No âmbito da investigação do The Blind Spot às sociedades médicas portuguesas que mais ganharam das farmacêuticas nos últimos seis anos, as de Cardiologia, de Medicina Interna, de Pneumologia e de Pediatria são as que figuram no topo da lista. Juntas, já arrecadaram mais de 23 milhões de euros desde 2020. Estas relações com a indústria farmacêutica levantam questões sobre a sua independência, uma vez que estas sociedades e os seus dirigentes emitem recomendações sobre diversos assuntos de saúde pública, colaborando também com autoridades sanitárias como a Direcção-geral da Saúde (DGS).
As sociedades científicas de Cardiologia, de Medicina Interna, de Pneumologia e de Pediatria são aquelas que têm angariado as verbas mais elevadas da indústria farmacêutica desde 2020 – somando, as quatro em conjunto, 23.684.643,50 euros em financiamento. Os cálculos foram feitos com base nos dados que constam da Plataforma da Transparência do INFARMED.
Em primeiro lugar, surge a Sociedade Portuguesa de Cardiologia (SPC) – a única que ultrapassou o patamar dos oito milhões –, tendo ‘amealhado’ 8.796.727,19 euros, conforme o The Blind Spot já havia revelado na semana passada.
A segunda maior beneficiada, a uma distância não muito longa, é a Sociedade Portuguesa de Medicina Interna (SPMI), que registou 7.927.780 euros recebidos nos últimos seis anos.
Em terceiro lugar, está a Sociedade Portuguesa de Pneumologia (SPP), que auferiu 4.595.349,31 euros, tal como o nosso jornal reportou em Outubro.
Por fim, e com um financiamento um pouco mais ‘modesto’, segue-se a Sociedade Portuguesa de Pediatria (SPP), que, com o ano de 2025 já perto do fim, contabilizou 2.364.787 euros de financiamento das farmacêuticas, ficando assim em quarto lugar.
Note-se que uma parte considerável destes montantes servem para financiar os congressos anuais destas sociedades, mas também incluem patrocínios e apoios para muitas outras iniciativas – desde webinars a formações e reuniões.
Sociedade Portuguesa de Cardiologia (SPC)
Neste último ano, a Novartis, a Bayer, a Pfizer e a Daiichi Sankyo estão entre as farmacêuticas que efectuaram os pagamentos de maior valor à Sociedade Portuguesa de Cardiologia.
E, de facto, exceptuando um patrocínio da Novartis de 110.700 euros, vários dos maiores pagamentos foram feitos no âmbito da realização do Congresso Português de Cardiologia de 2025, que aconteceu em meados de Abril, no Centro de Congressos da Alfândega do Porto.
Entre os de maior valor, registou-se também um de 49.200 euros, da Pfizer, para a “Reunião Anual do Grupo de Estudo de Doenças de Miocárdio e Pericárdio”.
Em 2025, destacam-se ainda a Novo Nordisk (fabricante do ‘famoso’ medicamento Ozempic) e a Merck Sharp & Dohme – com donativos individuais superiores a 40 mil euros para o congresso de Cardiologia –, a Boheringer Ingelheim, que financiou três cursos “pré-congresso”, e a AstraZeneca, que patrocinou igualmente o congresso com cerca de 40 mil euros e financiou o “PORTHOS”, um “estudo observacional para a determinação da prevalência da insuficiência cardíaca”.

Fonte: INFARMED
Aliás, a AstraZeneca tem sido, nos anos recentes, umas das gigantes farmacêuticas que salta à vista pelas suas contribuições particularmente constantes e significativas, sendo que alguns dos montantes mais elevados se destinaram ao estudo sobre a prevalência da insuficiência cardíaca em Portugal.

Sociedade Portuguesa de Medicina Interna (SPMI)
Um pouco à semelhança da Sociedade de Cardiologia, também no caso da SPMI algumas das quantias mais significativas dos últimos anos dizem respeito aos patrocínios da Novartis, com diversos pagamentos de diferentes importâncias. Em 2025 e 2024, por exemplo, os patrocínios de valores mais elevados totalizaram os 79,950 euros, e em 2022 estes pagamentos ascenderam aos 115.312,5 euros.
Além destes patrocínios, destacam-se também os montantes destinados aos congressos de Medicina Interna, que figuram no ‘pódio’ dos cinco maiores. Para o 31.º Congresso Nacional de Medicina, os contributos que saltam à vista são da GlaxoSmithKline, da Daiichi Sankyo, da Boehringer Ingelheim e da Bayer.


Sociedade Portuguesa de Pneumologia (SPP)
Por seu turno, a Sociedade Portuguesa de Pneumologia, que também conta com apoios ‘chorudos’ das maiores empresas farmacêuticas, tem declarado nos últimos anos pagamentos especialmente elevados da Sanofi, da Tecnimede – Sociedade Tecnico-Medicinal, da GlaxoSmithKline e da AstraZeneca. Destes, em 2025 destacam-se aqueles que financiaram o 41.º Congresso de Pneumologia, bem como um pagamento de 50 mil euros para apoiar o “estudo epiCOPD”, e outro de cerca de 41 mil euros para o “Livro do Núcleo Museológico” (ambos da Tecnimede).

A somar-se a estes recebimentos, também se registam montantes relativos a outros apoios, patrocínios e prestações de serviços.
Nesse sentido, além das farmacêuticas já referidas, são também de destacar os apoios dados pela Boehringer Ingelheim, a Pfizer, a Gasoxmed e a Merck Sharp & Dome, sendo que alguns dos seus maiores donativos destinaram-se, no ano passado (e em consonância com anos anteriores), ao congresso nacional de Pneumologia.

Sociedade Portuguesa de Pediatria (SPP)
Em linha com o que sucede com as restantes sociedades, também no caso da Sociedade Portuguesa de Pediatria uma porção substancial do seu financiamento tem sido canalizado para os seus congressos anuais, com o último a ter tido lugar no final de Outubro passado, no Porto, entre os dias 29 a 31.
Embora várias farmacêuticas tenham contribuído para a sua realização, as quantias mais elevadas que, até agora, constam no Portal do INFARMED, vieram da Pfizer (37.515 euros), da Fresenius Kabi Pharma e da Mylan (cada uma delas alocou 16 mil euros).
Contudo, este ano ainda foram submetidos no portal donativos referentes ao 24.º Congresso Nacional de Pediatria, que ocorreu em Vilamoura em Outubro do ano passado – e que teve a Sanofi como a maior financiadora (com 69.445 euros), e também uma contribuição assinalável da AstraZeneca no valor de 30.500 euros.

Além da Sanofi e da AstraZeneca, o congresso de 2024 teve, também, um financiamento generoso da Pfizer (32.754,49 euros) e da Merck Sharp & Dohme (28 mil euros).

Saliente-se que recentemente, no 25.º Congresso de Pediatria, foi eleita a nova presidente da SPP, Mónica Oliva, que sucede ao presidente cessante André Graça, com um mandato de três anos que se inicia já em Janeiro.
Conflitos de interesses
Os avultados apoios das farmacêuticas que o The Blind Spot tem revelado podem suscitar dúvidas sobre a independência destas sociedade científicas que, com frequência, emitem recomendações e pareceres sobre diversas matérias de saúde pública, colaborando também com entidades como a Direcção-geral da Saúde.
Isto é particularmente relevante quando alguns dos seus membros fazem recomendações públicas duvidosas, ou mesmo contrárias às evidências científicas disponíveis, e que beneficiam os seus próprios financiadores.
