Ou a Europa acaba com a neutralidade carbónica, ou a neutralidade carbónica acaba com a Europa

ByMaria Afonso Peixoto

24 de Novembro, 2025
A cimeira terminou este sábado, dia 22.

O desfecho da COP30, este fim-de-semana, foi bastante revelador da encruzilhada em que a Europa se encontra. No final desta 30.ª Conferência do Clima das Nações Unidas, que aconteceu no Brasil, a União Europeia (UE) saiu derrotada e humilhada – como, aliás, já se tem tornado hábito no panorama internacional. Não satisfeita com a perda de influência e de poder político e económico, a UE faz, aparentemente, questão de passar também por ‘bobo da corte’ no teatro mundial, no papel de representante de 450 milhões de cidadãos europeus.

Com a China, a Rússia, a Índia e os países árabes como a Arábia Saudita apostados em contrariar a inclusão de um roteiro para o fim da dependência dos combustíveis fósseis no acordo final, a UE teve de ceder às suas condições e ‘contorcer-se’ para que se pudesse chegar a um consenso.

Contrariada, teve também de aceitar triplicar o financiamento para uma “adaptação climática” justa entre 2030 e 2035, sem que tenha sido explicado, em concreto, de onde virá esse dinheiro. Certo é que, da parte da Europa, a canalização de verbas para tentar estancar as “alterações climáticas” continua em modo hemorrágico.

Com a ausência dos Estados Unidos, os BRICS – exceptuando o Brasil, que tentou trazer a questão dos combustíveis fósseis e da desflorestação para a mesa das negociações – quiseram mostrar ‘quem manda’ nesta suposta Nova Ordem Mundial.

A ‘farpa’ que terá sido lançada por um delegado saudita numa reunião à porta fechada foi ilustrativa disso: “nós decidimos a nossa política energética na nossa capital, não na vossa”. Um vislumbre de soberania, esse conceito hoje tão elusivo para os europeus, que a entregaram, sem ter consciência, às mãos de meia dúzia de burocratas e CEO’s.

Citadas pela BBC, as palavras de Li Shuo, director do China Climate Hub, foram no mesmo sentido:  “No geral, estamos a assistir a uma União Europeia que foi encurralada. Isto reflecte em parte a mudança de poder no mundo real, o poder emergente dos países BASIC e BRICs, e o declínio da União Europeia”.

É que, ao contrário de outros países (como a China, a Rússia ou a Arábia Saudita), que mal ou bem procuram assegurar os seus próprios interesses, a UE já há muito que entrou numa espiral suicida, para onde arrasta à força os europeus, que estão naturalmente demasiado (pre)ocupados a tentar sobreviver de salário a salário para se aperceberem dos planos que os tecnocratas de Bruxelas têm para si.

Assim, o dinheiro dos impostos que os burocratas europeus sugam às populações (e que é fruto do seu suor e do seu esforço) serve para financiar a sua própria ruína e o empobrecimento que vai aumentando, sendo ‘queimado’ de variadíssimas formas; mas sempre em nome de causas pomposas e agradáveis ao ouvido – como a “neutralidade carbónica” ou a “transição climática”. Afinal, é preciso salvar o mundo das alterações climáticas. Mesmo que isso implique arrasar com a agricultura, as indústrias e a qualidade de vida na Europa, no meio de uma inflacção que já mal permite encher um saco de supermercado com uma nota de 50 euros.

De facto, enquanto os europeus perdem poder de compra de ano para ano e economias e indústrias outrora pujantes parecem estar a definhar – como a indústria automóvel alemã –,  a UE está entretida a brincar ao “fim ao fóssil”, custe o que custar. E, tal como esta COP30 mostrou à saciedade, está a brincar sozinha, de forma muito autista e alienada da realidade. Ou, se não está completamente isolada, faz-se acompanhar apenas por outros ‘players’ irrelevantes.

Com efeito, multiplicam-se as notícias que dão conta de uma situação económica preocupante na Alemanha, e enquanto figuras políticas como Ursula von der Leyen, e até os próprios media, nos vão garantindo que a culpa é das tarifas, da guerra da Ucrânia ou do Trump, há quem aponte para as verdades dolorosas: o sector automóvel alemão está a afundar-se com as políticas climáticas seguidas pela Europa.

Neste delírio autodestrutivo, note-se que só a intenção da UE de acabar com os veículos a combustão até 2035 poderá custar centenas de milhares de postos de trabalho(!). Um filme de terror, que se vem juntar a uma situação já de si aflitiva: em apenas um ano, mais de 50 mil empregos foram perdidos na indústria automóvel alemã.

No fundo, estamos todos a caminhar para o precipício, mas em vez de tentarmos inverter a marcha o quanto antes, vamos acelerando o passo rumo ao desastre total, como se já não seguíssemos a um ritmo alucinante.

Perante estes factos, podemos olhar para as decisões dos burocratas europeus de duas maneiras: ou acreditamos que são de uma incompetência extrema, quase que padecendo de um défice cognitivo que não os permite sentir a corda a apertar o pescoço, ou temos obrigatoriamente de concluir que estão ao serviço de interesses alheios aos da União. Seja qual for a hipótese mais verdadeira, nenhuma nos pode deixar descansados.

Ver também:

Contribuintes europeus financiam com 3 mil milhões polémico projeto para ‘captura de CO2’ – The Blind Spot

Ex-colaborador do IPCC: O fanatismo climático mina a ciência e a democracia – The Blind Spot

Arquivo de Clima – The Blind Spot

error: Content is protected !!