Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Lubmin_Nord_Stream_Offshore-Rohr.jpg

A Procuradoria-Geral Federal da Alemanha acusa um antigo oficial ucraniano de ter liderado a sabotagem dos gasodutos Nord Stream 1 e 2, em setembro de 2022, numa operação que, segundo a acusação, foi executada por ordem das Forças Armadas ucranianas. O julgamento começou a 14 de outubro, em Hamburgo, e envolve alegados crimes de guerra contra infraestruturas civis. Os gasodutos eram estratégicos para a economia alemã, garantindo acesso direto ao gás russo a preços historicamente competitivos, essencial para vários setores industriais. A sua destruição coloca a Alemanha perante uma situação delicada: a possibilidade de estruturas militares de um país que apoia financeiramente e militarmente terem participado na sabotagem de uma infraestrutura fundamental para a sua economia.

Quatro anos depois das explosões que danificaram os gasodutos Nord Stream, no Mar Báltico, a justiça alemã deu um passo decisivo na investigação de uma das maiores operações de sabotagem contra infraestruturas energéticas europeias.

No dia 14 de outubro de 2026, começou no Tribunal Superior Regional de Hamburgo o julgamento de Serhii Kuznietsov, um antigo oficial das Forças Armadas ucranianas, de 50 anos, acusado de coordenar a destruição dos gasodutos que ligavam a Rússia à Alemanha.

A novidade mais significativa não é apenas a identificação de um alegado responsável pela operação. Segundo a acusação apresentada em tribunal, a equipa atuou por ordem das Forças Armadas ucranianas, como confirmou a televisão pública alemã NDR, que acompanhou a primeira audiência.

Trata-se de uma alteração importante relativamente às suspeitas divulgadas ao longo dos últimos anos. A responsabilidade de estruturas militares ucranianas passou a integrar uma acusação criminal formal, embora continue por demonstrar judicialmente.

Uma operação de sabotagem planeada e executada por militares

De acordo com a Procuradoria alemã, o suspeito liderou uma equipa de sete elementos que terá utilizado identidades falsas para organizar a operação.

O grupo terá alugado um veleiro, o Andromeda, na cidade alemã de Rostock, deslocando-se posteriormente para o Mar Báltico, nas proximidades da ilha dinamarquesa de Bornholm.

Segundo a investigação, mergulhadores especializados colocaram explosivos com temporizadores nos gasodutos, provocando as explosões de 26 de setembro de 2022.

Os Nord Stream 1 e 2 foram gravemente danificados. A operação destruiu parte de uma infraestrutura energética estratégica que representava milhares de milhões de euros de investimento e tinha sido construída para transportar gás natural russo diretamente para a Alemanha.

Na altura das explosões, o Nord Stream 1 já não estava a fornecer gás, enquanto o Nord Stream 2 nunca tinha entrado em funcionamento comercial. Por isso, a sabotagem não interrompeu um fluxo de gás que estivesse efetivamente a decorrer naquele momento, embora tenha comprometido a possibilidade de utilização futura das infraestruturas.

Kuznietsov foi detido em Itália, em agosto de 2025, e entregue às autoridades alemãs em novembro desse ano.

A acusação considera-o um dos principais responsáveis pela organização da operação.

Acusação inclui crimes de guerra contra infraestruturas civis

O processo ultrapassa o enquadramento de um simples crime de destruição de propriedade.

Num comunicado oficial de 2 de setembro de 2026, o Tribunal Superior Regional de Hamburgo confirmou ter admitido a acusação apresentada pela Procuradoria-Geral Federal alemã.

O tribunal considerou existirem indícios suficientes para levar Kuznietsov a julgamento por crimes que incluem a utilização de métodos de guerra proibidos mediante ataque a bens civis, acionamento de explosões, destruição de infraestruturas e perturbação de serviços públicos.

A inclusão de crimes de guerra é particularmente relevante porque coloca em discussão a legalidade de uma operação militar contra infraestruturas energéticas civis, mesmo quando estas possam ter importância económica para um Estado envolvido num conflito.

A acusação sustenta, assim, que a destruição dos gasodutos pode constituir uma violação do direito internacional humanitário.

As provas recolhidas pela investigação

A investigação alemã reuniu diferentes elementos destinados a reconstruir a preparação e execução da operação.

Entre os indícios divulgados encontram-se a utilização de documentação falsa, os movimentos do veleiro alegadamente utilizado pelos suspeitos e elementos recolhidos no âmbito das investigações criminais.

As autoridades também terão intercetado conversas telefónicas do acusado durante a sua detenção em Itália.

Segundo informações divulgadas pelo NDR, nessas conversas Kuznietsov terá manifestado descontentamento por se sentir abandonado pela Ucrânia e pelo seu presidente.

A defesa contesta o envolvimento do arguido e considera insuficientes os elementos apresentados para sustentar a sua responsabilidade.

No primeiro dia do julgamento, os advogados requereram a suspensão do processo, argumentando que Kuznietsov não poderia exercer plenamente o seu direito de defesa, por estar sujeito a obrigações de confidencialidade relacionadas com o serviço militar ucraniano.

A defesa também rejeita a qualificação da operação como crime de guerra, defendendo que os gasodutos poderiam constituir objetivos militares legítimos devido à sua importância estratégica para a Rússia.

Esta interpretação é contestada pela acusação e será uma das questões jurídicas centrais do julgamento.

A responsabilidade do Estado ucraniano

O aspeto politicamente mais sensível do processo é a atribuição da operação a ordens provenientes de estruturas estatais ucranianas.

Até agora, grande parte das informações públicas sobre o eventual envolvimento de Kiev resultava de investigações jornalísticas, declarações de fontes anónimas e informações atribuídas a serviços de informações.

A acusação apresentada em Hamburgo introduz uma diferença fundamental: a tese de envolvimento de autoridades militares ucranianas passou a fazer parte de um processo judicial formal.

Nord Stream: uma infraestrutura estratégica para a competitividade alemã

Os gasodutos Nord Stream constituíam uma das principais infraestruturas de abastecimento energético da Alemanha e um elemento importante do modelo económico que sustentou a competitividade da sua indústria durante décadas.

O Nord Stream 1, operacional desde 2011, tinha capacidade para transportar 55 mil milhões de metros cúbicos de gás natural por ano, diretamente da Rússia para a Alemanha, através do Mar Báltico. O Nord Stream 2, concluído em 2021, permitiria duplicar essa capacidade para 110 mil milhões de metros cúbicos anuais, embora nunca tenha recebido autorização para iniciar a exploração comercial.

A importância do gás russo era particularmente significativa para a economia alemã. Segundo a agência federal reguladora da energia, a Rússia representava 52% das importações alemãs de gás natural em 2021.

O abastecimento por gasoduto proporcionava acesso a grandes volumes de gás, tradicionalmente a preços competitivos, utilizado na produção industrial, no aquecimento e na geração de eletricidade. Setores como a indústria química, metalúrgica, do vidro e dos fertilizantes dependiam particularmente desta fonte de energia, tanto como combustível como matéria-prima.

A própria autoridade reguladora alemã reconheceu que o gás russo tinha sido fornecido de forma fiável durante anos e a preços baixos, antes da crise energética de 2022.

A interrupção das importações russas obrigou a Alemanha a procurar fornecedores alternativos e a recorrer crescentemente ao gás natural liquefeito (GNL), transportado por navio. Esta transformação ocorreu num contexto de preços energéticos elevados: segundo a mesma autoridade, o preço médio grossista do gás aumentou de 47 euros por MWh, em 2021, para 123,8 euros em 2022.

O impacto económico fez-se sentir especialmente na indústria. O consumo industrial de gás diminuiu significativamente em 2022, refletindo poupanças, adaptações produtivas e os efeitos dos preços elevados. O agravamento dos custos energéticos colocou pressão sobre a competitividade de empresas alemãs que disputam mercados internacionais com produtores sujeitos a condições energéticas diferentes.

A destruição de três das quatro condutas comprometeu a possibilidade de retomar, sem reparações significativas, o abastecimento direto através destas infraestruturas.

Alemanha apoia país cujas estruturas militares são agora implicadas pela sua justiça

O processo cria uma situação particularmente delicada para o Governo alemão.

Desde a invasão russa da Ucrânia, em fevereiro de 2022, Berlim tornou-se um dos principais fornecedores europeus de assistência militar e financeira a Kiev.

A Alemanha é também um dos países diretamente afetados pela sabotagem, uma vez que os gasodutos tinham sido construídos para assegurar o abastecimento de gás natural ao mercado alemão e a outros países europeus.

Se o envolvimento de estruturas estatais ucranianas vier a ser confirmado judicialmente, ficará estabelecido que órgãos de um país apoiado pela Alemanha participaram na destruição deliberada de infraestruturas energéticas de importância estratégica para esse mesmo país.

Esta possibilidade levanta questões sobre a responsabilidade política pela operação, a proteção das infraestruturas críticas europeias e as consequências diplomáticas de um eventual envolvimento estatal.

O caso já alimenta críticas de forças políticas alemãs contrárias à continuidade do apoio militar à Ucrânia.

Um julgamento com consequências que ultrapassam o caso individual

O julgamento iniciado em Hamburgo representa um desenvolvimento importante na investigação às explosões de setembro de 2022.

Pela primeira vez, um suspeito da operação está a ser julgado publicamente num processo em que a acusação atribui a sabotagem a ordens de estruturas militares ucranianas.

O tribunal terá agora de avaliar a consistência dos indícios, a participação concreta do acusado e a qualificação jurídica da destruição dos gasodutos.

Permanece também por esclarecer quem, dentro da estrutura política ou militar ucraniana, terá autorizado a operação, caso a tese da Procuradoria venha a ser confirmada.

Independentemente do resultado, o processo coloca uma questão de grande relevância para a segurança europeia: a possibilidade de uma infraestrutura energética estratégica da Alemanha ter sido destruída por elementos ligados às Forças Armadas de um país aliado e beneficiário de apoio alemão.

A próxima audiência está marcada para 27 de outubro. O tribunal prevê que o julgamento prossiga, pelo menos, até fevereiro de 2027.

Principais fontes

Hanseatisches Oberlandesgericht: Anklage wegen der Sprengung der Nord-Stream-Gaspipelines zur Hauptverhandlung zugelassen und Akkreditierungsverfahren angeordnet 

Liveticker zum Nord-Stream-Prozess: So lief der erste Tag in Hamburg | ndr.de 

Nord-Stream-Prozess in Hamburg gestartet: Angeklagter schweigt | tagesschau.de 

Ver também:

Investigação independente responsabiliza EUA pela decisão de destruir o gasoduto Nord Stream e descreve todo o processo – The Blind Spot

Ucranianos já não confiam nas notícias controladas pelo governo de Zelensky – The Blind Spot

CNN Portugal oculta utilização de imagens falsas sobre a guerra na Ucrânia  – The Blind Spot

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