Declarações do pneumologista Filipe Froes difundidas pela RTP indicam que morrem “29 pessoas por dia” com pneumonia em Portugal – um número contrariado por dados oficiais. A alegação foi reproduzida por vários meios e pelas redes sociais da Sociedade Portuguesa de Pneumologia (SPP), da qual Froes é vice-presidente. Questionámos a RTP e a SPP sobre o processo de confirmação do número de mortes por pneumonia em Portugal e de outras informações infundadas. Até ao momento não obtivemos resposta.
O médico Filipe Froes é conhecido pelas suas relações próximas com a indústria farmacêutica. Ao mesmo tempo, promove há anos, na comunicação social, produtos de empresas farmacêuticas com as quais mantém relações profissionais.
O que foi dito na RTP
Num conjunto de peças passadas na RTP foi alegado que morrem “todos os dias” 29 pessoas com pneumonia em Portugal. Alegação essa que foi reproduzida em vários meios.
Numa entrevista, o pneumologista Filipe Froes foi usado como fonte direta para essa alegação.
“Na última década internámos cerca de 127 pessoas por dia e 29 falecem nos hospitais”
Informação que depois foi replicada por reportagens da RTP.

Em algumas delas foram acrescentadas outras alegações igualmente inverosímeis, como a de que “50% dos internamentos do país” são provocados por pneumonia.
“(a pneumonia) representa cerca de 50% dos internamentos do país.. e deste 29 mortes” – Pneumonia é principal causa de internamentos e mortes respiratórias no país- RTP
Informações depois totalmente desmentidas pela própria reportagem, que no final afirma existirem “quase quatro mil mortes por ano em Portugal”, o que daria cerca de 11 morte, bem longe das alegadas 29 mortes diárias.
O que dizem os dados oficiais
Consultando os dados doObservatório Nacional Doenças Respiratórias (dados até 2021) e do INE (2022 e 2023) verificamos que a mortalidade anual por pneumonia nos últimos dez anos disponíveis oscila entre os 3.756 (2021) e os 6.115 (2015).

* Estimativas SPP
Desse modo, em nenhum ano a mortalidade diária média se aproxima dos alegados 29 óbitos. A média diária é de 14 mortes, o que representa menos de metade desse valor.
Para 2024 e 2025 ainda não existem dados finais, mas estimativas da Sociedade Portuguesa de Pneumologia (SPP), de que Filipe Froes é vice-presidente, apontam para 16 mortes por dia.
Onde estão as contradições
Desta forma, Filipe Froes voltou a passar informações contrariadas por dados oficiais num dos maiores órgãos de comunicação social.
A alegação foi igualmente difundida pela SPP nas suas redes sociais. Isto, apesar de como vimos, a própria organização estimar que esse valor é cerca de metade.
Conflitos de interesse
Este tipo de alegações falsas, infundadas ou enganadoras tem sido prática comum do pneumologista, que invariavelmente exagera os riscos de certas doenças ou promove explicitamente certos medicamentos, ou vacinas, para os mesmos. Quer exagerando os seus potenciais benefícios, quer omitindo ou minimizando os seus riscos e limitações.
A situação expõe mais uma vez a relação financeira e profissional com as farmacêuticas, que beneficiam deste padrão recorrente identificado em investigações anteriores. Só entre os vencimentos de Filipe Froes declarados no Portal da Transparência detetámos cerca de meio milhão de euros nos últimos dez anos.
Sendo que, em relação às empresas que comercializam vacinas para a pneumonia, recebeu cerca de 132 mil euros apenas nos últimos seis anos.
Além de Filipe Froes, também a SPP tem um claro conflito de interesses dado que ela, e outros dos seus dirigentes, auferem avultadas quantias das farmacêuticas. Ao mesmo tempo, aconselham as entidades públicas e abordam temas críticos para o seu desempenho comercial e financeiro nos média e nas redes sociais.
Pressão de Froes e da SPP para financiamentos públicos
Um desses pontos mais abordados pela SPP, e pelos médicos que compõem os seus corpos sociais, tem sido a vacinação pneumocócica (contra certos tipos de pneumonia). Filipe Froes e outros membros da SPP têm defendido incessantemente o alargamento dos escalões etários para essas vacinas no Plano Nacional de Vacinação.
Ora, sem nos alargarmos muito na evidência atual, essa vacinação, apenas contempla alguns tipos de pneumonia bacteriana, tem efeitos adversos identificados importantes (como outros medicamentos e vacinas) e a evidência sobre os seus benefícios levanta algumas dúvidas (especialmente para certas idades e em relação à redução da mortalidade geral).
Mas, por outro lado, juntamente com outras vacinas, podem constituir fontes de receitas significativas e recorrentes para as empresas farmacêuticas, fundamentais para resultados financeiros robustos das grandes farmacêuticas.

Fonte: Marco Histórico GSK: Supera 100 Milhões em Receitas em Portugal
Tentativas de contacto e ausência de resposta
Enviámos emails aos visados desta investigação – SPP, respetivos dirigentes e RTP – em que lhes solicitámos as fontes do número de mortes por pneumonia e perguntámos se não as confirmavam as informações antes de as divulgarem. Tanto mais, dado os antecedentes do médico em questão.
Também questionámos sobre outras informações aparentemente falsas como o número de “127 hospitalizações por dia” por pneumonia (Filipe Froes) e os “50% de internamentos por pneumonia” (jornalista da RTP).
Até ao momento não recebemos qualquer resposta.
Fontes:
Pneumonia é principal causa de internamentos e mortes respiratórias no país- RTP
Sociedade Portuguesa Pneumologia Vídeo | Facebook
Observatório Nacional Doenças Respiratórias 2023(dados até 2021)
Portal INE – Destaque 646027025(Dados 2022)
Portal INE – Destaque 706996012(Dados 2023)
Ver também:
Arquivo de Fake News – The Blind Spot
Caso “Falso estudo”: Cronologia e provas da manipulação da opinião pública – The Blind Spot
