A evidência científica sobre a ansiedade climática começa a revelar um padrão relativamente consistente. Nos últimos anos, vários estudos associaram o conhecimento estruturado sobre ambiente e alterações climáticas a níveis mais baixos de ansiedade climática. Em sentido inverso, a exposição frequente a conteúdos climáticos nos media surge ligada a níveis mais elevados dessa ansiedade.
A ansiedade climática já é um objecto de investigação identificável e mensurável. Em 2021, a revisão sistemática de Yumiko Coffey e colegas descrevia a ecoansiedade como um campo ainda fragmentado, com conceitos e instrumentos de medição em consolidação. Um ano antes, tinha sido publicado um dos instrumentos mais influentes desta área, mostrando que a ansiedade climática pode ser distinguida de outras formas de ansiedade e que tende a ser mais frequente entre adultos mais jovens.
Também em 2021, Marlis Wullenkord e colegas validaram essa escala numa amostra de língua alemã. O estudo encontrou níveis médios globalmente baixos de ansiedade climática, mas identificou correlações positivas com ansiedade geral, sintomas depressivos, evitamento e apoio a políticas ambientais. Em termos simples, a ansiedade climática existia, era mensurável e relacionava-se com outras dimensões do funcionamento psicológico e das atitudes sociais.
Ansiedade climática e conhecimento
Um dos estudos mais citados sobre a relação entre conhecimento e ansiedade climática foi publicado em 2023 na revista Climatic Change. Com base em dados de 2.066 adultos empregados na Alemanha, os autores concluíram que níveis mais elevados de conhecimento ambiental global e de conhecimento específico sobre clima estavam associados a níveis mais baixos de ansiedade climática, mesmo depois de controlarem variáveis como idade, sexo, escolaridade, atitudes ambientais e traços de personalidade.
No estudo, a medição do conhecimento não assentou em percepções subjetivas dos participantes sobre aquilo que achavam saber. Foi construída a partir de perguntas baseadas em escalas académicas anteriores, manuais, currículos e fontes de entidades públicas alemãs da área ambiental, entre elas a Agência Federal do Ambiente e o Ministério Federal do Ambiente. Trata-se, portanto, de uma medida de conhecimento objetivo ancorada em referências institucionais e académicas, ainda que a própria definição do que conta como “conhecimento” nesta matéria continue a ser discutida na literatura.
Os resultados do estudo alemão foram complementados por investigações mais recentes. Um estudo com 323 participantes dos Estados Unidos e do Canadá avaliou o conhecimento climático através de 11 perguntas, separando essa variável da exposição mediática. Os autores encontraram uma associação negativa, ainda que modesta, entre conhecimento climático e ansiedade climática. Mais conhecimento previu menos ansiedade, e a exposição aos media, medida em separado, não mediou essa relação.
Outra investigação, com 327 adultos no Canadá, avaliou o conhecimento climático objetivo por meio de 28 perguntas de escolha múltipla. Também encontrou uma correlação negativa entre conhecimento climático e ansiedade climática, com um coeficiente de r = -0,22.
Exposição mediática e ansiedade climática
Se a evidência directa sobre a relação entre conhecimento e ansiedade climática ainda não é muito vasta, a evidência sobre exposição mediática é mais extensa. Vários estudos sugerem que a frequência e o tipo de contacto com conteúdos climáticos nos media estão associados a níveis mais elevados de ansiedade climática.
Impacto emocional das imagens sobre o clima
Um antecedente relevante para este debate é um artigo publicado na Climatic Change em 2019. O estudo não mediu directamente a ansiedade climática, mas ajuda a compreender porque é que a exposição mediática pode influenciar a forma como as pessoas vivem emocionalmente o problema.
Ao analisar mais de mil imagens publicadas em jornais do Reino Unido e dos Estados Unidos entre 2001 e 2009, a autora concluiu que os media não determinam mecanicamente o envolvimento do público com as alterações climáticas, mas moldam as condições desse envolvimento.
O artigo sublinha que as imagens climáticas são processadas de forma rápida e afectiva, influenciam a forma como as pessoas sentem e agem, e mostra que o discurso visual dominante oscilou entre uma moldura de distanciamento, que apresenta o risco climático como longínquo no tempo e no espaço, e uma moldura de conflito ou contestação, que ganhou peso a partir de meados da década. A relevância deste estudo está precisamente aqui: ele fornece base para a ideia de que o tipo e a intensidade da exposição mediática, sobretudo visual, podem aumentar a saliência emocional do tema e favorecer respostas emocionais mais intensas.
A relevância deste estudo para o tema da ansiedade está aí: ele fornece base sólida para a ideia de que o tipo e a intensidade da exposição mediática, em especial visual, alteram a saliência emocional do tema e podem favorecer respostas afetivas mais fortes, algo que estudos posteriores sobre ansiedade climática vieram medir de forma direta.
Evidência sobre a relação entre ansiedade climática e exposição aos media
A evidência directa sobre essa relação aparece com mais clareza em estudos posteriores. Em 2021, uma investigação com 312 universitários italianos entre os 18 e os 26 anos concluiu que a exposição à informação sobre alterações climáticas nos media, bem como a atenção dedicada a esse tipo de conteúdo, se relacionava positivamente com a ansiedade climática.
No ano seguinte, num inquérito a 1.338 adultos no Reino Unido, parcialmente replicado depois numa subamostra de 891 participantes, encontrou um resultado semelhante. Os autores acrescentaram que o comportamento de procura de informação sobre alterações climáticas era o preditor mais forte da ansiedade climática entre as variáveis analisadas.
A evidência tornou-se mais robusta quando começaram a surgir desenhos experimentais. Em 2023, um estudo pré-registado com 284 jovens chineses, complementado por um inquérito paralelo com 507 participantes, concluiu que a exposição a notícias sobre aquecimento global aumentava a ecoansiedade.
Outros estudos sobre informação climática
Existem outros estudos sobre acesso a informação sobre o clima, que tendem a relacionar a exposição a informação sobre alterações climáticas com maior ansiedade climática. No entanto, muitos não distinguem entre o conhecimento objetivo, ainda que apenas baseado em fontes institucionais, e exposição frequente a informação climática. Essa limitação é relevante, porque a exposição mediática pode envolver conteúdos de natureza muito diferente, provenientes de fontes com graus variados de fiabilidade, contexto e rigor.
Ideias finais
A maioria dos estudos aponta para níveis médios de ansiedade climática relativamente baixos na população em geral. Ainda assim, isso não significa que o problema seja irrelevante. A ansiedade climática pode afetar de forma mais intensa grupos específicos, nomeadamente pessoas mais jovens, mais sensíveis ao tema ou mais expostas a conteúdos climáticos de forte carga emocional.
O facto de o conhecimento, ainda que medido segundo critérios discutíveis e dependente de fontes institucionais, aparecer associado a menor ansiedade climática, enquanto a exposição frequente aos media surge ligada ao seu aumento, merece reflexão. A diferença entre compreender melhor um problema e estar constantemente exposto a representações dramáticas desse problema pode ser decisiva.
Deste modo, os grandes media que estão bastante focados neste problema parecem ser, eles próprios, um dos seus principais responsáveis. A difusão de imagens intensas, a saturação mediática com eventos atmosféricos extremos e a circulação de mensagens alarmistas ou descontextualizadas podem estar a contribuir para um agravamento do mal-estar psicológico em parte da população, sobretudo entre os mais vulneráveis.
Fontes:
Development and validation of a measure of climate change anxiety – ScienceDirect
Predicting climate change anxiety
