Nos últimos dias de Julho, algumas localidades em Angola estiveram ‘a ferro e fogo’, depois de uma paralisação dos taxistas que serviu para protestar contra o aumento do preço dos combustíveis. O Governo angolano lançou as culpas às redes sociais, mas dois cidadãos ouvidos pelo The Blind Spot garantem que a informação mais independente e fidedigna não se encontra nos media tradicionais, controlados pelo Governo. Encontra-se, sim, na internet, onde os angolanos podem saber dos “assassinatos e outras crueldades praticadas pelas forças de defesa e segurança”. E, com uma nova manifestação já marcada, muitos acreditam que a população atingiu um limite e que a revolta já não terá retorno.
De acordo com os números oficiais, os tumultos que varreram Angola no final de Julho provocaram, em poucos dias, 30 mortos, 277 feridos, e acabaram com mais de 1.500 pessoas detidas. No entanto, ao The Blind Spot, o luandense Guilherme Muachambi (nome fictício), de 31 anos, diz-se convicto de que o número real de mortos durante os desacatos seja superior ao que foi reportado pela polícia angolana – e possa ser mais de meia centena. A sua convicção deve-se ao facto de, segundo afirma, as forças de segurança terem começado a “atirar indiscriminadamente contra a população, incluindo contra mulheres e crianças”. Além disso, inicialmente, “muitas pessoas pensaram que [os disparos da polícia] eram balas de borracha”.
Aquilo que começou como uma greve contra o aumento do preço dos combustíveis, iniciada pela Associação Nacional dos Taxistas de Angola (ANATA), rapidamente desencadeou actos de vandalismo e violência em várias províncias angolanas, por um povo que está “a atingir um nível extremo de saturação e quer chamar a atenção do Governo”. Mas o Governo parece pouco disposto a ouvir, e “não falou sobre as dificuldades do país”, nem “fez nada sobre a pobreza extrema que está a levar as pessoas às manifestações”. Em vez disso, diz Muachambi, “culpou as pessoas que têm contas no TikTok”.
Ataque às redes sociais
Quando, no dia 1 de Agosto, ao fim de vários dias de tumultos, o presidente João Lourenço finalmente falou aos angolanos, foi para atribuir as culpas pelos tumultos aos “cidadãos irresponsáveis manipulados por organizações antipatriotas nacionais e estrangeiras através das redes sociais”.
A ‘guerra’ do Executivo angolano às redes sociais e a quem dissemina “desinformação” tem-se intensificado nos últimos meses, culminando com a apresentação de uma proposta de lei, em Abril, que pretende punir aqueles que divulgam “fake news” com até 10 anos de prisão. Na altura, o Governo justificou a medida com um “acentuado e elevado número de notícias falsas no atual contexto nacional e internacional, associado ao elevado crescimento tecnológico”. No entanto, a legislação foi logo vista por uma parte da sociedade civil, incluindo alguns activistas, como uma tentativa de cercear a liberdade de expressão e controlar aquilo que é dito no país.
Após o início dos tumultos, no dia 28 de Julho, as autoridades alertaram a população para que tivessem um “cuidado redobrado” com os conteúdos que circulam nas redes sociais. Isto porque, segundo o porta-voz da Polícia Nacional, essas informações visavam disseminar medo, insegurança e instabilidade.
“Ao governo de Angola é muito mais fácil responsabilizar as redes sociais pelos tumultos havidos do que assumir a sua própria culpa”, diz ao The Blind Spot o jornalista ‘veterano’ Graça Campos (65 anos), que fundou e dirigiu o jornal digital Correio Angolense e que reside em Portugal desde 2022.
“A comunicação social pública não informa absolutamente nada”
Sucede, porém, que para muitos angolanos, são os meios de comunicação social tradicionais que desinformam mais do que informam, e é mesmo nas redes sociais que conseguem encontrar os conteúdos mais fidedignos.
Guilherme Muachambi, que recorre ao TikTok para dar a conhecer ao mundo aquilo que tem acontecido em Angola, garante que o povo “não depende dos media convencionais para nada”, porque há muita coisa que eles não passam., A opinião de Graça Campos vai no mesmo sentido: “a comunicação social pública não informa absolutamente nada sobre os tumultos que sacudiram Luanda nos últimos dias. Nos dias 28, 29 e 30 limitou-se a comunicações muito inócuas do porta-voz da Polícia.”
Campos tem um longo historial de ‘dissidência’ no seu percurso jornalístico, tendo respondido por mais de 30 processos relacionados com a sua actividade profissional, mas acabou por ser sempre absolvido. Chegou mesmo a ser condenado a uma pena de oito meses de prisão efectiva por “crime de imprensa” – mas o Tribunal Supremo acabaria por anular o julgamento, e, portanto, a pena, devido a “graves e insanáveis erros processuais”.
Tal como Muachambi, o jornalista – que actualmente é editor do “Conversas Essenciais”, “o mais ouvido programa de debate político ao sábado” – diz ser graças às redes sociais que é possível encontrar informação verdadeiramente independente.
“A informação mais próxima da realidade é divulgada pelas redes sociais. Numa cidade de mais de 12 milhões de habitantes, elas não cobrem cada ruela da urbe, mas, ainda assim, têm dado um relato muito próximo da realidade. É por via delas que a sociedade toma ciência dos assassinatos e outras crueldades praticadas pelas forças de defesa e segurança”, afiança.
“Cidadãos foram mortos pelas costas”
Essas “crueldades” de que fala Graça Campos são visíveis em vídeos amplamente disponíveis na internet, com imagens chocantes que mostram populares ensanguentados caídos no chão. Segundo o jornalista, a forma arbitrária como terão sido mortos foi mesmo admitida pelas autoridades.
“Em declarações que prestou a uma estação de televisão pública, o próprio Comandante-Geral da Polícia assumiu que cidadãos foram mortos pelas costas. O elevado número de mortes registadas, 31, segundo a própria Polícia, não decorreram de quaisquer confrontos. A Polícia fuzilou-as pura e simplesmente porque entendeu que era a forma mais célere de calar a revolta popular”, afirma.
Falhas na internet durante os protestos
A ameaça que as autoridades angolanas vêem nas redes sociais é, aliás, a razão de ambos acreditarem que o ‘apagão’ ocorrido há cerca de três semanas em Luanda, que durante uma tarde inteira ficou sem internet, foi intencional. A operadora alegou uma “avaria técnica”, mas os dois crêem que se tratou, na verdade, de uma maneira de cortar o acesso dos cidadãos do acesso às redes e às telecomunicações naquele ‘pico’ de caos e revolta. “Não há como provar que a interrupção foi deliberada”, aponta Graça Campos. Mas Muachambi alega que os problemas técnicos se prolongaram por mais tempo, com a rede ainda intermitente e com falhas ao longo de vários dias.
Depois de os ânimos terem começado a acalmar, também por força da repressão policial, “começou a caça às bruxas”, diz-nos Muachambi. Desde logo, o vice-presidente da ANATA, Rodrigo Cativa, que convocou a manifestação, foi detido e durante vários dias esteve em parte incerta. “Está a ser acusado de terrorismo e antipatriotismo, mas ele apenas declarou a manifestação, não teve nada a ver com o vandalismo”.
Outros activistas envolvidos nos protestos foram também detidos e ainda estarão sob custódia policial, após terem estado desaparecidos durante dias – é o caso do “General Nila”, que ficou com ferimentos causados pelos tiros e cujo desaparecimento e privação de cuidados médicos foram denunciados pela Amnistia Internacional, e de Osvaldo Caholo, que se diz um preso político e entrou entretanto em greve de fome. “Estão a tentar controlar o povo por intermédio do medo”, afirma Muachambi.
Segundo a Ordem dos Advogados de Angola, mais de 500 advogados já foram mobilizados para defender as largas centenas de cidadãos que foram encarcerados na sequência dos tumultos.
“Nada mais será como dantes”
Depois de mais de uma centena de estabelecimentos e veículos terem sido destruídos, tudo parece estar mais calmo no país e a normalidade já terá sido, pelo menos em grande parte, retomada. Mas Muachambi e Graça Campos acreditam que a população chegou a um limite e que já não haverá retorno. “É esse o sentimento generalizado entre os governantes e os governados. Nada mais será como dantes”, assevera Campos, invocando também as palavras do professor e deputado Paulo Carvalho, que considera ter sido atingido “o ponto de ruptura com o passado de submissão popular”.
De facto, já está marcada uma nova grande manifestação, que será levada adiante caso o vice-presidente da ANATA não seja libertado. A data de início é dia 11 de Agosto, mas espera-se que dure por mais de 10 dias. “Esperam-se dias de muita tensão”, antecipa o jornalista ouvido pelo The Blind Spot.
Campos frisa ainda que, esta semana, “diferentes organizações da sociedade civil, de entre as quais a Igreja Católica, responsabilizaram directamente o Governo pelas mortes, raptos e desaparecimento de cidadãos ocorridos durante os três dias”.
E parece já vaticinar até a queda do Executivo: “Regimes ditatoriais como angolano não resistem ao abuso de poder”.
