Cortes de internet, bloqueio de redes sociais e perseguição judicial por publicações online tornaram-se instrumentos centrais da resposta do regime iraniano aos novos protestos. Apesar de um ambiente de repressão crescente e de um cerco informativo apertado, a contestação popular voltou a emergir em várias cidades, desafiando um regime que endureceu ainda mais o controlo sobre a sociedade.
O Irão atravessa uma crise profunda marcada pela deterioração económica, repressão política, restrições duras aos direitos civis e um sistema de censura digital cada vez mais abrangente. Nas últimas semanas, novos protestos voltaram a surgir em várias cidades do país, desafiando um regime que responde com violência, controlo da informação e detenções em larga escala.
De acordo com agências internacionais e organizações de direitos humanos, trata-se da mais significativa vaga de contestação desde os protestos de 2022, desencadeados pela morte de Mahsa Amini após a sua detenção pela polícia da moralidade.
Uma crise com origem económica
A atual onda de protestos teve origem em fatores económicos como a inflação elevada, a desvalorização do rial, a escassez de bens essenciais e o desemprego persistente entre jovens qualificados. No entanto, o descontentamento rapidamente ultrapassou a esfera económica.
Em várias cidades, os slogans contra o custo de vida deram lugar a críticas diretas ao regime da República Islâmica, ao líder supremo e às forças de segurança. Observadores destacam ainda a natureza transversal da mobilização, que envolve classes médias urbanas, trabalhadores e populações de regiões periférica, algo que a distingue de episódios anteriores de contestação.
Direitos civis sob ataque
A resposta do Estado iraniano tem sido marcada por uma repressão sistemática. Relatos de jornalistas internacionais e de organizações não governamentais apontam para o uso de força letal contra manifestantes, prisões arbitrárias em grande escala, detenções de jornalistas, advogados e ativistas, bem como julgamentos acelerados com garantias processuais limitadas.
A Amnistia Internacional e a Human Rights Watch alertam para um padrão consistente de violações dos direitos à liberdade de expressão, de reunião e ao devido processo legal. A repressão estende-se ainda a familiares de manifestantes e de vítimas, contribuindo para a instalação de um clima generalizado de medo e intimidação.
A censura digital como arma central do regime
Tal como noutras situações de repressão de estado, a internet e as redes sociais tornaram-se instrumentos essenciais para as populações comunicarem, internamente e com o exterior, e organizarem a resistência ao regime.
Por isso, paralelamente à violência física, o regime iraniano intensificou uma estratégia de censura e repressão digital sofisticada para impedir essa coordenação popular, dificultar a cobertura internacional e isolar protestos.
As principais formas de vigilância, censura e perseguição digital incluem:
– Cortes quase totais da internet móvel,
– Bloqueio de plataformas como Instagram, WhatsApp e Telegram,
– Vigilância das comunicações online,
– Monitorização de tráfego online;
– Identificação de utilizadores através de dados de telecomunicações;
– Perseguição judicial por publicações em redes sociais.
Apesar disso, muitos iranianos recorrem a VPNs, redes paralelas e canais clandestinos para continuar a travar uma guerra, também tecnológica, entre cidadãos e Estado.
Fontes:
Middle East News | Today’s Latest Stories | Reuters
Iran cuts internet as protest movement against regime grows
How Western Media Are Failing Iranians | HonestReporting
Iran | Country Page | World | Human Rights Watch
Human rights in Iran Amnesty International
