O “fascista” Charlie Kirk e a campanha de desumanização em curso

ByMaria Afonso Peixoto

13 de Setembro, 2025
No invólucro de uma das balas da arma encontrada estava escrito "Hey, fascista! Apanha"

O assassinato do conhecido activista norte-americano Charlie Kirk deixou os Estados Unidos em estado de choque, com repercussões que se estenderam a todo o Ocidente, Portugal incluído. Aos 31 anos, o jovem era uma figura destacada no universo conservador, tendo co-fundado, com apenas 18 anos, a organização Turning Point USA, que promovia debates e conferências em escolas e universidades. Era alguém de “direita” que fazia pontes – um cristão evangélico com ideais tradicionalistas e conservadores, mas que não se furtava ao debate; pelo contrário, o seu trabalho era dedicado ao confronto entre ideias diferentes, até antagónicas. Esta quarta-feira, foi cobardemente morto a tiro, precisamente num dos muitos momentos em que protagonizava mais um ‘duelo’ entre mundivisões distintas.

E, embora a investigação ao homicídio ainda esteja em curso, os dados já apurados deviam instigar uma reflexão séria sobre a forma como o combate político é hoje feito. Tantas vezes, com uma “terminologia” que serve de combustível para ódios e fomenta uma intolerância extrema para com opiniões diversas, ao ponto de levar alguém a atentar contra uma vida humana.

O suspeito do assassinato de Kirk, já detido pelas autoridades americanas, é Tyler Robinson: um jovem de apenas 22 anos que se terá radicalizado politicamente, e que teria um “ódio” arraigado em relação ao activista. A arma que se presume ter sido utilizada para cometer o crime, uma Mauser 9836, teria as seguintes mensagens inscritas nos cartuchos das balas: “Hey fascista! Apanha”, “Bella ciao, Bella Ciao, Bella ciao ciao ciao” – uma referência à canção da resistência antifascista italiana da II Guerra Mundial, Bella Ciao – e “se estás a ler isto, és gay, LMAO”.

A acreditar nestas informações, podemos ter uma certeza: aos olhos do homicida, Charlie Kirk era um desprezível fascista; um déspota sanguinário comparável a Benito Mussolini e, podemos afirmar com elevado grau de confiança, a Adolf Hitler.

Ora, quem saiba o mínimo sobre o malogrado activista, e não seja simplesmente desonesto nem padeça de distúrbios mentais graves (como poderá ser o caso do jovem atirador), terá forçosamente de concluir que estava longe de poder ser considerado um “fascista”.  Desde logo, os vídeos em que fala sobre Jesus Cristo e sobre a sua fé cristã são prova de que o ideário fascista estava muito distante dos valores em que acreditava.

Nas redes sociais, os inúmeros testemunhos dos que com ele privaram – pessoas de diferentes etnias e orientações sexuais, saliente-se, para quem o acusa de xenofobia, racismo ou homofobia –, atestam a sua bondade, altruísmo e como serviu de inspiração a milhares de jovens; no fundo, o modo como personificou os ideais cristãos do bem, da coragem e da elevação. Os elogios públicos às suas qualidades foram, de facto, muitos, inclusivamente de pessoas que discordavam do republicano.

No entanto, olhando para as manchetes feitas a respeito da sua morte, é fácil entender o porquê de tantas pessoas, quiçá mais manipuláveis e susceptíveis, verem no activista uma figura temerosa e ameaçadora; um facínora que não tem lugar no ‘mundo democrático’ – ou no mundo, pura e simplesmente.

Num rápido inventário pela imprensa mainstream portuguesa, são vários os apodos que situam Kirk numa ‘escala’ que vai desde uma criatura muito pouco recomendável a um terrorista em potência: “aliado de Trump”, “radical”, “extrema-direita”. Sublinhou-se, também, a sua defesa do direito ao porte de armas, numa insinuação pouco discreta ao estilo “estava a pedi-las”, como se o seu homicídio se tratasse de uma ironia do destino, ou de uma espécie de justiça divina.

Houve até quem justificasse o seu assassínio dizendo que foi vítima da “violência” que ele próprio gerou – quando Kirk promovia o debate aberto e a discórdia com respeito, na boa tradição democrática – ou, pior ainda, quem celebrasse a sua morte. Para estas pessoas, Charlie Kirk, aparentemente, não tinha réstia de dignidade humana. Não merecia sequer viver.

E esta desumanização não aconteceu ‘no vácuo’.

Todos os insultos atirados contra Kirk foram-se banalizando e tornaram-se parte do léxico do cidadão comum, sendo ‘disparados’ levianamente, em jeito de bullying, a qualquer pessoa que sinalizasse algum conservadorismo. Sinalização que, note-se, hoje pode ser apenas a afirmação do sexo como uma característica biológica incontestável e que não pode ser apagada por causa de caprichos identitários e em detrimento do indefinido conceito de “género”.

Estas ofensas são tão freneticamente distribuídas, que se tornaram já uma caricatura de quem as distribui. Uma piada. Contudo, em momentos como estes, somos confrontados sobre se as palavras repetidas de forma imponderada devem ser desvalorizadas com condescendência e até sentido de humor, ou se poderão ter mesmo consequências graves e imprevisíveis.

Mas quem as banalizou? Quem fez com que os epítetos “extrema-direita”, “fascista”, “facho”, ou “facharia” pudessem ser usados para qualificar qualquer pessoa mais à “direita”, sem critério ou substância?

Creio que a responsabilidade se divide, mas não há dúvida de que os média têm a sua quota-parte pela ligeireza e rapidez com que denominam activistas, políticos e outras figuras desta forma, que é errada e injuriosa. Ou como convidam outros a fazê-lo, dando assim o seu selo de aprovação.

Ao longo dos anos, têm-no feito reiterada, desonesta, e irresponsavelmente.

Ao que tudo indica, no dia 10 de Setembro, Charlie Kirk foi vítima desse discurso polarizador, e que fere de morte o espaço público e político, que se desejaria saudável e democrático. Terá sido baleado porque, para o homicida, era um perigoso fascista – mesmo que fosse ‘apenas’ um fervoroso cristão. Mas nada disso importa; os factos não importam quando o alvo já está rotulado e bem definido.

Infelizmente, a julgar pela cobertura feita pela imprensa convencional, não temos motivos para acreditar que a trágica e prematura partida do jovem conservador tenha suscitado uma autoanálise por parte dos média. Nada mudará. O preconceito e o ódio fácil continuarão a ser acicatados através de vitupérios gratuitos. Mesmo por quem tinha a obrigação de não o fazer. E, como resultado, corrói-se a democracia, compromete-se a paz social, e põe-se até em risco vidas humanas.

Ver também

No combate aos incêndios, a igualdade de género não interessa – The Blind Spot

A instrumentalização da empatia para matar o Ocidente – The Blind Spot

Porque não vivemos em democracia – The Blind Spot

“Adolescência” e psicose mediática: propaganda violenta contra a masculinidade – The Blind Spot

error: Content is protected !!