Numa altura em que o combate aos incêndios tem concentrado grande parte da nossa atenção, e numa ‘época’ em que se apregoa uma igualdade matemática e absoluta entre homens e mulheres, é curioso verificar que grande parte dos bombeiros ainda são do sexo masculino. Os dados mais recentes de que dispomos permitem-nos constatar isso mesmo: no total nacional de cerca de 31.914 bombeiros, as mulheres são só 7.477; não chegam sequer a um quarto, portanto, representando apenas 23,4%. O número de mulheres bombeiras, aliás, não tem crescido de forma expressiva nos últimos anos – no fim da década de 2000, eram 5.601.
O caso dos bombeiros está longe de ser único – há vários outros sectores em que os homens estão sobrerepresentados. A construção civil, a engenharia e a electricidade são apenas alguns exemplos. Em contrapartida, há diversas profissões em que as mulheres já são a esmagadora maioria. Mas o sofisma da desigualdade sistémica, que subsiste, insiste em retratar as mulheres como vítimas de uma abrangente conspiração masculina, que não lhes permite alcançar lugares de chefia, e assim ombrearem com os homens. Segundo esse sofisma, qualquer assimetria entre homens e mulheres é explicada pelos famosos “estereótipos” e construções artificiais.
Ainda na semana passada, a propósito dos novos ingressos no ensino superior, um dito jornal de referência referia que apesar de mais de metade dos inscritos nas universidades entre 2023 e 2024 serem mulheres, “há áreas em que as mulheres ainda são a minoria”. Lá está ele: o patriarcado opressor, essa causa de todos os males! Este tipo de reparos, que de resto são repetidos frequentemente, intentam provar a persistência de uma desigualdade orquestrada, mas têm implícitas uma desonestidade e hipocrisia gritantes. E, aqui, a questão dos bombeiros é elucidativa.
Senão, vejamos. Se pretendessem realmente uma igualdade de 50-50 (de precisão milimétrica) em todas as áreas profissionais, com o fito de enfim derrotarem o sistema “patriarcal” vigente, não deveriam faltar apelos e convocações para que mais mulheres enchessem as fileiras dos corpos de bombeiros. Na verdade, aplicando-se a mesma lógica feminista, os homens que, ano após ano, põem a sua vida em cheque no combate às chamas – sem qualquer remuneração, ou com um salário ‘magro’ – poder-se-iam dizer vítimas de uma sociedade matriarcal injusta. Afinal, enquanto eles dão o corpo às balas (ou aos fogos), a proporção de mulheres que apresentam semelhante bravura e espírito de sacrifício ronda “apenas” os 23%.
Porém, já quase chegados a Setembro, e no final de mais uma devastadora época de incêndios, não se encontram na imprensa artigos defendendo a “urgência” de se duplicar as mulheres bombeiras. Nem coros de indignação ou queixume por ainda não se ter atingido essa meta. Aquilo que se encontra, como cogumelos, são lamentos e críticas sobre as mulheres ainda serem minoria na política, no Parlamento, nos conselhos de administração das empresas, na tecnologia. Duplo critério?
Já nas queixas mais do que legítimas dos nossos bombeiros, não vemos resquícios de vitimização com base no ‘género’. Não vemos homens, sapadores ou voluntários, reclamarem sobre a injustiça que é terem de ir apagar fogos e salvar vidas, muitas vezes a troco de nada. E ainda bem. Mas, paradoxalmente, não nos faltam sermões sobre o sofrimento feminino por causa do peso das “tarefas domésticas”.
Felizmente para todos nós, há milhares de homens altruístas e corajosos que se dispõem a enfrentar as labaredas, e dessa forma impedir que uma tragédia aconteça – ou, pelo menos, contribuir para que os seus efeitos sejam menorizados. Seria bom que, do lado das mulheres, ou de quem se arroga falar em seu nome (incluindo homens), houvesse também menos vitimismo e mais honestidade. E, já agora, mais gratidão.
