13,6 mil milhões de vacinas contra a covid-19 em todo o mundo. Mas um estudo agora publicado na prestigiada revista científica JAMA Health Forum evidencia que, para a população com menos de 30 anos, os benefícios da elevada cobertura vacinal foram quase inexistentes, e poderão mesmo ter sido inferiores aos efeitos adversos causados pelas vacinas. Com efeito, o estudo – cujo principal autor é o reputado epidemiologista John Ioannidis – estima que a vacina só conseguiu impedir a morte de 299 jovens com menos de 20 anos, e de outros 1.808 entre os 20 e os 29 anos.
Embora não se saiba o número exacto de jovens vacinados abaixo dos 30 anos, o estudo refere que a percentagem deverá corresponder a cerca de 16% das doses administradas globalmente. Isto significa que, nesta faixa etária, por cada 100 mil pessoas inoculadas, a vacina preveniu apenas uma morte – e não foram tidas em conta eventuais comorbilidades.

Esta análise mostra que a população mais envelhecida foi, de facto, a que pode ter ‘colhido’ mais benefícios das vacinas anti-covid. Das 2,5 milhões de vidas que calcula terem sido salvas, a grande maioria (89%) encontra-se na faixa etária com 60 ou mais anos. Por outras palavras, nove em cada 10 mortes evitadas pertenciam a este segmento populacional.
No entanto, é mesmo no grupo a partir dos 70 anos que se encontra o maior número de vidas salvas pela vacinação: 1.750.350, o que corresponde a 69% do total.
Globalmente, os investigadores estimam que foram precisas 5.400 doses vacinais para se salvar uma vida.
“A análise compara os resultados das estratégias globais de vacinação COVID-19 com um cenário de não vacinação usando as melhores estimativas sobre a taxa de letalidade da infecção (IFR), eficácia da vacinação (VE) para a mortalidade e a proporção da população provável de ter sido infectada antes e depois da vacinação.”
Outras estimativas
Tal como em outras análises similares, o estudo parte do princípio de que as vacinas salvaram vidas, mas um dos aspectos mais surpreendentes é a estimativa muito mais conservadora que faz em comparação com modelos anteriores.
Em 2022, por exemplo, numa análise publicada no Lancet Respiratory Medicine, o London Imperial College chegou a calcular que as vacinas da covid tinham evitado, só no primeiro ano, quase 20 milhões de mortes em todo o mundo.
Já a Organização Mundial de Saúde (OMS) estimou que um total de 14,4 milhões de vidas tinham sido salvas pela vacinação em 2021. Além disso, em Agosto do ano passado, o gabinete europeu da OMS divulgou um estudo segundo o qual as vacinas contra a covid tinham salvo 1,6 milhões de vidas só na Europa – um número que, embora muito inferior às estimativas feitas no passado, não é corroborado pelo estudo agora publicado na JAMA Health Forum.
Os investigadores dão algumas ‘pistas’ para explicar essas discrepâncias:
“Esforços anteriores para estimar as mortes evitadas pelas vacinas COVID-19 usaram modelagem epidémica ou contrafactuais de dados de vigilância. Os modelos podem fornecer resultados não confiáveis, dependendo das suposições. Modelos anteriores tentaram cálculos com evidências iniciais mais limitadas e, portanto, talvez suposições menos plausíveis ou incertas, e abordaram principalmente o período pré-Omicron.”
Mortes causadas pelas vacinas
O estudo estima ainda as mortes (a curto prazo) provocadas pelos efeitos adversos graves “mais consensuais atribuídos às vacinas covid”: trombose (juntamente com trombocitopenia); miocardite e morte após vacinação em residentes de lares de idosos muito debilitados.
A estimativa para estas mortes ascende a 20.000 mortes, embora seja reconhecida “uma incerteza muito grande” nesses números.
Para os autores, a vacinação covid teve “grandes benefícios”, embora essa vantagem “pode ter sido muito menor ou mesmo invertida em alguns subgrupos da população com alto risco desses eventos adversos”.
Fontes
How many lives did Covid vaccines really save? – UnHerd
Covid vaccines ‘saved far fewer lives than first thought’
