Péter Magyar, o novo primeiro-ministro da Hungria, apresenta-se como o rosto de uma direita pós-Orbán: mais próxima da União Europeia e da NATO, mas firme em matérias como imigração, soberania e defesa dos interesses nacionais. A partir do seu programa eleitoral — que disponibilizamos — e das suas entrevistas recentes, analisamos as posições políticas centrais do novo chefe do Governo húngaro.
Péter Magyar apresenta-se como a figura de uma direita húngara que procura romper com o modelo de poder de Viktor Orbán. No entanto, isso é proposto sem abdicar de posições firmes em matérias de soberania, migração e defesa dos interesses nacionais. O seu perfil político, tal como tem sido exposto nas suas intervenções públicas e no programa do seu partido, o TISZA, combina uma reaproximação à União Europeia e aos aliados ocidentais com uma linha de continuidade em áreas sensíveis da política interna e externa.
Defesa do Estado de direito
Segundo o TISZA, a crise do país é económica, social, de segurança e ambiental, mas, na sua essência, é uma crise política e moral: o Estado de direito foi desmantelado, os mecanismos de controlo e equilíbrio foram eliminados e a corrupção sistémica tornou-se desenfreada.
A solução prometida é a defesa intransigente do Estado de direito, com uma governação orientada para o serviço público e tolerância zero à corrupção.
Relação com a União Europeia
Magyar defende que o país deve reforçar a sua posição na União Europeia e na NATO e restaurar a confiança junto dos aliados, pondo fim ao isolamento político que marcou os últimos anos. Ao mesmo tempo, esta reorientação não implica submissão a Bruxelas; pelo contrário, representa uma estratégia de reinserção da Hungria no centro de decisão europeu, com maior capacidade de negociação e de defesa dos seus próprios interesses.
Essa lógica é particularmente visível na questão dos fundos europeus congelados. Um dos objetivos assumidos é reativar esses recursos e aplicá-los em áreas consideradas decisivas para o relançamento do país, nomeadamente infraestruturas, desenvolvimento empresarial, educação e saúde pública.
No entanto, o programa rejeita o formato atual do orçamento da UE a partir de 2028 e sublinha a necessidade de proteger os agricultores e as empresas húngaras. A linha política não é, por isso, federalista nem acrítica: trata-se de uma visão em que a integração europeia é aceite como quadro estratégico, mas permanentemente subordinada à utilidade nacional e à proteção de setores considerados vitais.
Imigração
Na migração, a continuidade em relação ao seu antecessor é nítida, podendo até ser considerada mais radical em alguns pontos. Magyar defende a manutenção da cerca na fronteira sul, rejeita o pacto migratório europeu e opõe-se a quotas obrigatórias. A recusa da migração ilegal continua a ser apresentada como componente de uma política de ordem e segurança nacional.
O programa aponta ainda para a proibição do emprego em massa de trabalhadores estrangeiros a partir de 1 de junho de 2026, com ênfase na formação, qualificação e integração da força de trabalho húngara. Esta proposta insere-se numa linha mais vasta de proteção do mercado de trabalho interno e responde à ideia de que o crescimento económico não pode depender da substituição estrutural da mão de obra nacional por trabalhadores importados em grande escala.
Política externa e relação com a Rússia
Na política externa, Magyar define como objetivo principal a criação de paz e segurança. Este posicionamento parece colocá-lo num ponto intermédio entre a linha de confronto com a União Europeia e a NATO e uma eventual postura de seguidismo face ao Ocidente.
Um menor alinhamento com a Rússia é também sugerido pela estratégia energética, que prevê uma redução da dependência do país. No entanto, essa mudança é pensada para o longo prazo e fica desfasada das metas da União Europeia. O objetivo declarado é acabar com a dependência energética da Rússia, mas apenas até 2035.
Conclusão
O quadro que resulta destas propostas é o de um político que procura reconstruir a direita húngara num registo pós-Orbán. Magyar surge como um conservador nacional, mais próximo da União Europeia na orientação estratégica, mas firme noutras questões de divergência, em especial nas políticas de imigração.
Em termos de alianças estratégicas, propõe-se uma menor dependência de Moscovo e uma maior colaboração com a União Europeia e com a NATO, mas sempre sob o pressuposto de uma forte autonomia política e de uma defesa firme dos interesses nacionais.
O seu projeto não aponta para uma transformação ideológica profunda da Hungria. Promete, antes, recentrar o Estado em bases mais previsíveis, transparentes e funcionais.
Fontes:
Jornal – O TISZA apresentou seu programa “Hungria Trabalhadora e Humanitária”
A MŰKÖDŐ ÉS EMBERSÉGES MAGYARORSZÁG ALAPJAI (Programa eleitoral completo do TISZA )
Péter Magyar says he’d speak with Putin if called, and ask him to end the killing in Ukraine | AP News
