Gripe A: Manual de desinformação e alarmismo social

ByNuno Machado

24 de Dezembro, 2025
Taken with an old Helios 58mm

Ao contrário da perceção criada a partir de informações falsas e narrativas alarmistas de alguma comunicação social, a agora designada “Gripe A” não representa nenhuma novidade, nem risco acrescido. Pelo contrário, a gripe A é a gripe habitual, prevalente em nove dos últimos dez anos, e na grande maioria com exatamente o mesmo subtipo desta época (H3N2). Questionado sobre a situação atual, Tiago Marques, infecciologista do Hospital de Santa Maria, respondeu-nos que não “nota qualquer diferença”, apesar de já terem doentes com gripe.

Ao contrário do sugerido pela comunicação social (e percecionado pela população), a gripe A, não só não é uma excecionalidade, como é o tipo de gripe normal em Portugal.

Nas dez últimas épocas, a gripe A apenas não foi a mais prevalente em 2017/2018.

Na maioria dos anos, o tipo A é mesmo bastante mais frequente. Por exemplo, nas épocas de: 22/23 (95,8% dos casos), 18/19 (99,7%), 16/17 (99,6%) ou 15/16 (91,4%).

Também os subtipos da gripe A, o H1N1 e H3N2, são os normais no nosso país.

Gravidade das diferentes estripes de vírus

De uma forma geral, a estirpe A é considerada mais perigosa, mas isso não é linear. Por exemplo, em Portugal na época 2014/2015, em que a estirpe dominante foi a B, estimou-se uma mortalidade associada à gripe de 5.591 (a mais alta desde há muitos anos).

Alguns estudo têm sugerido que o subtipo H1 (tipo A) e o tipo B estão associados a doença mais severa do que o H3 (tipo A) em doentes hospitalizados, mas existem dúvidas sobre essa relação, nomeadamente devido à influência de outros fatores, como: a idade, a percentagem de hospitalizados de cada tipo/subtipo ou o estado vacinal.

Alarmismo social e desinformação

Mas, apesar da absoluta normalidade que esta variante apresenta, a mensagem que tem sido transmitida em muita comunicação social tem sido muitas vezes de alarmismo e de desinformação.

A título de exemplo, a recente intervenção televisiva do investigador Miguel Castanho, do Instituto de Medicina Molecular (IMM), na CNN. Nessa entrevista, foram passadas um conjunto de mensagens alarmantes como a de que esta variante tinha “potencial pandémico” e de que existia um risco de provocar uma “grande pandemia”.

Mas mais significativo foi a disseminação de informações falsas e enganosas à população, quer alegando-se que a gripe A não é a gripe normal e sazonal, quer que a gripe B é que é a gripe mais comum.

“… A gripe B que é aquilo que se poderia chamar a gripe normal, às vezes também lhe chamamos a gripe sazonal”- Miguel Castanho (IMM)

“Que é a mais comum nesta altura do ano…”- Jornalista

Fonte: Dos sintomas às recomendações: tudo o que precisa de saber sobre a nova estirpe da gripe – CNN Portugal

Fonte: Dos sintomas às recomendações: tudo o que precisa de saber sobre a nova estirpe da gripe – CNN Portugal

Contactos com o investigador Miguel Castanho

Questionámos Miguel Castanho sobre essas suas declarações à imprensa, especificamente sobre a alegação de que a gripe B (e não a A) seria a gripe “normal” e “sazonal”. Isto, à luz da enorme prevalência da gripe A e raridade da B.

Na sua resposta, Miguel Castanho focou-se no potencial pandémico e no perigo acrescido para a saúde público do tipo A.

Voltámos a questionar o investigador do IMM com perguntas específicas sobre o “potencial pandémico”, sobre a afirmação da jornalista (que o questionava na entrevista) de que a gripe B era “a mais comum nesta altura do ano e recolocámos as questões sobre a designação da gripe B como normal/sazonal.

Até ao momento não obtivemos resposta, mas atualizaremos o artigo logo que a tivermos.

Gripe A é a gripe sazonal

Como podemos verificar, as próprias autoridades de Saúde reconhecem que a gripe A e a gripe sazonal são a mesma doença.

Fonte: SNS24 | Gripe A

Gripe A do subtipo atual é o mais comum praticamente todos anos

Analisando os dados oficiais disponibilizados pelo INSA, podemos inclusive verificar que não só a gripe A é dominante quase todos os anos (nove dos últimos 10 anos), como o subtipo mais prevalente neste ano (o H3N2) também é de longe o mais comum (pelo menos sete dos últimos 10 anos).

Época GripalTipo de Influenza predominanteSubtipo
2015/16AA(H1N1)
2016/17AA(H3N2)
2017/18B
2018/19AA(H3N2)
2019/20AA(H3N2)
2020/21Baixa circulação (A)Dados residuais
2021/22AA(H3N2)
2022/23AA(H3N2)
2023/24AA(H1N1)
2024/25AA(H3N2)

Casos de gripe habituais no maior hospital nacional

Para termos uma melhor perceção se a realidade hospitalar correspondia ao estado de alarmismo mediático e até social, questionámos Tiago Marques, médico infeciologista do hospital Santa de Maria (o maior em Portugal).

Perguntamos-lhe se notava “uma situação muito diferentes dos últimos anos com a gripe deste ano”, tanto em termos de “afluência”, como de “gravidade”.

A resposta foi que “não”, e de que “já temos doentes com gripe, mas não noto diferença.”

Fontes:

Relatório: Programa Nacional de Vigilância da Gripe – Época 2015/2016 – INSA

Programa Nacional de Vigilância da Gripe – Relatório da época 2016/2017 – INSA

Programa Nacional de Vigilância da Gripe – Relatório da época 2017/2018 – INSA

Programa Nacional de Vigilância da Gripe – Relatório da época 2018/2019 – INSA

RCAAP – Programa Nacional de Vigilância da Gripe: relatório da época 2019/2020

Boletim de Vigilância Epidemiológica da Gripe e outros Vírus Respiratórios Época 2021/2022

Programa Nacional de Vigilância da Gripe: relatório da época 2022/2023

Programa Nacional de Vigilância da Gripe: relatório da época 2023/2024

Programa Nacional de Vigilância da Gripe – Relatório da época 2024/2025 – INSA

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