A InnoEnergy, uma das principais entidades europeias de investimento em tecnologias limpas, afirma que as empresas do seu portefólio poderão evitar 2,3 gigatoneladas de CO₂ equivalente até 2030, o que seria o equivalente a retirar 534 milhões de veículos de combustão interna da estrada durante um ano. Uma investigação independente revela, no entanto, que essas estimativas aceites pela EU vêm das próprias empresas benificiárias, sem utilizarem uma metodologia uniforme e que, na sua grande maioria se recusam divulgar os seus números individualmente.
A InnoEnergy, uma das principais entidades europeias de investimento em tecnologias limpas, afirma que as empresas do seu portefólio poderão evitar 2,3 gigatoneladas de CO₂ equivalente até 2030, o equivalente, segundo a própria organização, a retirar 534 milhões de veículos de combustão interna da estrada durante um ano.
A relevância pública do caso aumenta porque a InnoEnergy não é apenas uma empresa privada a comunicar resultados ambientais. É uma Knowledge and Innovation Community criada no ecossistema do EIT, organismo da União Europeia, e recebeu 760 milhões de euros em subvenções europeias entre 2010 e 2024.
A investigação do Follow the Money expôs a fragilidade do número. Segundo a investigação, a estimativa de 2,3 gigatoneladas assenta em dados fornecidos pelas próprias startups e scaleups apoiadas pela InnoEnergy, sem obrigação de usarem a mesma metodologia, os mesmos pressupostos ou uma base comum de cálculo. A InnoEnergy confirmou que decidiu não impor um modelo rígido, justificando essa escolha com a diversidade das tecnologias e dos mercados em que atuam as empresas do seu portefólio.
Na prática, as empresas calcularam o seu próprio impacto climático potencial. Depois, esses números foram revistos e, quando necessário, contestados por uma equipa interna da InnoEnergy. O detalhe é decisivo: a validação não foi feita por uma auditoria externa independente, mas por uma estrutura com potencial conflito de interesses, já que a própria InnoEnergy tem interesse reputacional em demonstrar que os seus investimentos produzem impacto climático relevante.
A própria InnoEnergy apresenta estes valores como projeções até 2030. Ou seja, não se trata de emissões já evitadas, mas de reduções futuras dependentes de crescimento comercial, adoção tecnológica, sobrevivência das empresas, expansão industrial e substituição real de tecnologias poluentes.
A alegação que ninguém consegue verificar
A falta de transparência é um dos pontos mais sensíveis do caso. Segundo o Follow the Money, o relatório de impacto de 2024 da InnoEnergy apresentou estimativas específicas para apenas 11 das 160 empresas ativas declaradas no seu portefólio. Quando o jornal pediu os cálculos individuais completos, a InnoEnergy recusou divulgá-los, invocando confidencialidade.
A consequência é direta: o público, os contribuintes europeus, os jornalistas e os próprios decisores políticos não conseguem verificar de forma independente como se chega ao número de 2,3 gigatoneladas. Há uma promessa climática gigantesca, há financiamento público substancial, mas não há acesso integral aos dados que sustentam a alegação.
A questão torna-se ainda mais séria porque o EIT, a entidade europeia que atribuiu financiamento à InnoEnergy, também divulgou a alegação climática. Segundo o Follow the Money, o EIT recusou comentar a metodologia e afirmou que os valores eram estimativas prospetivas da KIC, não estando ligados a decisões de financiamento.
Esta resposta cria uma zona cinzenta. Se os números são suficientemente relevantes para serem comunicados por uma entidade europeia, deveriam ser suficientemente robustos para serem auditáveis. Se são apenas indicativos, deveriam ser apresentados ao público com a devida prudência.
Conflito de interesses no centro da metodologia
O conflito de interesses é evidente. Basta verificar a estrutura do processo. Empresas financiadas ou apoiadas por uma entidade têm incentivo para demonstrar elevado impacto climático. A entidade financiadora tem incentivo para mostrar que o seu portefólio justifica fundos, capital, prestígio e influência política.
Análise de peritos
Para agravar o caso, especialistas ouvidos pelo Follow the Money criticaram a metodologia da InnoEnergy, apontando falta de rigor científico e critérios pouco claros na avaliação do impacto climático das empresas.
Irene Monasterolo, professora de finanças climáticas, considerou que as respostas dos investidores revelam uma avaliação subjetiva e sem alinhamento claro com padrões internacionais.
Benja Faecks, da Carbon Market Watch, classificou a metodologia como suspeita e alertou para possíveis conflitos de interesse, sobretudo por permitir que as próprias empresas calculem o seu impacto climático.
Quem está por trás da InnoEnergy
A InnoEnergy não é simplesmente um braço da União Europeia. É uma entidade híbrida, nascida no ecossistema europeu de inovação, apoiada pelo EIT, mas detida por acionistas industriais, financeiros, académicos e tecnológicos.
A própria página da InnoEnergy indica que a estrutura acionista se divide entre empresas industriais, instituições financeiras e entidades de educação, formação, investigação e tecnologia. A distribuição pública por categoria aponta para 43% em empresas industriais, 43% em educação, formação e centros de investigação e tecnologia, e 14% em instituições financeiras.
Entre os acionistas identificados publicamente estão grandes grupos como Renault, Volkswagen, Schneider Electric, Siemens Financial Services, Santander, TotalEnergies e Capgemini. Isto mostra que a InnoEnergy opera num espaço onde se cruzam fundos públicos, capital privado e grandes interesses industriais.
Falta de transparência e de controlo de financiamentos da UE
A InnoEnergy opera numa zona onde se cruzam dinheiro europeu, política industrial, transição energética, capital privado e grandes grupos económicos. Sem uma metodologia comum, auditoria independente, dados verificáveis e separação clara entre impacto real e impacto projetado, a alegação de evitar 2,3 gigatoneladas de CO₂ equivalente até 2030 permanece sem prova pública.
Além disso, a Comissão Europeia tem um infindável historial de falta de transparência, de omissão dos destinatários finais dos seus financiamentos e da ausência de mecanismos de controlo.
O caso insere-se num contexto mais amplo de críticas à transparência e ao controlo de financiamentos europeus. Existem antecedentes documentados de falta de transparência, omissão de beneficiários finais e fragilidades na medição do impacto climático de fundos europeus.
Mais grave ainda, nesta área de “investimentos climáticos” existe mesmo um relatório do Tribunal de Contas Europeu que, além de relatar esse tipo de irregularidades, denuncia mesmo a utilização errada de coeficientes climáticos. Segundo os cálculos do tribunal, só em relação a três domínios de intervenção (edifícios energeticamente eficientes, sistemas energéticos inteligentes e caminhos de ferro) essas falhas terão levado a uma sobrestimação de cerca de 34,5 mil milhões de euros.
Assim, este caso não é isolado, mas insere-se num padrão de falta de rigor e de opacidade da Comissão Europeia o que, por sua vez, reforça as suspeitas sobre a sua idoneidade e impermeabilidade a interesses corporativos.
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