Fact-check do Polígrafo sobre vacinas Covid-19 contém alegações falsas e enganosas

Sob o pretexto de combater a desinformação, o Polígrafo publicou um artigo sobre as vacinas da Covid-19 repleto de alegações falsas, parciais e enganadoras. São misturados factos verdadeiros com alegações desmentidas por fontes científicas (e das próprias farmacêuticas), em relação a temas como os efeitos adversos das vacinas covid e a imunidade à doença. Num artigo feito para supostamente combater a desinformação, são replicadas algumas das práticas que denuncia.

Com o título “Vacinas da Covid-19: 5 mentiras e narrativas virais que podem repetir-se no futuro” o Polígrafo, numa verificação  de factos, publicou um artigo que supostamente denuncia mentiras sobre as vacinas covid-19.

Fonte: Vacinas da Covid-19: 5 mentiras e narrativas virais que podem repetir-se no futuro – Polígrafo

O texto compila várias opiniões e tem como base uma entrevista ao investigador Miguel Prudêncio. No entanto, além de citações seletivas e factos indesmentíveis, reproduz um conjunto de informações comprovadamente falsas, enganadoras ou descontextualizadas.

Informações factualmente falsas

É falso que as vacinas covid não “causem mortes e doenças graves”

A informação falsa mais evidente é a de que é mentira a afirmação “As vacinas não são seguras e causam mortes, doenças graves e ‘cancros-turbo’”. A questão sobre a segurança das vacinas covid pode ser discutida e depende sempre dos critérios usados e da análise da informação disponível, sendo que existem especialistas e entidades de saúde com perspetivas diversas (especialmente em relação a certos grupos etários).

Já a segunda parte da afirmação é factualmente falsa. As vacinas covid, tal como outros medicamentos, causam mortes e doenças graves. Esse facto é reconhecido por agências de saúde e pelas próprias farmacêuticas e é independente das avaliações de risco/benefício que se possam fazer.

No caso do cancro, apesar de existirem investigações que encontraram fortes associações entre a vacinação covid e o desenvolvimento de alguns tipos de cancro e possíveis mecanismos para essa relação (como a inflamação induzida pelas vacinas mRNA ou a contaminação por ADN na sua produção), ainda não está confirmada uma relação causal.

O mesmo não se passa com um conjunto de outras doenças, entre elas as miocardites. Como podemos confirmar por um dos seus fabricantes (a Moderna):

“Existe um risco aumentado de miocardite e pericardite após a vacinação com Spikevax. Estas condições podem desenvolver-se poucos dias após a vacinação e ocorreram principalmente no prazo de 14 dias. Foram observadas com maior frequência em homens mais jovens e com maior frequência após a segunda dose em comparação com a primeira dose (ver secção 4.8). Os dados disponíveis indicam que a maioria dos casos recupera. Alguns casos necessitaram de cuidados intensivos e foram observados casos fatais.”

Fonte: Spikevax, (Moderna) COVID-19 mRNA Vaccine – SUMMARY OF PRODUCT CHARACTERISTICS

Programas para indemnizar reações adversas graves e mortes

Para além disso, existem inúmeros programas especificamente criados para compensar efeitos adversos graves, específicos para esta vacina ou integrados em programas amplos, como por exemplo em França, no Reino Unido ou Estados Unidos.

A própria OMS lançou um programa em 2021 para pessoas lesadas pelas vacinas covid e financiado pela GAVI para residentes em países menos desenvolvidos.

Fonte: No-fault compensation programme for COVID-19 vaccines is a world first

No documento onde é anunciado o programa pode-se ler:

“Todas as vacinas adquiridas ou distribuídas através do Mecanismo COVAX recebem aprovação regulamentar ou autorização de uso de emergência para confirmar a sua segurança e eficácia.

Mas, tal como acontece com todos os medicamentos, mesmo as vacinas aprovadas para uso geral podem, em casos raros, causar reações adversas graves.”

Em Portugal, o The Blind Spot também teve acesso a relatórios médicos que atestam reações adversas graves às vacina covid.

É falso que a covid-19 tenha encontrado a população sem imunidade

A alegação feita pelo investigador de que a covid-19 “encontrou a população mundial sem qualquer imunidade” também não é verdadeira.

“… o vírus da Covid-19, sendo mais recente, encontrou a população mundial sem qualquer imunidade, o que facilitou a rápida disseminação e o elevado número de casos graves e mortes… “

Vários estudos demonstram exatamente o contrário, ou seja, que entre a população existia imunidade cruzada, nomeadamente devido ao contacto com os coronavírus conhecidos e com outros provavelmente ainda não identificados [1][2][3][4].

Além disso, existem inúmeros mecanismos gerais ou relacionados com o contacto com outros agentes que fornecem vários níveis de proteção e justificam as baixas taxas de letalidade, especialmente em pessoas saudáveis ou sem fatores de risco.

As crianças são particularmente imunes à doença com inúmeros estudos a demonstrarem que casos graves e mortes são raríssimos dentro desta faixa etária [5][6][7] [8], nomeadamente devido à resposta do sistema imunitário inato e a outros fatores protetores.

Informações imprecisas, descontextualizadas e opinativas

Declarações de Bolsonaro e a gravidade da covid

A primeira suposta mentira que é abordada é a de que “A Covid-19 é só ‘uma gripezinha’”.

O investigador entrevistado refere-se a “grupos de negacionistas, movimentos anti-vacinação e figuras políticas ou mediáticas, que procuraram desvalorizar a gravidade da infeção causada pelo SARS-CoV-2” citando o ex-Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, que se referiu à Covid-19 como uma “gripezinha”. Como consta da própria fonte da citação de Bolsonaro, ele afirma que tal se refere ao “seu caso” em particular e não à população em geral.

“O que se passa no mundo tem mostrado que o grupo de risco é o das pessoas acima dos 60 anos. Então por que fechar escolas? Raros são os casos fatais de pessoas sãs com menos de 40 anos de idade. 90% de nós não teremos qualquer manifestação, caso se contamine. Devemos sim, é ter extrema preocupação em não transmitir o vírus para os outros, em especial aos nossos queridos pais e avós, respeitando as orientações do Ministério da Saúde.

No meu caso particular, pelo meu histórico de atleta, caso fosse contaminado pelo vírus não precisaria me preocupar, nada sentiria ou seria, quando muito, acometido de uma gripezinha ou resfriadinho, como bem disse aquele conhecido médico daquela conhecida televisão.”

Essa avaliação geral é muito pouco rigorosa, até porque teríamos de considerar os erros nos tratamentos médicos iniciais, os vários tipos de gripe, a enorme variedade de consequências clínicas (gravidade), as enormes diferenças de risco de acordo com a idade, comorbilidades, etc. Para a maioria das pessoas é de facto uma gripe, uma constipação ou não têm sequer sintomas da infeção (ou eles são quase impercetíveis).

Por exemplo, um estudo (talvez o mais completo a nível global e que foi publicado pela OMS) estimou a letalidade global pré vacinação em 0,03%, até aos 60 anos, e 0,07%, até aos 70, com a letalidade a aumentar significativamente a partir dessas idades.

Deste modo, essa afirmação é no mínimo imprecisa e subjetiva.

Os médicos e cientistas do sistema são de confiança

O investigador é citado a afirmar igualmente, que é uma mentira que “Os médicos e os cientistas “do sistema” não são de confiança”, algo que obviamente não se poderá generalizar e que também é alvo das mais variadas opiniões. Isto até porque os “os médicos e os cientistas “do sistema” são muito variados e, por vezes, eles próprios têm perspetivas contraditórias.

Usa o caso de Anthony Fauci para ilustrar esses ataques. Ora, a verdade é que o que é descrito como “ataques à ciência” foi muitas vezes feito com base (1) em opiniões de investigadores de topo mundial, (2) em estudos de alto nível de evidência ou (3) em factos que, para muitos, comprometem a credibilidade do próprio Fauci. É falso, portanto, que as críticas decorram apenas da invocação de “opiniões de pseudoespecialistas”, como é referido.

Risco de miocardite – vacina versos infeção natural

O investigador foi citado em relação aos efeitos adversos das vacinas covid e confirmou que uma das supostas mentiras alegadas no artigo – a de que as vacinas provocavam doenças graves ou morte – era afinal verdade, dado que confirmou a ocorrência de miocardites uma condição potencialmente grave ou mesmo fatal.

No entanto, ele também terá afirmado que “a probabilidade de haver uma miocardite resultante da vacina era muito inferior à probabilidade de haver uma miocardite resultante da própria infeção” e que “numa análise de risco-benefício, era óbvio que esse risco era mínimo comparado com o risco de desenvolver aquela condição no caso de contrair efetivamente a doença”.

Ora, estas afirmações são no mínimo enganosas, dado que esse risco-benefício tem de ser analisado em função de múltiplos fatores como o grupo em causa, do tipo de vacina, da existência de infeção prévia ou do risco cumulativo de vacinas aplicadas, entre outros fatores.

Mesmo se considerarmos alguns fatores de análise em que os resultados são mais díspares, várias investigações demonstraram que o risco de miocardites em jovens masculinos (embora também, em alguns casos, femininas) é superior após vacinação do que após infeção natural.

Estudos sobre incidência de Miocardite por escalão etário

Uma meta-análise  de quatro países nórdicos (23,1 milhões de residentes) revelou que a incidência de miocardite aumentou significativamente entre jovens após vacinação mRNA (Pfizer e Moderna), sendo que esse aumento dependeu de vários fatores como a marca específica, a combinação de vacinas, a idade e o sexo.

Fonte: SARS-CoV-2 Vaccination and Myocarditis in a Nordic Cohort Study of 23 Million Residents | Vaccination | JAMA Cardiology | JAMA Network Supplementary tables
Fonte: SARS-CoV-2 Vaccination and Myocarditis in a Nordic Cohort Study of 23 Million Residents | Vaccination | JAMA Cardiology | JAMA Network Supplementary tables

Entre os mais jovens esse aumento foi muito mais significativo, nos rapazes como podemos ver.

Fonte: SARS-CoV-2 Vaccination and Myocarditis in a Nordic Cohort Study of 23 Million Residents | Vaccination | JAMA Cardiology | JAMA Network Supplementary tables

Por outro lado, essa mesma investigação analisou a incidência de miocardites após infeção e verificou que entre os mais jovens ela foi nula ou muito baixa.

Fonte: SARS-CoV-2 Vaccination and Myocarditis in a Nordic Cohort Study of 23 Million Residents | Vaccination | JAMA Cardiology | JAMA Network Supplementary tables

Outras investigações corroboram o maior risco de incidência de miocardites após as vacinas covid do que após a infeção natural em jovens, especialmente do escalão masculino.

“No geral, o risco de miocardite é maior após a infeção por SARS-CoV-2 do que após a vacinação contra COVID-19 e permanece modesto após doses sequenciais, incluindo uma dose de reforço da vacina de mRNA BNT162b2. No entanto, o risco de miocardite após a vacinação é maior em homens mais jovens, principalmente após uma segunda dose da vacina mRNA-1273.”

Fonte: Risk of Myocarditis After Sequential Doses of COVID-19 Vaccine and SARS-CoV-2 Infection by Age and Sex – PubMed

Conclusão: quando o verificador precisa de ser verificado

É verdade que circulam informações falsas ou não comprovadas a propósito da covid-19, mas não deixa de ser verdade que muitas dessas informações vêm das próprias autoridades, peritos ou comunicação social.

É a esse nível curioso que Miguel Prudêncio use generalizações para atacar vozes críticas a partir de factos antigos, como sobre reações ao surgimento da primeira vacina, ou de alegações pouco fundamentadas e raras, como a de que “as vacinas têm chips”.

Ao mesmo tempo, não aborda temas como o da origem da covid, a eficácia das máscaras, a eficácia das vacinas, o que é uma morte covid, a taxa de letalidade da doença, ou outros assuntos em que vários especialistas mundiais apresentaram visões diferentes das autoridades às dos “peritos do sistema” e que se revelaram pertinentes ou completamente corretas.

Mas, mais grave do que isso tudo, é um artigo publicado num suposto “verificador de factos” dissemine informações falsas ou altamente enganadoras junto do público.

Outras fontes:

[1] Cross-reactive CD4+ T cells enhance SARS-CoV-2 immune responses upon infection and vaccination – PubMed

[2] JCI Insight – A majority of uninfected adults show preexisting antibody reactivity against SARS-CoV-2

[3] Pre-Pandemic Cross-Reactive Immunity against SARS-CoV-2 among Central and West African Populations – PubMed

[4] Pre-existing T cell-mediated cross-reactivity to SARS-CoV-2 cannot solely be explained by prior exposure to endemic human coronaviruses – PubMed

[5] Deaths in Children and Young People in England following SARS-CoV-2 infection during the first pandemic year: a national study using linked mandatory child death reporting data | Research Square

[6] COVID-19 deaths and autopsies Feb 2020 to Dec 2021 – Office for National Statistics

[7] Report-COVID-2019_10_january_2022.pdf

[8] Dados-internamentos-SCIP-SARS-COV-2-.pdf

Ver também:

Fact-checkers ‘ignoram’ “estudo-fantasma” desmentido pelos próprios investigadores – The Blind Spot

Arquivo de Fake News – The Blind Spot

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