Depois de anos de queixas e críticas por um alegado viés na abordagem às alterações climáticas, e de ter tido mesmo de corrigir informações falsas – como o aumento de mortes provocadas por eventos climáticos, os danos ambientais da pecuária no Reino Unido ou o declínio dos ursos polares –, a BBC decidiu agora investigar internamente a sua própria cobertura jornalística sobre o tema. A iniciativa surge num momento de crise institucional e perda de credibilidade, marcado por demissões no topo da emissora britânica e pela forte contestação pública à forma como tem noticiado diversos assuntos.
A BBC vai realizar uma investigação interna com o intuito de avaliar o seu viés na cobertura que tem feito sobre as alterações climáticas, segundo o jornal britânico The Telegraph. A revelação surge no contexto da crise que a emissora atravessa, depois de ter sido acusada de enviesamento e falta de rigor em várias matérias – desde as eleições presidenciais norte-americanas ao conflito em Gaza e à ‘agenda’ transgénero ou ao tema do racismo.
Uma crise que, recorde-se, já provocou a demissão do director-geral, Tim Davie, e da directora de informação, Deborah Turness, além de uma ameaça de acção judicial de Donald Trump, após ter vindo a público, num memorando interno, que o canal adulterou o seu discurso para dar a ideia de que o presidente americano apelou à invasão do Capitólio.
No que concerne, em particular, ao clima e à “transição energética”, a BBC já foi alvo de várias polémicas nos últimos anos, tendo-se visto obrigada a fazer diversas correcções públicas e até a retirar do ar programas inteiros. Isto porque, para os críticos, apresentava “visões politizadas” como se fossem “factos irrefutáveis”.
Um dos casos mais recentes remonta ao início deste ano, quando uma apresentadora do programa “Question Time” proferiu, alegadamente, uma afirmação falsa sobre a neutralidade carbónica, levando a BBC a ter de editar o excerto em causa. Posteriormente, o canal alegou, no entanto, tratar-se de uma “prática normal” a edição do programa antes da sua transmissão, por uma questão de maior “clareza” junto do público.
Reclamações e acusações de viés sucederam-se nos anos recentes
De facto, a cobertura climática da BBC já tem motivado inúmeras queixas à Unidade de Reclamações Editoriais do canal, com várias a serem consideradas procedentes.
Uma delas foi feita no ano passado, após a BBC News ter noticiado a afirmação de que “as mudanças climáticas induzidas pelo homem tornaram o recente período de calor extremo no sudoeste dos EUA, no México e na América Central cerca de 35 vezes mais provável” como sendo um dado factual.
Editor de clima afirma erradamente que mortes provocadas por eventos climáticos estão a aumentar
Já em 2022, o editor de clima do canal, Justin Rowlatt, havia sido acusado de ter proferido declarações enganadoras acerca dos eventos climáticos extremos, num documentário do programa “Panorama”. Rowlatt alegou que as mortes relacionadas com estes eventos estavam a aumentar no mundo inteiro, e que Madagáscar estava à beira de se tornar no primeiro país a ser assolado por uma fome “induzida pelo clima”.
Contudo, as afirmações seriam dadas como infundadas, uma vez que, de acordo com a Organização Meteorológica Mundial, apesar da maior frequência de desastres climáticos, o número de mortes a eles associadas tem descido.
BBC usou métodos de pecuária intensiva do Brasil e dos EUA para retratar agricultores britânicos
Dois anos antes (em 2020), também os agricultores britânicos se sentiram injustamente retratados nas peças sobre o clima, com a divulgação do documentário “Carne: Uma Ameaça ao Nosso Planeta?”, que acabaria mesmo por ser removido da plataforma BBC iPlayer. O programa ressaltava os danos ambientais supostamente causados pela pecuária, mas sustentava-se quase somente nos métodos intensivos utilizados no Brasil e nos Estados Unidos.
Por esse motivo, o Sindicato Nacional dos Agricultores (NFU, na sigla em inglês) apresentou uma queixa à Ofcom – que no Reino Unido acumula funções similares às da ANACOM e da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) –, a qual deliberou que o programa violou mesmo o princípio da imparcialidade ao equiparar a pecuária do Reino Unido com a dos países apresentados pela BBC.
Emissora publica notícias falsas sobre ursos polares
Um outro caso de notícias falsas em que a BBC incorreu diz respeito a um artigo, publicado no ano passado, sobre o alegado declínio da população mundial de ursos polares devido ao aquecimento global.
“A espécie está em declínio, e os cientistas atribuem isso à perda de gelo marinho causada pelo aquecimento global, o que leva à redução das suas áreas de caça e reprodução”, lia-se na peça.
Só no seguimento de uma queixa é que a BBC viria a determinar a falsidade do artigo, concluindo que a população de ursos polares parecia estar “estável”, contrariamente ao que havia sido alegado.
Comité de Directrizes e Padrões Editoriais fará “revisão temática”
Por outro lado, note-se que a estação televisiva britânica também já foi alvo de críticas por ter acolhido, nos seus programas, visões mais cépticas das alterações climáticas e por não as ter contestado o suficiente.
Saliente-se ainda que a BBC já iniciou também uma investigação temática à sua cobertura de Israel e Gaza, que se encontra a decorrer – e à qual agora se junta esta “revisão” acerca das “políticas energéticas no Reino Unido e alterações climáticas”, que será conduzida pelo Comité de Directrizes e Padrões Editoriais.
A este respeito, a própria secretária de Energia do Partido Trabalhista, Claire Coutinho, terá afirmado, citada pelo The Telegraph, que “o consenso sobre como lidar com as alterações climáticas está a desfazer-se”, e que “se continuarmos no caminho actual, seremos mais pobres e mais fracos”.
Nesse sentido, Coutinho considerou que “é fundamental que a BBC possa noticiar as alterações climáticas de forma imparcial e garantir que todos os pontos de vista sejam representados”.
Fontes:
BBC to review bias in climate change coverage
The BBC’s climate change reporting
Ver também:
BBC manipulou vídeo para ‘responsabilizar’ Trump pela invasão do Capitólio – The Blind Spot
