Relatório França: Maioria dos jovens muçulmanos defende aplicação da Sharia e de normas islâmicas acima das leis da República

ByNuno Machado

4 de Dezembro, 2025

Um estudo recentemente publicado pelo Instituto Francês para a Opinião Pública (IFOP) levanta questões sobre a radicalização da comunidade muçulmana. Apesar de a grande maioria rejeitar o extremismo, existem fortes sinais de distanciamento dos valores republicanos, especialmente entre os jovens (15-24 anos). Entre os resultados do inquérito: (1) a proporção de muçulmanos aumentou 14 vezes nos últimos 40 anos (de 0,5% para 7%); o uso de lenço na cabeça quase triplicou em 22 anos entre as jovens dos 18 aos 24 anos (de 16% para 45%) e (3) atualmente 57% dos jovens muçulmanos colocam as normas islâmicas acima das leis da República. Várias vozes manifestaram-se contra a publicação do estudo, entre elas o Conselho Francês da Fé Muçulmana (CFCM), que considerou que a sua divulgação reforça o “estigma” e contribui para um clima de crescente islamofobia.

O relatório “Análise da relação dos muçulmanos de França com o Islão e o islamismo”, realizado pelo IFOP, traça o retrato da comunidade muçulmana em França e revela a sua radicalização religiosa nas últimas décadas.

Principais resultados

Crescimento demográfico de muçulmanos

Segundo o estudo, a proporção de muçulmanos adultos em França passou de cerca de 0,5% em 1985 para aproximadamente 7% em 2025, tornando o Islão a segunda maior religião do país.

Em sentido inverso, a proporção de católicos caiu de 83% para 43%.

Religiosidade e práticas

Outro aspecto importante, é que 80% dos muçulmanos dizem-se “religiosos” (87% entre os jovens) contra uma média de 48% entre crentes noutras religiões.

Também a prática religiosa aumentou significativamente. Entre os anos de 1989 e 2025, a frequência semanal à mesquita passou de 16% para 35% e a oração diária aumentou de 41% para 62%.

Na mesma linha, o jejum no Ramadão e outras práticas religiosas tradicionalmente associadas a um Islão mais rigoroso também se intensificaram ao longo das décadas. Em concreto, passou de 60% em 1989 para 73% em 2025 (83% entre os jovens).

O estudo observa ainda que o uso do hijab está-se a tornar mais comum entre as jovens: quase uma em cada duas mulheres muçulmanas entre os 18 e os 24 anos usa lenço na cabeça (45%), o que representa quase três vezes mais do que em 2003 (16%).

No mesmo sentido, os casamentos inter-religiosos são menos prováveis entre os muçulmanos (73%) do que entre aqueles que seguem outras religiões (80%).

Liberdade religiosa

Adicionalmente, de acordo com a investigação, 59% defendem a aplicação da Sharia em países não muçulmanos e 57% colocam as normas islâmicas acima das leis da República francesa.

Liberdade religiosa

Por outro lado, o número dos que acreditam que um muçulmano tem o direito de deixar o Islão está a aumentar, tendo passado de 44% em 1989, para 73% em 2025.

O relatório

Este relatório baseou-se numa amostra nacional representativa de 1.005 pessoas autodeclaradas muçulmanas (selecionadas a partir de um base de 14.200 pessoas).

Críticas ao estudo

Várias vozes manifestaram-se contra a metodologia do estudo e a sua divulgação. Muitos colocaram em causa quão representativas são as opiniões dos participantes e se as perguntas foram formuladas corretamente.

Também foram levantadas preocupações sobre eventuais consequências contraproducentes da revelação dos resultados e da valorização das discrepâncias de valores com o modelo republicano, uma vez que, para alguns, isso pode aumentar a hostilidade contra os muçulmanos e até desencadear um reflexo defensivo.

Entre essas vozes críticas, está o Conselho Francês da Fé Muçulmana (CFCM), que acusou o relatório de reforçar o “estigma” e contribuir para um clima de crescente islamofobia.

Concretamente, a CFCM considerou que algumas das conclusões eram duvidosas e que já tinham sido “amplamente adotadas e exploradas por círculos islamofóbicos” como forma de retratar a comunidade muçulmana como uma “ameaça interna e existencial” à sociedade francesa.

Fontes:

Relatório: Análise da relação dos muçulmanos de França com o Islão e o islamismo

Islam Strengthens: 87% of Muslims in France Consider Themselves Religious | BB.LV

French organization denounces ‘instrumentalization’ of Muslims in controversial survey

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