Expresso troca extrema-esquerda por extrema-direita, corrige sem avisar leitores

ByNuno Machado

20 de Outubro, 2026
Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Barricade_incendi%C3%A9e,_rue_Beaubourg_%C3%A0_Paris_3e,_samedi_17_octobre_2026.jpg

O Expresso publicou uma notícia sobre a violência em França em que atribuía à extrema-direita acusações das autoridades francesas dirigidas à extrema-esquerda. O jornal corrigiu a informação sem assinalar a alteração. Só muitas horas depois e após vários leitores terem denunciado a situação e o The Blind Spot ter questionado o jornal sobre eventuais violações deontológicas, foi acrescentada uma nota de correção. Em 2023, a RTP cometeu precisamente a mesma troca ideológica, tendo sido censurada pela Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), que considerou igualmente inadequada a forma como o erro foi corrigido. 

A 18 de outubro, o Expresso publicou uma notícia sobre os protestos e episódios de violência em França, que incluía acusações do ministro do Interior francês contra grupos envolvidos nos incidentes 

O título inicialmente divulgado pelo jornal afirmava:

«Macron fala hoje ao país após violência nas ruas; ministro acusa extrema-direita».

Fonte: Título original do Expresso apresentado nos resultados do Google. Captura de ecrã arquivada pelo The Blind Spot

No entanto, a informação correta era outra. As autoridades francesas tinham atribuído parte dos episódios violentos a elementos da ultraesquerda e a grupos de delinquentes.

O ministro do Interior, Laurent Nuñez, referiu a participação de elementos da «ultragauche» nos incidentes, nomeadamente em Marselha, segundo declarações divulgadas em 18 de outubro.

O jornal acabou por apresentar um título diferente:

«Macron fala hoje à França após violência nas ruas; ministro acusa extrema-esquerda».

O jornal acabou por substituir a referência à extrema-direita por extrema-esquerda.

Não se tratou de uma correção ortográfica nem de uma simples reformulação do título. A alteração inverteu a identificação ideológica dos grupos acusados de violência pelo ministro francês.

Leitores detetaram a contradição nas redes sociais

A informação incorreta também foi divulgada através das redes sociais do Expresso, onde vários leitores detetaram e contestaram a contradição. 

Fonte: Título original do Expresso no Facebook apresentado nos resultados do Google. Captura de ecrã arquivada pelo The Blind Spot

Na página do Expresso no Facebook, dezenas de cidadãos denunciaram a informação errada.

Fonte: Expresso – Foram detidas 1.800 pessoas após os protestos de sábado… | Facebook 

Apesar das críticas dos leitores e da posterior correção da notícia, não foi identificado qualquer esclarecimento do Expresso na publicação do Facebook, onde a informação incorreta tinha sido divulgada. 

Título corrigido às 15h41 continuava sem nota de retificação às 22h45  

Entretanto, o Expresso acrescentou à notícia original uma nota de correção, reconhecendo assim a necessidade de assinalar a alteração efetuada.

O problema é que a nota não acompanhou a primeira retificação do título. Foi introduzida muito tempo depois, quando a informação já tinha sido alterada e os leitores tinham denunciado publicamente a contradição.

Não nos foi possível estabelecer o intervalo exato entre a alteração do título e a introdução da nota. No entanto, o The Blind Spot guardou a versão da notícia às 22h45 de dia 18 e, nesse momento, não constava qualquer referência à alteração feita mais de sete horas antes,às 15h41. 

Também não foi identificado qualquer esclarecimento na publicação do Facebook, onde os leitores tinham denunciado o erro.

Assim, a nota posteriormente acrescentada ao artigo não assegura que os utilizadores que consultaram apenas a informação divulgada no Facebook tenham sido informados da correção.

RTP cometeu o mesmo erro em 2023 e foi censurada pela ERC

O episódio do Expresso tem um antecedente particularmente relevante na televisão pública.

Em 25 de março de 2023, a RTP3 transmitiu uma reportagem sobre os protestos contra a reforma das pensões em França, na qual traduziu incorretamente declarações do então ministro do Interior, Gérald Darmanin.

A expressão francesa “extrême gauche”, que significa extrema-esquerda, foi traduzida como “extrema-direita”. A referência a “ultra-gauche” também foi apresentada como ultradireita.

O erro motivou 120 participações à Entidade Reguladora para a Comunicação Social, que apreciou o caso na Deliberação ERC/2023/246, de 27 de junho de 2023.

A RTP reconheceu o erro e alegou que tinha resultado de um lapso involuntário. A reportagem foi posteriormente transmitida com a tradução correta, mas sem que os telespetadores fossem informados da incorreção anterior. A versão errada também permaneceu disponível na RTP Play.

A ERC considerou que a RTP não tinha cumprido adequadamente os deveres de rigor informativo e retificação, instando a televisão pública a corrigir a informação e a observar os deveres aplicáveis.

A decisão é particularmente relevante porque o regulador não se limitou a apreciar a tradução errada. Analisou também a ausência de uma retificação adequada perante os telespetadores.

Três anos depois, o Expresso protagonizou um episódio semelhante: trocou extrema-esquerda por extrema-direita numa notícia sobre violência em França e corrigiu posteriormente o erro sem o assinalar imediatamente aos leitores.

O jornal acabaria por publicar uma nota de correção, mas apenas depois de um período superior a sete horas durante o qual a notícia já apresentava a informação correta sem reconhecer a incorreção inicial.

A diferença é que o Expresso acabou por acrescentar uma nota à notícia. No entanto, essa informação surgiu com muito atraso, sem referir esse facto e sem o fazer na rede social onde o erro também tinha sido divulgado.

Fontes

Macron fala hoje à França após violência nas ruas; ministro acusa extrema-esquerda – Expresso (sem a nota de correção posteriormente acrescentada).

Macron fala hoje à França após violência nas ruas; ministro acusa extrema-esquerda – Expresso  (incluindo a nota de correção).

Expresso – Foram detidas 1.800 pessoas após os protestos de sábado… | Facebook 

Deliberação ERC/2023/246

Deontológico – Código Deontológico – Sindicato dos Jornalistas (pontos 1 e 5).

Ver também:

Arquivo de Fake News – The Blind Spot

Jornal Expresso divulga informação falsa sobre máscaras – The Blind Spot

Expresso condenado pela ERC por não revelar que peças jornalísticas eram “publicidade” – The Blind Spot

Falácia do espantalho: como os media distorcem o debate – The Blind Spot

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