Recentemente, várias organizações internacionais têm denunciando um intensificar da perseguição e da violência contra comunidades cristãs em África, com Moçambique a figurar entre os três países africanos mais mortíferos para os cristãos. Numa nova onda de violência que começou no final do mês passado, elementos extremistas islâmicos reivindicaram mais três mortes esta segunda-feira, na província moçambicana de Cabo Delgado. Há quem fale num “genocídio”, ou numa “guerra silenciosa”, que é “muitas vezes ignorada pela comunidade internacional”.
Em Moçambique, os cristãos continuam a ser alvo de uma perseguição violenta, com ataques contínuos perpetrados por elementos do Estado Islâmico (EI) – a ponto de o país já figurar entre os três mais mortíferos em África para aqueles que professam a fé cristã, de acordo com um relatório da organização Global Christian Relief (GCR). Moçambique fica atrás apenas da Nigéria e da República Democrática do Congo.
Ainda esta segunda-feira, o EI reivindicou dois novos ataques na província moçambicana de Cabo Delgado, levados a cabo nos últimos dias, e que culminaram com o assassínio de três cristãos, segundo avançou a agência Lusa. Há cerca de uma semana, a Lusa dava também conta da decapitação de um cristão.
Desde Outubro de 2017 que Cabo Delgado, situado a norte de Moçambique, tem sido palco de uma rebelião terrorista encabeçada por elementos do Estado Islâmico, que já fez mais de 5 mil mortos e mais de um milhão de deslocados.
No entanto, ao longo do último mês, registou-se uma nova escalada de violência, na qual várias casas e igrejas foram incendiadas em diversas localidades daquela província moçambicana. O grupo extremista revindicou os ataques, que foram também confirmados por fontes locais da Igreja Católica, sendo que mais de 57 mil pessoas ficaram deslocadas desde o passado dia 20 de Julho, de acordo com dados da Organização Internacional para as Migrações (OIM).
Ataques intensificaram-se há vários meses
Neste ano, o norte de Moçambique já tinha enfrentado, em Maio, mais uma onda de brutais ataques especificamente dirigidos à comunidade cristã da região, por parte dos grupos extremistas islâmicos.
Com efeito, na altura, a organização internacional Ajuda à Igreja que Sofre (AIS), denunciou uma série de assassínios, decapitações, raptos e pilhagens, além de casas e igrejas incendiadas. “Os ataques mostram que muitos cristãos estão a sofrer – várias capelas foram queimadas, assim como as suas casas. Os projectos sociais já não funcionam e as pessoas estão em desespero”, dizia então o padre Kwiriwi Fonseca, da diocese de Pemba.
Afirmando que o terrorismo continuava a assolar a região, o padre sublinhava em Maio que todos os recém-deslocados – que, segundo as Nações Unidas, atingiram os cerca de 15 mil entre Março e Abril – disseram ter fugido “por causa de ataques directos às suas aldeias, envolvendo pilhagens, incêndios criminosos, raptos e assassinatos selectivos”. Mas fazia uma ressalva: os cristãos não eram os únicos a sofrer, os outros grupos religiosos também.
Em todo o caso, um relatório divulgado pela fundação AIS no final do ano passado – intitulado “Perseguidos e Esquecidos?” – confirmava que Moçambique estava entre os países em que a perseguição aos cristãos mais se vinha intensificando desde Junho de 2022. O relatório dava conta, entre outras coisas, de um aumento de ataques da Jihad Islâmica no país.
E o certo é que em 2024, o número de vítimas do Estado Islâmico no norte de Moçambique aumentou em 36% relativamente ao ano anterior: morreram 349 pessoas, segundo o Centro de Estudos Estratégicos de África (ACSS), do Departamento de Defesa do Governo norte-americano.
“Genocídio silencioso”
No continente africano, no período entre Novembro de 2022 e Novembro passado, foram mortos mais de 10 mil cristãos; a maior parte às mãos de extremistas islâmicos. E as vítimas continuam a somar-se, levando algumas associações a falar mesmo num “genocídio silencioso”.
No início do mês, o diplomata e vice-presidente da organização contra-terrorismo Middle East Media Research Institute (MEMRI), Alberto Miguel Fernandez, relatava à Fox News que os grupos extremistas em Moçambique se gabavam dos ataques em “aldeias cristãs”. Nas suas declarações, Fernandez invocava as dezenas de fotografias que divulgadas pelo próprio EI, que mostravam pilhagens e incêndios de casas e igrejas. Além disso, segundo o instituto, viam-se também cadáveres e corpos decapitados.
“O que vemos hoje em África é uma espécie de genocídio silencioso ou de guerra silenciosa, brutal e selvagem que está a ocorrer na sombra e é muitas vezes ignorada pela comunidade internacional,” afirmou Fernandez, que é também um antigo diplomata cubano-americano.
No seu entender, o facto de os grupos jihadistas estarem em posição de tomar vários países em África é perigoso: “Se é muito perigoso para a segurança nacional dos Estados Unidos, quanto mais para a segurança das pessoas pobres que estão lá – cristãos, muçulmanos ou quem quer que sejam”.
Fontes
Moçambique. Nova onda extremista está a atingir cristãos
ISIS targets Christians in brutal Africa attacks, beheadings reported | Fox News
