A agência Lusa publicou uma informação enganosa, replicada pela maioria dos média nacionais, alegando que o “governo dos Estados Unidos deixou de recomendar vacina contra sarampo”. A afirmação é falsa: a vacina continua a ser recomendada. A situação, denunciada pelo jornal Página Um, expôs ainda mais as falhas de verificação, rigor informativo e de desinformação, bem como a generalizada prática de ‘copy-paste’ dos grandes órgãos de comunicação social como o Público, a RTP, a SIC Notícias, o Correio da Manhã ou o Diário de Notícias.
A agência Lusa divulgou a notícia de que o governo dos Estados Unidos teria deixado de recomendar a vacina contra sarampo.

Ora, como o jornal Página UM noticiou, essa afirmação é falsa. Os Estados Unidos não deixaram de recomendar a vacina contra o sarampo. O Comité Consultivo sobre Práticas de Imunização (ACIP), recomendou apenas que a vacina combinada MMRV (para o sarampo, a papeira, a rubéola e a varicela) fosse substituída por duas distintas: o MMR (para as três primeiras doenças) e uma vacina específica para a varicela.
De facto, não é verdade que o Governo americano tenha deixado de recomendar a vacina contra o sarampo, tal como pode ser facilmente confirmado através das fontes oficiais, incluindo no próprio site do Center for Disease Control:

Outras falhas da Lusa
Além disso, o artigo da Lusa incorre em várias falhas. Quando aborda a alteração nas recomendações, que realmente aconteceu, refere “a vacinação desta faixa etária” sem afirmar de forma explicita que o sarampo continua incluído e recomendado, o que desmentiria, ou pelo menos, esclareceria outras partes da notícia. Refere, apenas, que é feita através de duas vacinas e que numa delas estão incluídas “as três primeiras doenças”. Algo que, estando correcto, parece insuficiente para elucidar o leitor depois de um título e de uma entrada que explicitamente alegam a que “vacina do sarampo deixou de ser recomendada”.
“De acordo com a decisão, divulgada na quinta-feira, a vacinação desta faixa etária será agora feita através de duas vacinas distintas: uma injeção contra as três primeiras doenças (VASPR) e outra apenas contra a varicela.”
Fonte: Governo dos Estados Unidos deixa de recomendar vacina contra sarampo- Lusa
Opinião e parcialidade
Depois, caracterizam os efeitos secundários da vacinação (convulsões febris), supostamente mitigados com as alterações anunciadas, como sendo “mínimos e inofensivos”, sem identificar essa ‘tese’ como uma opinião, mas como se fosse um facto.
Aliás, toda a linha do artigo parece bastante parcial. Em relação a este ponto específico, além de avaliarem de forma subjectiva a decisão do Comité Consultivo sobre Práticas de Imunização, apresentam apenas fortes críticas às autoridades de saúde americanas. A base científica ou a justificação oficial não são citadas, nem é apresentada a fonte onde consultar a decisão, sendo que essas informações são públicas e de fácil acesso.
Opinião disfarçada de facto: o caso das convulsões febris
O CDC justificou a decisão com estudos científicos que demonstraram que a vacina MMRV em crianças até aos quatro anos duplicava o risco de convulsões febris. Ainda que o risco base seja reduzido e a situação não deixasse, por norma, sequelas, tem consequências negativas como: hospitalizações, situações traumáticas e outras possíveis consequências negativas associadas.
Deste modo, ainda que a opinião de que os riscos sejam “mínimos e inofensivos” seja perfeitamente legítima, ela não deixa de ser uma opinião. Podendo perfeitamente existir outras que concordem com os especialistas do Comité e que valorizem mais os riscos ou que, mesmo que os avaliem como baixos, os considerem superiores aos da solução encontrada.
Propagação de informação falsa nos média nacionais
Não obstante os evidentes erros, a falta de rigor e o enviesamento por parte da Agência Lusa, grande parte dos órgãos de comunicação social nacionais fizeram praticamente “copy-paste” do artigo.

Alguns média reproduziram mesmo a notícia da Lusa sem qualquer alteração significativa; foram os casos do Público, do Sábado, do Diário de Notícias, da SIC Notícias, da Renascença, da RTP, do Healthnews ou do Executive Digest.
No caso do Público, com a agravante de o artigo completo ter estado reservado apenas a assinantes. Deste modo, os leitores não assinantes apenas podiam ler: “Governo dos Estados Unidos deixa de recomendar vacina contra sarampo”, “Governo dos Estados Unidos deixa de recomendar vacina contra sarampo” e “Especialistas nomeados pelo secretário para a Saúde dos Estados Unidos, Robert Kennedy Jr., decidiram deixar de recomendar a vacina contra o sarampo a crianças com menos de quatro anos de idade.”
Também o Correio da Manhã reproduziu grande parte do texto da Lusa, mas sem opiniões de especialistas e outros dados avulsos que dele constavam.
Já o Expresso e o Observador também deram a notícia e, apesar de terem reproduzido grande parte do artigo da Lusa, apresentaram-na de forma algo diferente e deram um título mais rigoroso, embora ainda parcial: “EUA deixam de recomendar vacina combinada contra sarampo a crianças menores de 4 anos”.
Contactos com a Lusa e redações de média
Contactámos com a agência Lusa e com os órgãos de comunicação social em que a notícia é apresentada de forma mais enganosa, no sentido de apresentarmos as suas falhas e questionarmos se as iriam corrigir. Até ao momento, não recebemos qualquer resposta.
Fontes:
Governo dos Estados Unidos deixa de recomendar vacina contra sarampo- Lusa
Measles Vaccine Recommendations | Measles (Rubeola) | CDC
O caso da vacina contra o sarampo nos Estados Unidos: a vergonhosa cobertura noticiosa
Governo dos Estados Unidos deixa de recomendar vacina contra sarampo- Lusa
Ver também:
Arquivo de Fake News – The Blind Spot
