“Jornalismo institucional” considerado pouco imparcial e cada vez menos relevante

A última edição do Reuters Digital News Report, que analisa o consumo de notícias em 48 países, revela um cenário de declínio dos média institucionais com a influência crescente de podcasts, criadores de conteúdos e plataformas de vídeo como o YouTube e o TikTok. Há poucas pessoas dispostas a pagar por notícias e uma boa parte dos inquiridos aponta a ‘culpa’ aos próprios média, considerando que os jornalistas deviam ser mais isentos, limitar-se aos factos em vez de ‘empurrarem’ as suas próprias agendas e dedicar mais tempo a investigar os poderosos. Os participantes gostavam ainda que os meios de comunicação social fossem mais transparentes quanto ao seu financiamento e aos seus conflitos de interesse.

É uma percepção generalizada, mas que o Reuters Digital News Report deste ano veio confirmar: desafiado pela influência cada vez maior de meios alternativos de informação como os podcasts, as redes sociais e os influenciadores digitais, o “jornalismo institucional” enfrenta – nos quase 50 países analisados – dificuldades acrescidas para se manter relevante junto do público.

Mesmo na disputa pelo público no ‘online’ – fora dos meios mais convencionais, como a televisão, a rádio ou a imprensa escrita –, os média tradicionais parecem ser cada vez mais preteridos para os criadores de conteúdos, com estes últimos a ocupar um espaço considerável em todas as redes à excepção do Facebook.

Esta desvantagem revela-se, aliás, na comparação entre a proporção reduzida de pessoas que pagam por subscrições digitais de notícias e aquelas que estariam dispostas a pagar por podcasts, que são mais do que o dobro em percentagem.

Fonte: https://reutersinstitute.politics.ox.ac.uk/digital-news-report/2025/dnr-executive-summary

Com efeito, num conjunto de 20 países, apenas 18% dos inquiridos disseram ter pago por uma assinatura digital no último ano, com a Noruega e a Suécia a destacarem-se no topo da lista (42% e 31%, respectivamente). Já em Portugal, a percentagem é de apenas 10%. Mas foi na Sérvia (7%), na Grécia (7%) e na Croácia (6%) onde menos se pagou por notícias.

No entanto, 42% das pessoas que consomem podcasts regularmente estariam dispostas a pagar um valor razoável para aceder a podcasts de cariz noticioso.

Esta tendência, em que os órgãos de comunicação social tradicionais têm vindo a perder relevância e confiança dos leitores, com assinaturas digitais estagnadas, é mais pronunciada nos Estados Unidos – onde estas transformações são mais evidentes e estão a desenrolar-se a um ritmo mais acelerado do que nos outros países –, mas também está a acontecer em vários países da Ásia, da América Latina e da Europa.

Na amostra global, cerca de um em cada três inquiridos recorre semanalmente ao Facebook (36%) e ao Youtube (30%) para aceder a notícias. Já o Instagram e o WhatsApp estão ‘empatados’ neste indicador com 19%, seguindo-se o TikTok com 16% e o X (antigo Twitter) com 12%.

Porém, o TikTok é a rede social e de vídeos com o crescimento mais acelerado, aumentando a sua relevância enquanto fonte de notícias em quatro pontos percentuais. De facto, a procura de notícias através de conteúdos em formato de vídeo continua a crescer, e em países asiáticos como as Filipinas, a Tailândia e a Índia, já são mais as pessoas que preferem informar-se desta forma do que pela imprensa escrita.

No entanto, estas mudanças são largamente impulsionadas pelos mais novos, com 44% dos jovens dos 18 aos 24 anos a preferirem o consumo de notícias por via das redes sociais e das plataformas de vídeo. Entre os 25 e os 34 anos, a proporção é um pouco menor, mas ainda se mantém elevada, nos 38%.

Além de serem populares entre o público juvenil, a audiência dos podcasts também é tendencialmente aquela que tem mais formação académica e rendimentos mais elevados.

“Agora, os desafios para o jornalismo institucional estão a intensificar-se na forma de um ecossistema de média alternativos habilitado para plataformas, incluindo podcasters e YouTubers, que se está a revelar atrativo tanto para o público – como para os políticos, muitos dos quais já não sentem que precisam de se submeter ao escrutínio jornalístico. O crescimento de redes baseadas em vídeo como o YouTube e o TikTok, destacado novamente no relatório deste ano, está a fomentar a tendência para comentários feitos por personalidades, muitos dos quais são partidários, e que muitos receiam estar a espremer os factos e a tornar mais difícil separar a verdade da mentira”, diz o relatório.

Estados Unidos lideram transformações no consumo de notícias

Embora os sinais de uma mudança estrutural no paradigma mediático sejam visíveis nos 48 mercados analisados, o processo desenrola-se a diferentes velocidades consoante a área geográfica. E os Estados Unidos estão, indiscutivelmente, no pelotão da frente, com uma das maiores taxas de inquiridos (15%) a dizer que, na última semana, acedeu a um ou mais podcasts, que são maioritariamente distribuídos por plataformas como o Youtube e o TikTok.

O podcast de Joe Rogan, o mais famoso no país, foi visto por um em cada cinco pessoas na semana em que Donald Trump tomou posse.

Em contrapartida, em países do norte da Europa as grandes empresas de média e os canais estatais ainda dominam o mercado dos podcasts.

O que o público quer dos média?

Tendo sofrido uma queda significativa na última década, os níveis de confiança nas notícias parecem ter estabilizado numa média de 40%. Há, no entanto, disparidades geográficas: na Finlândia, 67% dos inquiridos confiam nas notícias, contrastando com o Reino Unido, onde a confiança é de 35%, ou com a Hungria e a Grécia, onde é de apenas 22%.

O Reino Unido e a Alemanha figuram mesmo entre os países europeus com a maior descida nos níveis de confiança nas notícias desde 2015 (caíndo 16 e 15 pontos, respectivamente).

Fonte: https://reutersinstitute.politics.ox.ac.uk/digital-news-report/2025/dnr-executive-summary

E, surpreendentemente, para uma parte significative dos inquiridos (32%), os jornalistas não são confiáveis e fazem parte do problema.

Mas, então, o que poderiam os media fazer para recuperar a confiança do público, segundo os participantes do estudo? Em poucas palavras: serem mais imparciais, rigorosos, transparentes e não faltarem à verdade – estas respostas foram transversais aos vários países e estão em linha com a investigação feita no passado, menciona o relatório.

A queixa mais referida foi mesmo a falta de imparcialidade, com muitos a considerar que os órgãos de comunicação social tentam ‘empurrar’ as suas próprias agendas em vez de se limitarem a apresentar os factos “de uma forma equilibrada”, usando frequentemente uma linguagem “carregada” ou “sensacionalista”.

Além disso, os jornalistas deviam ocupar-se mais a investigar os poderosos e a aprofundar os assuntos do que a ir atrás de “cliques”, referem os inquiridos.

Quanto à transparência, os inquiridos gostariam que os média apresentassem mais provas para sustentar as suas alegações e que divulgassem as suas fontes, além de revelarem a origem do seu financiamento e os seus conflitos de interesse. A rectificação de informações erradas e uma distinção clara ente notícias e opinião também foram outros ‘conselhos’ apontados.

O estranho caso do X?

No início do ano, o X foi alvo de uma tentativa de ‘boicote’, mas o seu uso para aceder a notícias permanece estável na maioria dos países, registando-se um aumento nos Estados Unidos (mais 8 p.p), na Austrália (mais 6 p.p) e na Polónia (mais 6 p.p).

O relatório diz mesmo ser “impressionante” que, nos 12 países analisados, o alcance das notícias publicadas no X não tenha sido ‘beliscado’ pelo êxodo anunciado por muitos “liberais e jornalistas” que migraram para redes concorrentes como a Threads, a Mastodon ou a Bluesky em protesto contra Elon Musk por causa do seu apoio declarado a Donald Trump. Estas três redes, aliás, assumem ainda pouca relevância como fonte de notícias, com um alcance de apenas 2%; constatando-se assim que este ‘protesto’ foi ineficaz.

Aquilo que se verificou foi que o número de utilizadores do X que se identificam com a direita triplicou após a compra da rede por Musk – marcando uma mudança assinalável face ao período anterior a 2022, em que os progressistas de esquerda tinham uma representação superior.

Fontes

Overview and key findings of the 2025 Digital News Report | Reuters Institute for the Study of Journalism

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Portugueses confiam cada vez menos nas notícias – The Blind Spot

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