Rui Tavares alega que peso das contribuições sociais dos imigrantes é até quatro vezes superior ao real

ByMaria Afonso Peixoto

18 de Julho, 2025

Numa recente intervenção na SIC Notícias, Rui Tavares, porta-voz do Livre, proferiu diversas afirmações erradas. Nomeadamente, afirmou que as contribuições dos imigrantes para a Segurança Social representam hoje entre um terço a metade do valor total. Mas os dados mais recentes mostram que a proporção é, na verdade, de 12,4% mesmo com estas receitas a atingirem um novo máximo de 3,6 mil milhões de euros no ano passado. O Polígrafo, apesar de verificar as suas declarações com frequência (normalmente a seu favor, tendo sido até condenado pela ERC por um ‘fact-checking’ incorrecto), ainda não se pronunciou sobre estas alegações.

O porta-voz do Livre, Rui Tavares, alegou esta semana na SIC Notícias que as contribuições dos imigrantes para a Segurança Social perfazem actualmente entre 33% a 50% do total de receitas – mas essa informação é desmentida pelos dados oficiais.

“Entre um terço a talvez metade das contribuições para a Segurança Social são de imigrantes”, afirmou, sustentando-se no aumento de população empregada entre o “fim da época da Troika e da austeridade” em 2015 e 2025, que disse ter sido de 4 milhões para 5 milhões de pessoas, “mais 20% da força de trabalho”. E acrescentou ainda que o ‘superávit’ que Portugal conseguiu nos últimos anos se deveu “em boa parte” aos imigrantes, argumentando que uma quebra na imigração atiraria o país para uma crise semelhante à de 2011, obrigando-o a recorrer a ajuda externa.

Contudo, na verdade, os dados mais recentes, que se referem a 2024 e foram noticiados em Fevereiro passado, revelam que os descontos dos imigrantes representaram 12,4% das contribuições totais, com uma quantia que ronda os 3.600 milhões de euros. De facto, embora estes valores tenham vindo a aumentar significativamente nos últimos anos, estão, ainda assim, muito longe de atingir a proporção de 33% ou 50% sugerida por Rui Tavares.

Esta subida também tem reflectido o aumento sustentado de imigrantes em Portugal, que, segundo estatísticas do Governo, em Abril deste ano eram 1.546.521 e representavam já cerca de 15% da população residente.

Mas não foi só nas contribuições dos imigrantes que o porta-voz do Livre se ‘equivocou’. A alegação sobre um aumento de 20% de “pessoas a trabalhar em Portugal” na última década também não é correcta. De acordo com dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), no último trimestre de 2015 a população activa era de aproximadamente 5,2 milhões de pessoas, e a população empregada rondava os 4,5 milhões – sendo que a taxa de desemprego, de 12,2%, e com 633 mil pessoas desempregadas, era bastante mais elevada do que é hoje.

Ora, em Maio deste ano, segundo dados do INE, a população activa estimada era de 5,5 milhões – o que representa um aumento de 6,5% em comparação com 2015 – e contabilizavam-se cerca de 5,2 milhões de pessoas a trabalhar, mais 14% do que há 10 anos. Em nenhum dos casos, portanto, se registou um aumento de 1 milhão ou de 20% de trabalhadores. E, apesar de o número de pessoas a trabalhar ter atingido um recorde este ano, o desemprego também desceu drasticamente face a 2015, situando-se hoje nos 6,3%.

O Polígrafo e Rui Tavares

Estas afirmações de Rui Tavares – que comenta regularmente na SIC, parceira do Polígrafo – não foram corrigidas pelo jornalista Rodrigo Pratas em directo, e, até agora, também não foram alvo de uma verificação de factos pelo jornal de fact-checking. Os ‘veredictos’ do Polígrafo que visam o porta-voz e deputado do Livre, costumam ser-lhe, aliás, favoráveis, mesmo quando estão em causa informações erradas.

Com efeito, o jornal PÁGINA UM noticiou no mês passado uma deliberação da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), que acusa o Polígrafo de ter dado como “verdadeira” uma afirmação falsa de Rui Tavares sobre um alegado roubo de jóias durante o mandato do ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro.

Analisando as duas primeiras páginas de resultados sobre Rui Tavares no site do Polígrafo, mais de 80% das “avaliações” são-lhe favoráveis, confirmando as suas afirmações ou desmentindo alegações negativas a seu respeito, e apenas 5% (2) desmentiram algo que o deputado disse. Em 13% das situações, as suas declarações foram consideradas imprecisas (3), “verdadeiro, mas” ou descontextualizadas.

O The Blind Spot questionou Rui Tavares sobre a fonte em que baseou a sua afirmação acerca das contribuições dos imigrantes, mas não obteve resposta.

Actualização: O Poligrafo, entretanto, só no dia 23, uma semana após as declarações de Rui Tavares, analisou as suas alegações e confirmou que não corresponderam à verdade, classificando-as como “falsas”.

Ver também

Comentadora da SIC veicula falsa condenação a fuzilamento público na Rússia – The Blind Spot

Depois de condenação da ERC por ‘fake news’, canal NOW reincide em informações falsas – The Blind Spot

ERC: SIC-Notícias condenada por desmentir afirmações verdadeiras de Joana Amaral Dias – The Blind Spot

Queixa The Blind Spot à ERC: Canal NOW condenado por repetida desinformação – The Blind Spot

Comentador da SIC veicula várias informações erradas a propósito de queda bolsista nos Estados Unidos – The Blind Spot

Fact-checkers ‘ignoram’ “estudo-fantasma” desmentido pelos próprios investigadores – The Blind Spot

error: Content is protected !!