Sociedades que criticaram Pinto Coelho por “pseudociência” receberam mais de 11 milhões da indústria farmacêutica

ByMaria Afonso Peixoto

4 de Dezembro, 2025

As sociedades científicas de Cardiologia, Aterosclerose e Hipertensão, que anunciaram uma queixa formal na Ordem dos Médicos contra Manuel Pinto Coelho e o acusaram de disseminar “teorias pseudocientíficas” sobre o colesterol e as estatinas, receberam, desde 2020, mais de 11 milhões de euros da indústria farmacêutica. Sendo que uma parte significativa desse financiamento veio de empresas que comercializam estatinas, nomeadamente de grandes farmacêuticas como a Pfizer, a AstraZeneca ou a Merck.

As três sociedades científicas que anunciaram, no final de Novembro, que iriam apresentar uma queixa formal na Ordem dos Médicos contra Manuel Pinto Coelho na sequência das suas polémicas declarações sobre o colesterol e as estatinas já receberam 11.108.287 milhões de euros da indústria farmacêutica desde 2020.

A Sociedade Portuguesa de Cardiologia (SPC), a Sociedade Portuguesa de Hipertensão (SPH) e a Sociedade Portuguesa de Aterosclerose (SPA) tomaram a decisão por considerarem que estava em causa um “risco de Saúde Pública”, e acusaram Manuel Pinto Coelho de promover “teorias pseudocientíficas”.

“O perigo é real: a interrupção de estatinas, motivada por notícias pseudocientíficas, está estatisticamente associada a um aumento imediato de enfartes e AVC’s”, alertavam as três sociedades numa nota conjunta que terá sido enviada à agência Lusa.  E, tendo como referências a Organização Mundial da Saúde, a Sociedade Europeia de Cardiologia e a American Heart Association, diziam ainda que o colesterol LDL é uma causa directa de aterosclerose.

Tudo isto porque numa reportagem da TVI a propósito do seu novo livro “Colesterol – Mitos e Realidade”, Manuel Pinto Coelho defendeu a importância do colesterol, afirmando que não é o responsável pelos enfartes e AVC’s, mas sim a “inflamação” causada por uma alimentação rica em açúcar e glúten, e questionava também os estudos científicos que ‘validaram’ as estatinas (fármacos utilizados para baixar os níveis de colesterol).

Mais de 11 milhões das farmacêuticas nos últimos seis anos

Mas, de facto, de acordo com os dados disponíveis na Plataforma da Transparência do INFARMED, aquelas três sociedades médicas já somam mais de 11 milhões de euros das empresas farmacêuticas nos últimos seis anos. Deste valor, a ‘fatia de leão’ foi para a Sociedade Portuguesa de Cardiologia, que encaixou 8.796.727,19 euros.

Depois, a larga distância da SPC, mas ultrapassando, ainda assim, a marca de um milhão, está a Sociedade Portuguesa de Aterosclerose, que beneficiou de 1.253.613,4 euros, e a Sociedade Portuguesa de Hipertensão, que recebeu 1.057.947,01 euros.

Em Portugal, as estatinas podem ser vendidas na forma de seis substâncias diferentes: Atorvastatina, Sinvastatina, Rosuvastatina, Pitavastatina, Pravastatina ou a Fluvastatina.

E, no extenso rol de farmacêuticas que têm financiado as três sociedades médicas que criticam Pinto Coelho, são várias as que fabricam estes medicamentos para o colesterol – desde as marcas mais conhecidas àquelas que comercializam os genéricos.

No ‘campeonato’ das grandes, é de realçar a Pfizer, que vende o Lipitor (Atorvastatina); a AstraZeneca, com o fármaco Crestor (Rosuvastatina); a Merck & Co, que comercializa o Zocor (Sinvastatina); e a Servier, com o Atorduo (Atorvastatina).

No ano actual, por exemplo, a Pfizer, a AstraZeneca e a Merck & Co surgem entre aquelas que desembolsaram as quantias mais avultadas para a Sociedade Portuguesa de Cardiologia.

Valores relativos ao ano de 2025.
Fonte: INFARMED

Aliás, no último quinquénio a AstraZeneca tem sido mesmo umas das gigantes farmacêuticas que se destaca por ter feito algumas das contribuições mais ‘chorudas’ a esta sociedade médica.

Valores relativos ao ano de 2024. Fonte: INFARMED

Por seu turno, a Servier, cujo financiamento para a SPC é mais reduzido, tem assumido uma importância assinalável para os ‘cofres’ das sociedades de Aterosclerose e de Hipertensão. Com efeito, no caso desta última sociedade, a Servier é uma das principais financiadoras, sendo responsável não só pelos montantes mais frequentes como também pelos de maior valor.

Valores relativos ao ano de 2025. Fonte: INFARMED
Valores relativos ao ano de 2024. Fonte: INFARMED

As contribuições das farmacêuticas que vendem genéricos

Quanto às empresas farmacêuticas que comercializam os genéricos e que financiam as três sociedades científicas, o destaque vai para a Tecnimede – Sociedade Técnico-Medicinal (sediada em Sintra) e para a Jaba Recordati.

Com efeito, embora com quantias mais modestas, a Tecnimede – Sociedade Técnico-Medicinal aparece com frequência nas listas anuais da Sociedade Portuguesa de Cardiologia.

Além disso, a Tecnimede – Sociedade Técnico-Medicinal tem um peso considerável nas receitas das sociedades de Aterosclerose e de Hipertensão, registando-se, desde o ano passado, contribuições que ascendem aos 50.627 euros.

A Jaba Recordati, por outro lado, tem uma representação bastante mais reduzida no financiamento das sociedades, mas só este ano já despendeu 25 mil euros com a SPC por um webinar.

O The Blind Spot questionou as três sociedades médicas sobre se os valores que auferiram através das empresas farmacêuticas não poderiam configurar um conflito de interesses e condicionar a sua independência sobre o uso das estatinas. Contudo, até ao momento, nenhuma respondeu.

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