Fundação OMS: Financiamento da indústria farmacêutica e sigilo de muitos doadores

ByNuno Machado

6 de Janeiro, 2026

Uma investigação publicada no BMJ Global Health analisou o financiamento da Fundação da Organização Mundial da Saúde (WHO Foundation), criada para captar fundos privados para a OMS. As conclusões levantam sérias questões sobre transparência, conflitos de interesse e influência de grandes corporações na governação de quem dita, em grande medida, as políticas de saúde global.

Uma investigação publicada no BMJ Global Health, uma das revistas científicas mais respeitadas na área da saúde pública, examinou como funciona e é financiada a Fundação da OMS (WHO Foundation).

Uma Fundação para captar fundos privados

A fundação foi criada em 2020 com o objectivo assumido de diversificar as fontes de financiamento da Organização Mundial da Saúde (OMS). O facto de ser uma Fundação permite-lhe receber donativos de empresas, fundações privadas e grandes filantropos, que, de outra forma, estariam vedadas ou com um acesso mais condicionado.

A investigação

O estudo examinou documentos públicos, relatórios financeiros, comunicações institucionais e dados disponibilizados pela própria WHO Foundation. O estudo teve, entre os seus objetivos, identificar quem financia a fundação, a transparência das doações recebidas e os mecanismos que existem para prevenir conflitos de interesse.

Principais conclusões

1. Grande peso de financiamento privado e corporativo

A análise confirma que grande parte do financiamento da fundação provém de entidades privadas, nomeadamente de empresas multinacionais e grandes fundações filantrópicas.

Os autores do estudo consideram que estas entidades apresentam potenciais conflitos de interesse pois estão, direta ou indiretamente, envolvidas em atividades dependentes das políticas e orientações da OMS, como as indústrias farmacêutica, alimentar e tecnológica.

Financiamentos de grandes farmacêuticas, indústria alimentar e plataformas digitais

Entre os financiadores revelados encontram-se inúmeras farmacêuticas, nomeadamente, a Merck, a Pfizer e a Sanofi (através da sua Fundação), com doações de cerca de 4,5 milhões de dólares (só entre 2023 e 2024).

Ainda relacionada com a saúde, uma grande doação da Nestlé de 2,2 milhões de dólares levantou celeuma em 2021.

Por fim, as grandes plataformas tecnológicas têm sido igualmente uma grande fonte de receitas com mais de 7 milhões de dólares a serem doados principalmente pelo Meta/Facebook e o TikTok.

Financiamentos nacionais

De destacar igualmente os avultados investimentos nacionais na Fundação da OMS. A Associação Nacional de Farmácias e a Associação Portuguesa de indústria Farmacêutica doaram conjuntamente perto de 600 mil dólares, a que se juntou a EDP, com 840 mil, e o Novo Banco com 560 mil.  

2. Reduzida transparência de doadores e montantes

Mas se os financiadores conhecidos levantam muitas questões, a não divulgação de muitos outros também é motivo de reparo por parte dos investigadores.

De facto, o estudo revela uma explosão de doações anónimas. Em 2023, quase 80% das doações eram anónimas e acima de US$100 mil.

Segundo os autores, este facto limita muito a avaliação independente de possíveis influências externas nas prioridades da OMS e da sua fundação.

Uma camada burocrática com reduzido impacto e orientado para os financiadores

Apesar de o objetivo declarado da Fundação da OMS ser aumentar o financiamento flexível para a OMS, o estudo conclui que acontece precisamente o contrário. A maior parte do dinheiro não vai para programas da OMS, mas sim para custos operacionais da própria Fundação.

Além disso, esta parece funcionar mais como influenciadora da OMS, promovendo especificamente interesses privados dos seus financiadores. Algo que a própria salienta ao reconhecer que dá acesso privilegiado à OMS como um benefício para empresas parceiras.

3. Risco estrutural de conflitos de interesse

Deste modo, os autores consideram que o funcionamento atual da Fundação aumenta ainda mais os riscos de captura corporativa e conflitos de interesse. Riscos esses agravados por níveis de transparência comparáveis a think tanks financiados por “dark money” (dinheiro de origem duvidosa).

Tanto mais que a Fundação aceita explicitamente financiamentos de todo o tipo de setores (exceto armamento e tabaco), mesmo que constituam manifestos conflitos de interesse.

Recomendações dos autores

Entre as recomendações dos autores estão:

– A divulgação pública completa dos doadores e montantes;

– A definição de critérios claros e públicos para aceitar financiamento corporativo;

– A criação de mecanismos independentes de auditoria e supervisão;

– A separação rigorosa entre financiamento e definição de prioridades políticas.

Fontes:

Who funds the WHO Foundation? A transparency analysis of donation disclosures over the first 3 years of its operation

Global health impact & funding partnerships | WHO Foundation

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