ERC: SIC (novamente) condenada por usar imagens de videojogo como se fossem reais

As imagens exibidas pela SIC foram retiradas de um vídeo disponível em vários endereços da internet, pelo menos, desde 2023. Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=s3jyGdp6id0

A SIC e a SIC Notícias foram, mais uma vez, condenadas pela Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) por violarem o dever de rigor informativo ao exibirem imagens falsas nos seus noticiários. O caso remonta a Abril do ano passado, quando os canais do grupo Impresa transmitiram um vídeo de uma “simulação digital” para ilustrar um ataque do Irão contra Israel. Em sua defesa, a SIC considerou que “não lhe era exigível confirmar” a veracidade das imagens, mas o regulador dos média instou o canal a garantir o rigor informativo e a “assegurar a idoneidade, a veracidade e a atualidade de imagens ou discursos”. Os grandes órgãos de comunicação social, como a SIC, a RTP, a CNN ou a NOW já haviam sido previamente condenados pela ERC por divulgarem imagens descontextualizadas ou enganadoras.

A Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) deliberou que a SIC e a SIC Notícias transmitiram, em Abril do ano passado, supostas imagens de um ataque do Irão contra Israel que eram, na verdade, retiradas de um videojogo. O regulador dos média recebeu uma queixa contra aqueles canais do grupo Impresa onde se dizia que, numa edição do Jornal da Noite, haviam sido exibidos “5 segundos de uma simulação digital” como se fossem imagens reais. Enquanto o vídeo passava, o jornalista descrevia: “foi uma noite de chuva em Israel. Chuva de 330 mísseis balísticos e drones suicidas lançados desde o Irão a quase dois mil quilómetros de distância”.

Embora não tenha conseguido identificar a sua origem, o participante frisou que “o vídeo circula[va] pelo menos desde 11 de Dezembro associado à guerra na Ucrânia” e, também, “ao sistema ‘Iron Dome’ israelita” – e conclui, portanto, que foi erradamente utilizado para ilustrar o ataque iraniano.

Considerando que este facto “deveria ter sido rapidamente verificado pelo [jornalista] Henrique Cymerman ou pela redacção da SIC”, o denunciante lamentou ainda que a SIC não tivesse corrigido o lapso, nem sequer na versão online, “como mandam as boas práticas e o próprio Estatuto dos Jornalistas”.

“A ausência dessa verificação resultou numa peça jornalística sem o imprescindível rigor informativo, um gato por lebre informativo frequente neste e noutros canais, como demonstrou mais uma vez a cobertura televisiva dessa madrugada”, lê-se na participação feita à ERC.

ERC condena SIC e SIC Notícias e lembra que os canais já foram advertidos no passado

E, de facto, numa deliberação divulgada no passado dia 21 de Maio, o regulador confirmou que, apesar de as informações veiculadas sobre o ataque serem verdadeiras, “as imagens dos primeiros cinco segundos da peça noticiosa não correspondem ao evento descrito, na medida em que é possível visioná-las em diversos endereços de internet com datas anteriores a 14 de abril de 2024”.

Mas, além de validar o teor da queixa, a ERC vai mais longe, sublinhando também que a fonte das imagens não foi identificada pelos canais televisivos, impedindo assim “a respetiva confirmação e validação, colocando em causa o rigor informativo”. Algo que, recorda, constitui uma violação das alíneas a) e f), n.º 1, artigo 14.º do Estatuto do Jornalista.

Deste modo, o regulador dos média instou “a SIC/SIC Notícias a garantir as exigências de rigor informativo, com especiais cuidados na cobertura noticiosa de guerra e conflitos armados, devendo assegurar a idoneidade, a veracidade e a atualidade de imagens ou discursos”.

Uma vez que esta não foi a primeira vez que a SIC e a SIC Notícias – a par com outros canais – incorreram em desinformação e exibiram imagens falsas, a ERC aproveitou ainda para reforçar as recomendações por si já feitas, a este respeito, numa directiva de 2022. Recorde-se que, com a guerra da Ucrânia sucederam-se casos destes na comunicação social ‘mainstream’.

“É essencial que, no ambiente atual em que prolifera a desinformação, os media noticiosos ditos tradicionais garantam uma informação rigorosa e pugnem por alcançar a máxima credibilidade junto do público”, avisou o regulador, lembrando que “os serviços de programas já anteriormente foram advertidos para a necessidade de acautelarem o rigor informativo na seleção e utilização de imagens”.

Canais do grupo Impresa refutam violação do rigor informativo

Notificada para se pronunciar sobre a queixa, a SIC rejeitou “qualquer tipo de violação do rigor informativo”, justificando que “todos os materiais imagéticos usados na crónica em questão ou pertencem a agências noticiosas internacionais, ou foram previamente difundidos pelo Canal 12, o qual, tal como a SIC, faz parte da Enex”.

Com efeito, argumentando que “nunca houve nenhum caso de divulgação de falsas imagens” por parte da Enex, com quem mantém uma relação de confiança, a SIC, “tendo tomado por boas as imagens”, considera que não lhe era “exigível” que confirmasse a sua veracidade. A European News Exchange, recorde-se, é uma agência de notícias internacional que fornece material jornalístico para grandes emissoras, além de prestar também serviços a governos e organizações não governamentais.

Por outro lado, uma vez que o próprio jornalista presenciou a “chuva de mísseis e de drones”, o canal afirmou que “ninguém pode duvidar daquilo que aconteceu na referida noite”, até porque “as imagens deste ataque foram transmitidas a nível global, por todas as agências noticiosas internacionais”.

Razão pela qual a SIC sustentou que a queixa “assenta num exageradíssimo extremar de cuidados e diligências que não eram nem podem ser exigíveis, no caso concreto, ao jornalista autor do trabalho e [à] antena de televisão em causa”.

Notícias falsas nos grandes média

Este caso está longe de ser único. A SIC tem um historial de imagens descontextualizadas, nomeadamente da passagem de vídeos de jogos de computador como imagens reais ou mesmo de imagens antigas como actuais para sustentar afirmações falsas.

Além da SIC, que também já foi condenada noutros casos, a ERC já confirmou vários casos semelhantes, alguns mais graves, noutros grandes órgãos de comunicação social como na RTP, na CNN ou na NOW.

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