Filipe Froes participou num conteúdo comercial do Público sobre a prevenção da infeção por VSR, que omite os sinais de risco potencialmente fatais, detetados na vigilância pós-comercialização das vacinas contra esse vírus. O médico, que declarou ter recebido cerca de meio milhão de euros de grandes farmacêuticas em dez anos, tem aumentado a sua relação profissional e financeira com a GSK, que simultaneamente comercializa a vacina e patrocina o artigo.
Um conteúdo publicado pelo Público, na área Estúdio P, sobre o vírus sincicial respiratório, VSR, reabre a discussão sobre a fronteira entre informação de saúde pública, comunicação comercial e promoção indireta de medicamentos.
O artigo, intitulado “VSR: mais prevenção e protecção para os adultos”, foi publicado em 18 de Março de 2026 na área Estúdio P do Público. Nas redes sociais, responsáveis ligados à área da saúde e à indústria farmacêutica promoveram o conteúdo como parte de uma discussão sobre o impacto do VSR nos adultos, com referência à prevenção, à vacinação do adulto e à necessidade de proteger grupos vulneráveis.
De notar que, nas partilhas analisadas, não foi identificada qualquer referência clara ao facto de se tratar de um conteúdo comercial.

Fonte: Linkedin
GSK é uma das comercializadoras da vacina contra o VSR
A primeira questão está no patrocinador. A GSK é titular da autorização de introdução no mercado de Arexvy, uma das duas vacinas contra o VSR disponibilizadas em Portugal. A vacina só pode ser obtida com receita médica e deve ser usada de acordo com recomendações oficiais emitidas pelas autoridades nacionais de saúde.
Em Portugal, a informação disponível no Índice Nacional Terapêutico identifica Arexvy como medicamento biológico sujeito a receita médica, não comparticipado e sujeito a monitorização adicional. Tem um preço de venda ao público de 198,52 euros.
No mesmo mercado existe outra vacina contra o VSR, a Abrysvo da Pfizer, também sujeita a receita médica e não comparticipada, segundo a mesma base de dados.
Efeitos adversos das vacinas contra o VSR ficaram fora do centro da mensagem
Outro facto que salta à vista é que ela apresenta a prevenção do VSR como prioridade de saúde pública, mas não destaca de forma proporcional os sinais de segurança que têm sido discutidos na vigilância pós-comercialização das vacinas contra o VSR.
Um estudo publicado em 2025 analisou notificações do VAERS, sistema norte-americano de vigilância passiva de eventos adversos após vacinação, relativas a três vacinas contra o VSR: Arexvy/GSK, Abrysvo/Pfizer, e Mrna e mRESVIA/Moderna.
Foram analisadas 5.147 notificações relativas à Arexvy, da GSK, 2.734 relativas à Abrysvo, da Pfizer, e 35 relativas à mRESVIA, da Moderna. Os autores identificaram 91 sinais positivos para Arexvy, 103 para Abrysvo e 8 para mRESVIA.
Nos relatos classificados como graves, as vacinas da GSK e da Pfizer foram associadas a nove eventos médicos importantes, incluindo trombocitopenia, trombocitopenia imune e Síndrome de Guillain-Barré. A generalidade dessas condições pode ser clinicamente muito grave e, em determinados casos, fatais.
Para a vacina da Pfizer, além de aumento de eventos semelhantes às da GSK, o estudo identificou três sinais graves relacionados com gravidez: hemorragia na gravidez, morte fetal e hipocinesia fetal.
FDA exigiu aviso sobre síndrome de Guillain-Barré
A FDA exigiu, em Janeiro de 2025, alterações à informação de prescrição das vacinas RSV da GSK e da Pfizer para incluir um aviso sobre risco de síndrome de Guillain-Barré nos 42 dias após a vacinação. Segundo a agência norte-americana, o conjunto da evidência sugere aumento de risco, embora os dados disponíveis sejam insuficientes para estabelecer causalidade definitiva.
Dados do VAERS não provam causalidade, mas não devem ser ignorados H3
O VAERS é um sistema de vigilância passiva, cogerido pelo CDC e pela FDA, que recolhe notificações de eventos adversos após vacinação. Não permite, por si só, determinar causalidade, mas permite detetar sinais de segurança quando determinados eventos ocorrem com frequência anormal e relevância estatística.
Num conteúdo comercial sobre vacinação, uma apresentação equilibrada deveria distinguir entre benefício esperado, incerteza científica, sinais pós-comercialização e riscos sob monitorização do produto promovido.
Participação de Filipe Froes
A presença de médicos num conteúdo comercial patrocinado por uma farmacêutica com interesse direto no mercado da doença em causa levanta um problema acrescido de transparência.

Fonte: VSR: mais prevenção e protecção para os adultos | Conteúdo comercial | PÚBLICO
Um dos médicos citados e que deu a cara ao artigo foi Filipe Froes, pneumologista conhecido por conteúdos e iniciativas sobre vacinação, e que teve ainda mais destaque durante a crise covid.
Conflitos de interesse
Filipe Froes tem sido financiado ao longo de décadas por grandes empresas farmacêuticas com produtos associados à sua especialidade. Só nos últimos 10 anos, declarou ter recebido mais de meio milhão de euros.
Uma das farmacêuticas com quem Filipe Froes estreitou relações profissionais financeiras foi exatamente a GSK. Segundo dados da Plataforma de Transparência e Publicidade do Infarmed, nos três últimos anos, entre 2023 e 2025, o médico declarou ter recebido cerca de 15,5 mil euros dessa multinacional.
Historial
Filipe Froes já foi anteriormente alvo de escrutínio por declarações públicas falsas e enganosas sobre vacinação e doenças respiratórias. Em artigos anteriores, analisámos afirmações suas que: (1) sobrestimaram os riscos de certas infeções e (2) exageram os benefícios e minimizaram os riscos de medicamentos e vacinas de farmacêuticas que o financiaram.
Entre os múltiplos casos estão a falsa informação sobre a forma de aprovação e respetivos riscos de vacinas covid aquando da campanha dessa vacinação para crianças ou o descartar dos riscos da vacina AstraZeneca contra a doença, numa fase em que eles já eram conhecidos e imediatamente antes de países como a Noruega a retirarem devido a esses riscos.
Isto ocorreu numa altura em que o médico auferia somas elevadas dessas empresas, especialmente da Pfizer, e integrava conselhos consultivos da AstraZeneca, em 2021 e 2022.
Contacto com Filipe Froes
Contactámos via email Filipe Froes para o questionar sobre a não declaração de conflitos de interesse no artigo e sobre os estudos científicos em que se baseou para recomendar a vacinação contra o VSR em adultos saudáveis, nomeadamente entre os 18 e os 60 anos.
Não obtivemos resposta.
Ideias finais
O conteúdo do Estúdio P sobre VSR não deve ser analisado apenas como uma peça de literacia em saúde. Deve ser analisado como conteúdo comercial publicado num jornal, sobre uma doença para a qual a patrocinadora comercializa uma das duas vacinas disponíveis no mercado português.
A conjugação entre patrocínio farmacêutico, mensagem favorável à prevenção vacinal, participação de um médico com relações financeiras com a GSK e ausência de destaque para sinais de segurança pós-comercialização cria um problema de transparência.
O caso justifica escrutínio pela ERC, pelo Infarmed e pela Ordem dos Médicos. Não apenas para que a informação sobre VSR seja mais rigorosa e completa, mas também para garantir que o público sabe quando está perante jornalismo, quando está perante comunicação comercial e quando uma mensagem de saúde pública coincide com o interesse económico direto de quem a financia.
Fontes:
VSR: mais prevenção e protecção para os adultos | Conteúdo comercial | PÚBLICO
Ver também:
Editorial: Desinformação, conflitos de interesse e ética segundo Filipe Froes – The Blind Spot
Caso “Falso estudo”: Cronologia e provas da manipulação da opinião pública – The Blind Spot
