Relatório Reino Unido: Docentes perseguidos por defenderem que o sexo é binário

ByMaria Afonso Peixoto

4 de Julho, 2025

“Eugenistas”, “racistas”, “colonialistas” e “fascistas” foram alguns dos epítetos de que foram alvo inúmeros docentes e alunos das universidades britânicas só por acreditarem que o sexo biológico é real e binário. Ao longo da última década, muitos sofreram campanhas de intimidação e difamação, com consequências graves na sua vida profissional e pessoal, e também na saúde mental. O Sullivan Report, encomendado pelo Governo e divulgado esta semana, expõe centenas de testemunhos e reconhece que a liberdade académica e o rigor científico têm estado sob ataque nas universidades.

Ao longo dos últimos 10 anos, centenas de docentes e alunos foram perseguidos e ostracizados nas universidades britânicas apenas por acreditarem que o sexo biológico é real e imutável – os denominados “críticos do género”. O Sullivan Report, um relatório independente encomendado pelo Governo e divulgado esta quarta-feira, revela como muitos professores universitários foram alvo de campanhas de assédio “com graves consequências pessoais e profissionais” por terem questionado a teoria da identidade de género (ou ideologia de género). Os testemunhos dos visados sobre os danos que sofreram na sua saúde física e mental incluem até casos de Perturbação de Stress Pós-Traumático (PTSD) e baixas prolongadas por doença como resultado da “intimidação, assédio e discriminação”.

“A liberdade de expressão, a liberdade académica e o rigor científico e académico têm sido atacados por aqueles que acreditam que tratar o sexo como uma categoria importante «nega a existência» das pessoas trans. Esta «negação da existência» é reivindicada como um acto de violência que, por sua vez, pode ser utilizado para justificar o assédio. No entanto, o sexo é uma categoria fundamental em todas as disciplinas que têm os seres humanos como seus sujeitos, das ciências humanas às artes, humanidades e ciências sociais”, lê-se no relatório. 

As “campanhas para ‘cancelar’ indivíduos e grupos académicos” foram levadas a cabo sobretudo através de cartas abertas e declarações nas redes sociais ou mensagens enviadas por correio electrónico, recorrendo-se também a panfletos físicos. 

Panfleto distribuído na Universidade de Essex. Fonte: https://www.sullivanreview.uk/barriers.pdf

Dezenas destas mensagens, que circularam entre 2015 e 2024, continham insultos “difamatórios”, em que se comparava quem acredita que o sexo é binário com “eugenistas, racistas, colonialistas, antissemitas, fascistas ou ‘grupos de ódio’”, e se fazia acusações de “intolerância e transfobia”. Segundo o relatório, algumas das mensagens foram escritas ou disseminadas por funcionários das universidades que pertencem a redes LGBT+.

Porém, longe de se limitarem a palavras, estas campanhas tiveram repercussões reais nas carreiras dos docentes, levando, em alguns casos, a demissões ou impossibilitando-os de progredir na profissão.

Muitos assumiram terem de se ‘auto-censurar’ por receio de represálias, e cerca de metade dos inquiridos denunciaram diversas barreiras na sua pesquisa ou na publicação dos seus trabalhos em revistas académicas.

Também apontaram como problema o “policiamento da linguagem” e não poderem referir-se ao sexo biológico, sendo-lhes imposta uma linguagem e conceitos baseados na teoria da identidade de género. 

A título de exemplo, um dos participantes alegou que o editor de uma publicação académica lhe disse que o seu artigo infringia a Lei da Igualdade de 2010 pelo facto de não se referir às mulheres como “mulheres-cis”; estando em causa uma “discriminação ilegal” contra as mulheres trans.

O relatório, da autoria de Alice Sullivan, da University College London, condena o clima de intimidação vivido nas universidades inglesas, afirmando que “a incapacidade de apoiar e defender adequadamente estes indivíduos é uma mancha no sector do ensino superior”.

“A academia deve tolerar e incentivar a diversidade de pontos de vista. Mas a universidade não pode cumprir a sua própria função se permitir comportamentos que ameacem as normas essenciais à busca da verdade e à difusão do conhecimento como bem público.”

Com vista a solucionar os problemas levantados, são feitas várias recomendações – que passam pelo respeito mútuo e por as universidades ajudarem os alunos a lidar com a discórdia e a vê-la como uma “oportunidade para o desenvolvimento intelectual em vez de uma ameaça”.

Fontes

New report exposes campaign to silence gender-critical academics – UnHerd

UK universities have failed to protect gender-critical academics, report finds | Universities | The Guardian

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