Num dos episódios da série de animação “Sex Symbols”, que a RTP2 tem estado a transmitir, afirma-se taxativamente que “as meninas podem ter pilinha”, além de se promover a “transição de género” e a utilização de bloqueadores hormonais em menores. O programa desencadeou rapidamente uma onda de críticas nas redes sociais, com apelos a queixas junto da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) e à Provedora do Telespectador da RTP, Ana Sousa Dias. Porém, face à contestação, a Provedora defende que a série não é “ideológica” e que “informa e é inclusiva”.
A RTP2 tem estado a transmitir a série de animação “Sex Symbols”, um programa “sobre as mudanças físicas e a sexualidade na pré-adolescência”, que pretende educar os pré-adolescentes para a sexualidade e emoções “através de animação e entretenimento”, segundo a descrição que consta no site. No entanto, na última semana a série provocou controvérsia nas redes sociais devido a um episódio dedicado aos temas transgénero.
No episódio em causa, o espectador ‘conhece’ Lúcia, uma rapariga transgénero, que procura explicar aos seus colegas, durante o recreio, o que significa ser uma pessoa trans.
“Tu nasces com um sexo biológico que pode ser masculino ou feminino – pessoas fecundantes e pessoas gestantes, respectivamente. Se as pessoas se identificam com o sexo biológico que têm, são cisgénero. Mas há pessoas que não se identificam com o seu sexo biológico – essa sou eu –, as raparigas trans não se identificam com o seu pénis, e os rapazes trans [não se identificam] com a sua vagina. É isto. Simples, não é?”.
Num outro momento, Lúcia olha-se ao espelho sem roupa e questiona-se: “Porque é que eu sou um menino se me sinto uma menina?”.
Em seguida, a “rapariga trans” diz que conversou com os seus pais sobre o assunto, tendo-lhes perguntando se as “meninas podem ter pilinha” – ao que os pais responderam “claro, filha”.
O episódio prossegue com uma explicação (supostamente) científica para o “fenómeno”, alegando-se que “aparentemente, tudo começa com a fecundação”, e que se acredita que as pessoas trans têm alterações numa zona do cérebro chamada “estria terminal”, com níveis de andrógenos variáveis, que podem ser mais baixos ou elevados.
A certa altura, quando um colega afirma “Já percebi! És um rapaz por dentro mas uma rapariga por fora!”, a jovem responde taxativamente: “Não! Sou uma rapariga trans. Mas se me perguntares se tenho um pénis: sim, tenho”.
Ao mesmo colega, a personagem trans explica também como procedeu para evitar o desenvolvimento natural do seu corpo na puberdade e impedir o crescimento de pêlos que é característico dos rapazes. “Tomo hormonas que impedem que me cresçam os pêlos e que a voz fique grave, como acontece com vocês.” E acrescenta ainda que deixou crescer o cabelo, mudou a forma de se vestir e que poderá, mais tarde, recorrer a intervenções cirúrgicas. “Quando for adulta logo decido se faço uma cirurgia para ter peito e vulva”.
Espectadores condenam RTP e apelam a queixas à Provedora
O episódio foi repudiado por inúmeros utilizadores, que acusaram a RTP de promover temas sensíveis como a “transição de género” em crianças e pré-adolescentes. E, paralelamente, têm-se multiplicado os apelos aos pais para que façam queixa à Provedora do Telespectador e à Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC).
Com efeito, nas redes sociais – desde o Instagram ao LinkedIn – várias contas consideraram “grave” que o canal público de televisão tivesse transmitido estes conteúdos sobre o género, dirigidos a um público alvo infanto-juvenil e sem controlo parental. Os críticos frisaram ainda que “[isto é] pago com os nossos impostos”. Algumas publicações somaram mesmo milhares de visualizações e reacções.
O The Blind Spot contactou a Provedora, Ana Sousa Dias, para tentar apurar quantas participações já foram enviadas, mas obteve apenas uma resposta mais genérica sobre o assunto – a mesma que foi dada a várias pessoas –, que não nos esclareceu sobre o número de queixas remetidas até ao momento.
Provedora rejeita carácter ideológico da série
Em todo o caso, a RTP rejeitou as acusações sobre o carácter ideológico da série e reiterou a pertinência dos conteúdos transmitidos, salientando que não se destina a crianças e que é uma série informativa.
“Consensualmente não a consideramos como ideológica, não tratando os temas de forma posicional ou opinativa”, esclareceu a Provedora do canal público. E justificou:
“[A série] Informa e é inclusiva (mencionando inclusivamente opções), sendo o seu único propósito a integração. A Série aborda, aliás, diversos temas como o CiberBullying, a Gravidez, a Contraceção, os Falsos Mitos, a Sexualidade, a Timidez, as Relações Tóxicas, o Consentimento, Gestão Emocional, entre outros. Neste sentido, cumpre as obrigações formais e legais com que o Serviço Público de Media está comprometido.”
Afirmando que a série “Sex Symbols é destinada a pré-adolescentes e adolescentes”, a Provedora frisou que o horário em que é transmitida não se enquadra na programação infantil, “não estando integrada nem próxima do espaço Zig-Zag destinado aos mais novos”.
E explicou que se trata de “uma produção originalmente espanhola com o apoio da Bélgica, exibida em ambos os países”, e que “teve o apoio do projeto EdSex: Educando en Sexualidad (Espanha), um projeto financiado pela União Europeia.”
Além disso, o e-mail da Provedora do Telespectador sustenta a importância deste tipo de programas com as lacunas de informação dos jovens no que toca à sexualidade. “O estudo da Save the Children que serviu de premissa à criação da série Sex Symbols diagnostica ‘a preocupante falta de informação junto dos jovens adolescentes que revelam enorme confusão sobre estas matérias, com consequências claras no comportamento em comunidade e na saúde mental’”.
Ver também:
Mega-estudo desaconselha terapia hormonal em jovens com distúrbios de género – The Blind Spot
Governo britânico proíbe escolas de ensinar a teoria de “identidade de género” – The Blind Spot
União Europeia financiou “agenda de género” com 221 milhões de euros na última década – The Blind SpotBruxelas defende mudança de género sem idade mínima e mais policiamento do discurso online – The Blind Spot
