O The Blind Spot tem por princípio não revelar correspondências ou processos em curso. No entanto, dada a não tipificação legal deste tipo de crimes e a inoperância do regulador perante manobras de desinformação coletiva, o interesse público exige que toda a informação seja revelada.
Apresentamos, assim, as evidências de como: (1) grandes órgãos de comunicação social publicam notícias falsas e infundadas, (2) se recusam a retificá-las (3) reincidem em notícias falsas (mesmo tendo sido devidamente informados), (4) uma grande universidade nacional pactua com essa desinformação (apesar de ter como parceiro um desses média) e (4) a gigante farmacêutica GSK, patrocina o Think Tank que alimenta uma enorme campanha mediática e faz lobbying junto do poder político para que as vacinas, que ela própria comercializa, entrem no Plano Nacional de Vacinação.
Infelizmente, mais do que um caso isolado, este parece ser um modus operandi em que média, universidades, burocratas, “especialistas” e lobistas atuam em coordenação para o benefício de interesses privados.
Cronologia dos factos
23 de maio 2024
Vários média, incluindo a RTP, a SIC, o DN, a TSF e a Sábado, publicam uma notícia afirmando que “a junção de vacinas […] pode representar uma poupança de 245 milhões de euros para o Estado”, atribuindo essa conclusão a um “estudo” da Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP) no âmbito do projeto +Longevidade, coordenado pela Nova IMS. Nenhuma ligação ou fonte direta para o alegado estudo é fornecido.

No mesmo dia, o The Blind Spot contacta, via e-mail, a ENSP solicitando acesso ao estudo referido[6].
24 de maio de 2024
O The Blind Spot fala com João Diogo, gestor do projeto +Longevidade (Nova IMS). João Diogo confirma não existir estudo publicado, mas apenas uma “estimativa baseada em extrapolações de custos de outros países europeus”.
Esclarece que:
– O valor de 245 milhões é uma estimativa de custos, não uma poupança.
– Houve uma “interpretação incorreta” de vários meios de comunicação.
– A ideia de poupança é “uma dedução inviável”, dada a necessidade de investimento em vacinas, adesão vacinal, eficácia, etc.
Promete enviar o relatório final “nos próximos dias”.
23 de Maio de 2024
José Miguel Diniz e Henrique Vasconcelos, autores da análise citada erradamente como “estudo”, desmentem publicamente as manchetes e a cobertura mediática.




25 de maio de 2024
O gestor do projeto +Longevidade confirma-nos a informação por email.

27 a 29 de maio de 2024
O The Blind Spot envia e-mails aos vários órgãos de comunicação social[8] [9] [10] [11] [12] questionando:
- O motivo da publicação da notícia “falsa e enganadora”.
- A fonte da informação usada.
- Se pretendem corrigir a notícia.
Apesar de várias tentativas, não obtivemos qualquer resposta.
O relatório nunca é enviado, e continua sem publicação pública. O The Blind Spot volta a contactar o projeto sem sucesso.
28 a 31 de Maio de 2024
O The Blind Spot tenta fazer inúmeros contactos com os peritos citados nas peças para esclarecimentos, nomeadamente Francisco George, Gustavo Tato Borges e Tiago Correia[13] [14] [15] [16].
Nos e-mails enviados informámos do desmentido das notícias que relatavam que “mais vacinas gratuitas poupariam 245 milhões de euros ao orçamento de estado” dado terem sido associados pela comunicação social a essa informação.
Apenas obtivemos resposta do Dr. Francisco George que nos respondeu que não tinha citado qualquer montante e que não tinha participado no estudo em causa.

Junho–Agosto de 2024
- O alegado “relatório” continua sem ser publicado.
Agosto de 2024
O The Blind Spot, representado pelo advogado João Pedro César Machado, contacta a RTP, a SIC, o DN, a TSF e a Sábado formalmente:
– Questiona fontes, motivo da publicação e possibilidade de retificação.
– Obtivemos apenas duas respostas, da TSF e do Diário de Notícias[17][18]. Em ambos os casos foi-nos respondido que mantinham a confiança na veracidade da notícia.
27 de setembro de 2024
A Lusa publica nova notícia, citando o projeto +Longevidade. Desta vez, esclarece corretamente que os 245 milhões de euros representam custos estimados (não poupanças). Confirma que o relatório ainda não foi publicado.
Apesar de tudo, o DN e SIC-N insistiram na ideia de que um plano de vacinação de adultos poderia poupar ao Estado 245 milhões por ano.


“Os peritos estimam que seria possível com esta medida poupar mais de 245 milhões de euros ao estado”. (vídeo)
Outubro de 2024 (dia 27)
Apresentámos queixa na ERC contra a SIC-N e o DN [19] [20]. Salientámos a reincidência na transmissão de informações falsas mesmo perante a apresentação de inúmeras evidências que o demonstravam. Descrevemos as inúmeras violações das disposições deontológicas e legais a que os média estão sujeitos.
Outubro de 2024 (dia 28)
Deslocámo-nos à Universidade Nova, onde reunimos com o Diretor do NOVA Center for Global Health. Nessa reunião, Henrique Lopes confirmou-nos que a notícia de uma poupança de 245 milhões com novas vacinas era um “disparate”.
Também ele nos confirmou que os média confundiam “custos com ganhos”.
Novembro de 2024 (dia 18)
Passados 19 meses de o relatório final nos ter sido prometido “nos próximos dias” por parte do gestor do projeto, ele é finalmente apresentado [21].
A estimativa de custos (apelidado de “estudo de poupanças” por vários média), que também pedimos na altura, nunca foi divulgada (ficando, portanto, longe do escrutínio público). É citada no relatório, confirmando a versão que transmitimos à ERC e desmentido as alegações de vários órgãos de comunicação social, nomeadamente do DN e da SIC-N que as repetiram.
Outubro de 2025 (dia 06)
Passado quase um ano recebemos a resposta à nossa queixa via e-mail[22].
Nessa resposta a ERC afirma que “foi cumprido o dever de identificar as fontes de informação e atribuir as informações recolhidas aos respetivos autores” e que “na participação, está em causa o apuramento da veracidade das declarações apresentadas pelas partes, e não a verificação do cumprimento das regras aplicáveis à prática jornalística.
Novembro de 2025 (dia 07)
Na nossa resposta[23], dada pelo diretor do The Blind Spot, Nuno Machado, rejeitámos os argumentos da DGS, nomeadamente:
1- Citando o antigo Diretor Geral da Saúde Francisco George que desmentiu pelo e-mail que facultámos à ERC[13] a citação que lhe foi supostamente atribuída.
2- Mostrando que o próprio relatório[21] citado para justificar as notícias desmente-as, por exemplo, expondo a confusão entre “poupanças” com “custos”.
3- Reiterando que está em causa a verificação do cumprimento das regras aplicáveis à prática jornalística, entre muitas outras, relativas à “isenção e o rigor informativos”, ao dever de retificação de informações falsas, a não identificação precisa da fonte original das alegações ou até de falsas citações.
4- Entre outros pontos, salientámos a acrescida gravidade do caso dado dizer respeito à saúde e ao erário públicos, bem como os factos dos “parceiros” do projecto +Longevidade serem: (1) um dos média que repetiu a falsa alegação e (2) a farmacêutica, com mais interesse comercial na informação divulgada.
5- Solicitámos uma reapreciação célere dos factos.
Dezembro de 2025 (dia 1)
Dada a ausência de resposta por parte da ERC e de uma tipificação legal adequada destes casos, a gravidade do caso exige queo The Blind Spot torne pública toda a documentação relevante.
Mais do que um caso isolado, estes expedientes parecem ser formas recorrentes de manipulação da opinião pública e de lobby sobre o poder político com a cooperação entre grandes empresas privadas, universidades, “especialistas” (muitos com graves conflitos de interesse), figuras públicas e grandes médias.
De notar finalmente que, a partir do suposto “estudo” (nunca divulgado) e do relatório (tardiamente tornado público) foram publicadas centenas de notícias nos mais variados órgãos de comunicação e pela Lusa.

Fontes:
